O site pretende explorar temas da psiquiatria e conceitos da psicologia jungiana em filmes de cinema.

Chronic

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Cronic

Sinopse: David (Tim Roth) é um enfermeiro que fornece assistência em domicílio a pacientes em fase terminal.

O filme "Chronic" (2015), do mexicano Michel Franco, único filme da América Latina na disputa pela Palma de Ouro, provocou um impacto no Festival de Cannes com uma descrição sóbria, realista e devastadora do fim da vida.

A palavra “crônico”, em sua origem, está associada à palavra grega “khrónos”, que significa tempo. No filme refere-se ao tempo lento e inevitável que algumas dores físicas e psíquicas nos são impostas na passagem para a morte.

O longa-metragem aborda com sutileza, situações como a passagem do tempo para pessoas que não esperam mais nada, em um clima de tédio infinito. O enfermeiro David dedica sua vida em cuidar dos doentes terminais e apesar do simultâneo distanciamento afetivo que nos transmite, de forma alguma ficamos impedidos de sentirmos sua entrega e empatia com os doentes. De fato, em alguns momentos, poderíamos supor que o protagonista parece depender da dor do outro para suportar a angústia que carrega em seu íntimo. Na aridez que impõe à sua vida, dedica flores apenas aos finais alheios. Contensão e distanciamento o defendem de oferecer a si mesmo, a humanidade que derrama sobre aqueles que estão diante do muro da finitude.  

 

Dor

Apesar da necessidade inerente ao humano de polarizar o mundo a fim de acessá-lo e compreendê-lo, é indiscutível que essa divisão é artificial e, na verdade, somos uma totalidade. A separação que fazemos entre corpo e mente é fruto da forma como podemos apreender a realidade, mas físico e psíquico são aspectos que de algo único.

Nas palavras de C.G. Jung: “A dor humana vive unida ao corpo, numa unidade indissolúvel, por isso só articuladamente é que se pode separar a psicologia dos pressupostos básicos da biologia. (…)”. Sendo assim a manifestação de um sintoma físico nunca deixa de ter também um caráter psicológico, constituindo-se numa linguagem simbólica do Inconsciente.

Segundo o mesmo autor: “Um funcionamento inadequado da psique pode causar tremendos prejuízos ao corpo, da mesma forma que inversamente, um sofrimento corporal afeta a alma, pois a alma e o corpo não são separados, mas animados pela mesma vida.”

E obviamente, o sintoma chamado dor está incluído nessa forma de entendimento. A dor é antes de tudo, seja ela física ou psíquica, um grito do inconsciente e é imprescindível que todo profissional de saúde possa saber ouví-la e atendê-la. Na película, Tim se entrega ao cuidado das dores externas, parecendo negligenciar suas próprias angústias decorrentes de traumas passados, como aos poucos o filme nos revela. Tenta fugir e se distanciar, ingenuamente tentando deixar para trás, aquilo que não conseguiu elaborar dentro de si.

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Finitude

A doença grave, terminal ou outras situações-limite, por tornarem a morte objetiva e próxima, não permitem que se negue mais a finitude da vida. A perspectiva da iminência da morte traz à tona questões como medo da dor e do sofrimento, apreensão em deixar a família desamparada e conflitos do passado. Obviamente o sofrimento acaba por abranger também a família que nem sempre consegue cuidar do enfermo e, não raro, acaba tendo que lidar com sentimentos de impotência e culpa. No filme, David chega a enfrentar hostilidade de parentes e a acusação infundada de assédio sexual contra um paciente idoso. De fato, a família necessita acolhimento tanto quanto o doente.

 

Cuidados Paliativos

Proteger é o significado de paliar, derivado do latim pallium, termo que nomeia o manto que os cavaleiros usavam para se proteger das tempestades pelos caminhos que percorriam. Proteger alguém é uma forma de cuidar, tendo como objetivo amenizar a dor e o sofrimento, sejam eles de origem física, psicológica, social ou espiritual. Essas são as palavras que o site da Academia Nacional de Cuidados Paliativos escolhe para definir essa modalidade de atendimento que trabalha em equipes multidisciplinares. Vale ressaltar que os Cuidados Paliativos se baseiam no conceito denominado ortotanásia que se define como morte natural, digna e sem sofrimento aos pacientes irrecuperáveis, sem interferência de meios como medicamentos e aparelhos Distingue-se da eutanásia que é a prática pela qual se abrevia a vida de um enfermo incurável, em estado terminal ou que esteja sujeito a dores e intoleráveis sofrimentos físicos ou psíquicos, de maneira controlada e assistida por um especialista. No Brasil é considerada homicídio.

No filme David trabalha sozinho e carrega pessoas e dores tentando substituir o auto-perdão que não consegue se oferecer. Possivelmente a ideia da película é enfatizar o caráter humano e de entrega do personagem, que aceita o sofrimento e a morte tentando oferecer dignidade aos últimos dias de quem parte. Obviamente na prática dos Cuidados Paliativos o que se preconiza é o trabalho construtivo em equipe e não uma destrutividade pessoal em busca de redenção. Isso, no entanto, não tira a beleza e importância do filme que pode fazer crescer a reflexão sobre a maior necessidade de atenção ao tema, visto a lacuna de serviços, desconhecimento e preconceito relacionados aos Cuidados Paliativos no Brasil.

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Concluindo, o longa trata do tema universal da doença e da finitude, ainda um tabu para nossa sociedade ocidental, focada exclusivamente em suas lutas onipotentes e desesperadas contra a morte. Carrega a nudez brutal da dor, que entretanto é passível de se dissolver na força delicada do cuidado amoroso que podemos oferecer àqueles que morrem.

 

Referências

1. JUNG, C. G. Natureza da Psique. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

2. JUNG, C. G. Psicologia do Inconsciente 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

Site da Academia Nacional de Cuidados Paliativos - http://paliativo.org.br/

A Casa em Cubinhos

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Sinopse: O filme conta a história de um velhinho que vive solitário em uma cidade inundada.

A Casa em Cubinhos (“Tsumiki no ie”) é um curta-metragem de animação japonês criado por Kunio Katō em 2008. Ganhou o prêmio Oscar de melhor curta de animação de 2009.

Transbordando de poesia, o curta-metragem mergulha nos temas do fluir da vida, velhice e memória com extrema delicadeza e profundidade.

O fluir

Como as belas imagens do filme nos contam, construímos nossa vida e nossa história assim como erguemos nossa casa. Ela nos simboliza, nos contém e expressa nossos movimentos do viver, com seus períodos de corajosas expansões ou temerosos recuos.

Superpondo nossos “cubinhos”, criamos nossa identidade e nossa morada, impulsionados pelo fluir aquoso do tempo.

A cada etapa percorrida, a água da vida nos obriga a rearranjar nossas atitudes e, através da construção de um novo “cubinho”, nos adequamos às novas necessidades. Como um farol que aponta para o alto, ascendemos a torre do viver, construindo dia-a-dia nosso futuro e nosso devir.

Por fim, libertos do supérfluo e, concentrados em espaços menores e de maior experiência, nos dirigimos ao “cubinho” derradeiro e à morte, sempre atraídos pela nostálgica beleza que a transcendência dos céus nos promete.

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Me recordei de uma poesia que há alguns anos escrevi:

“Se o fluir do tempo lavasse

A sujeira de minhas maldades

Se o fluir do tempo limpasse

As marcas dos negros enganos

Se o fluir do tempo levasse

As lembranças de todos meus danos

E perdoasse…

Como água ligeira escorrendo

À você eu retornaria

E o leito cansado do meu rio

Ao seu mar

Afinal

Se entregaria”.

A velhice e a memória

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A água temporal que incansavelmente nos sobrepõe, sabiamente não dissolve a cola da memória.

A história inscrita nas lembranças de cada indivíduo se constitui num patrimônio pessoal valioso cuja preservação está relacionada à nossa saúde emocional. Durante a velhice isto é particularmente importante uma vez que o idoso que não consegue recordar momentos ou passagens vividas pode se sentir incapaz, doente e angustiado.

Nas palavras de Bobbio:

“O mundo dos velhos, de todos os velhos, é de modo mais ou menos intenso, o mundo da memória. Dizemos: afinal, somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos. E eu acrescentaria: somos aquilo que lembramos. [....]. Na rememoração reencontramos a nós mesmos e a nossa identidade, não obstante os muitos anos transcorridos, os mil fatos vividos. Encontramos os anos que se perderam no tempo, as brincadeiras de rapaz, os vultos, as vozes os gestos dos companheiros de escola, os lugares, sobretudo aqueles da infância, os mais distantes no tempo e, no entanto, os mais nítidos na memória. Eu poderia descrever passo a passo, pedra a pedra aquela estrada dos campos que percorríamos quando rapazes para chegar a uma herdade um pouco fora de mão (BOBBIO, 1997)”.

À medida em que envelhecemos nossas lembranças se avolumam e o ato de revisitá-las permite reforçar o cimento da casa da vida, prosseguindo em sua construção.

É do vínculo com o passado que se extrai a força para formação de identidade, principalmente quando cuidamos das lembranças vividas nos diferentes tempos da vida. E é através da memória que conseguimos, de algum modo, a preservação e a retenção do tempo, salvando-o do esquecimento e da perda.

Uma foto, um lugar, uma música, um cheiro ou uma comida são iscas que nos fazem mergulhar em recordações que curam, se estivermos em paz com nosso passado. Sensivelmente, o filme escolhe o cachimbo, símbolo da paz, para fisgar o idoso às profundezas vividas.

Para os velhos, a prática de recordar contribui para fortalecer ou restituir o senso de identidade e a autoestima. A capacidade de manter o passado vivo, principalmente na presença de uma escuta atenta, é um dos mecanismos que as pessoas idosas encontram para manter a sua integridade psicológica (Bosi, 1998).

A memória nos torna capazes de revisitar nossos eus mais profundos, submersos em recordações, e trazê-los à tona, renovados de esperança. Ao atribuir significado ao que somos, a memória revela seu aspecto prospectivo, voltado ao planejamento e que nos permite imaginar o que viremos a ser. Sendo assim, a memória não apenas agrega e solda toda a experiência vivida do idoso mas também lhe dá a oportunidade de impulsionar à si mesmo rumo ao futuro.

E então, com as taças do passado e do presente em mãos, estamos prontos para fazer um brinde ao adiante, à vida que prossegue e à nossa história não finda.

Referências

BOBBIO, Norberto. O tempo da memória – de senectude e outros escritos autobiográficos: Rio de Janeiro, Campus, 1997. 

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Cia das Letras, 1998.

Hipócrates: Diário de um médico francês

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HipocratesSinopse: Benjamin inicia sua residência acompanhando outro colega residente mais velho e experiente e logo descobre que a realidade do dia a dia está distante da teoria.

Medicina


Este longa traz um panorama sobre a medicina e seu exercício profissional na França, com semelhanças ao que testemunhamos aqui no Brasil.
Levanta questões sociais de saúde como a precariedade da estrutura médica e falta de recursos, tensão e discriminação do profissional estrangeiro em sua inclusão no sistema vigente e dilemas pessoais frente a questões éticas e situações-limite da vida.
Diante de tantos enfoques que o filme permite, optei pela perspectiva da relação do médico com o sofrimento do outro.
O filme escancara a angústia e o tão frequente despreparo do jovem médico Benjamin recém admitido, diante de suas limitações e erros. E nos confronta com a ambivalência de sentimentos a que somos submetidos diante de questões éticas que envolvem sofrimento, dignidade e finitude da vida.

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O curador ferido


Esse termo cunhado por C.G.Jung nos conduz, de maneira bastante simplificada, à ideia de que um curador é compelido a tratar um outro indivíduo porque ele mesmo foi ferido. Ao mesmo tempo e de modo complementar, todo paciente ferido possui um médico dentro de si que, quando ativado, mobiliza seus próprios recursos de cura. Trata-se de um binômio.

No entanto, a fim de me ater ao filme, restringirei o foco dessa reflexão a apenas um dos polos, o da ferida que o médico carrega dentro de si.

Geralmente o curador não sabe e não reflete a respeito de suas dores, sendo que sua “decisão” por determinada profissão voltada para a cura acaba sendo uma escolha inconsciente que, apesar de desconhecida ao ego, tem como desejo último, aplacar seu próprio sofrimento interior. Aquele que se propõe a curar, muitas vezes entende esse movimento de escolha profissional como uma vocação ou “chamado”, não se aprofundando a respeito dessa motivação. Como se curar fosse um antídoto para não sofrer. Uma vacina para adquirir imunidade diante das enfermidades e dores do viver. Assim, o sofrimento fica reservado ao paciente que se torna o receptáculo das projeções das chagas de quem cura e não sabe que as possui. É muito importante que o curador (médico, terapeuta, por exemplo) possa conhecer a si mesmo, de modo a não ficar identificado e preso na condição unilateral de quem tudo pode, insistindo em negar seu sofrimento, colocando-o “do lado de fora”, projetado em seu paciente. Ao adquirir essa consciência, passa a poder admitir suas limitações, falibilidade e a possibilidade de cometer erros. Abandona o nocivo auto-endeusamento, passa a praticar a empatia e ouvir o outro. Humaniza-se.

O médico diante da morte

Apropriando-se da capacidade de reconhecer as próprias feridas e imperfeições inerentes a elas, o médico se dá conta que não é divino e que suas ações esbarram em inevitáveis limites. Percebe que seu poder não é absoluto e passa a definir com tranquilidade até onde quer e deve agir humana e eticamente. Esta nova possibilidade remete a outra questão muito importante que é a do curador aceitar a morte como parte da vida. Procurar a cura não possibilita a ninguém, eliminar definitivamente a morte. E saber recebê-la  permite ao médico a possibilidade de preparar com dignidade a chegada desse momento solene. O filme cuida de trazer a morte de duas formas: a inesperada, fruto da limitação de recursos e do erro humano e aquela esperada e até desejada, muitas vezes difícil de ser compreendida pelo curador onipotente. Benjamin sofre por descobrir-se falível. Abdel, mais maduro e conhecedor dos seus limites, por ser impedido de oferecer uma finitude digna à paciente idosa sem perspectivas de viver.

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Empatia e Humanidade

No filme, Abdel nos presenteia com o calor de sua empatia, possibilidade que todos possuímos de nos colocar no lugar do outro e sintonizar nossos corações numa mesma frequência e batimento. Percebe as angústias do colega jovem, inexperiente e assustado, compartilhando com ele a humanidade que admite erros e finais. Sente a proximidade da morte e o desejo de partir da senhora que vive seus últimos dias, aceitando-a e cuidando para proporcionar a dignidade que é direito de todo ser humano.

Enfim, a figura de um curador ferido vem nos contar sobre o valor das feridas dentro de si mesmo que, embora façam sofrer, abrem caminho para um entendimento maior a respeito das leis da vida.

A dor é inevitável. Penetra a alma, corta e faz sofrer. Mas é essa mesma dor que aprofunda nosso ser no mundo e nos cicatriza em camadas cada vez mais firmes de humanidade.

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Armazenados

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Sinopse: Durante cinco dias acompanhamos a rotina de trabalho de um senhor prestes a se aposentar e o jovem aprendiz que ficará em seu lugar.

“Armazenados” é um filme, acima de tudo, singelo. Carrega o sentido daquilo que é genuíno e simples, sem sofisticação ou enfeites. Nem por isso vem a ser raso ou banal. Pelo contrário, transborda de inocência e possui a profundidade incomensurável que é possível às almas humanas enquanto compartilham o mesmo tempo e espaço.

O filme apresenta a convivência do Sr Lino que irá se aposentar e o jovem Nim que o substituirá e todos os contrastes que vão surgindo desta relação. Do ponto de vista psicológico, os personagens podem ser compreendidos como representações de duas instâncias psíquicas presentes em todos nós denominadas puer e senex (o jovem e o velho). São formas de existir ou padrões de comportamentos que possuímos e expressamos em menor ou maior grau dependendo da situação e de nossa maneira de ser no mundo. Por caracterizarem polos ou extremos, são plenas de contrastes e caminham juntas em nossa psique, embora muitas vezes não sejamos capazes de vivê-las em equilíbrio. Há, ou deveria haver, em todos nós, um jovem que brinca e improvisa vivendo lado a lado com um velho responsável e fundamentado em suas verdades. Ao longo da vida há uma tendência natural ao amadurecimento e substituição da fantasia pela realidade, da brincadeira pela seriedade. Mas não é saudável, psiquicamente, permanecermos fixados num polo, identificados com o jovem que não amadurece ou com aquele que parece ter nascido velho.

images (9)Na película, o jovem Nim entra na vida do Sr Lino e vice-versa e a interação transforma a vida dos dois. Nim carrega a capacidade de mudar, a curiosidade, a novidade, a desordem, a irresponsabilidade, o movimento. Na figura do Sr Lino enxergamos o peso da realidade, a lentidão, a rigidez, a negatividade, a certeza, “os pés no chão”. E fixado na dinâmica Senex, percebemos que o Sr Lino está cristalizado em suas regras e verdades vazias, tal o armazém onde se encontram. Nim, pueril e irresponsavelmente, “bagunça” as certezas vigentes e consegue, por fim, um mastro que poderá redirecionar os rumos da vida do velho Lino que sai transformado dessa relação com o jovem. Nim, por sua vez, é inserido no mundo da ordem, dos horários e dos deveres e suporta suas continências e limites, rumo ao amadurecimento.  

Nim dissolve, Lino cristaliza. E a vida deve fluir nesse meio do caminho. O jovem mente para o mundo buscando mudança e o velho mente para si mesmo a fim de não precisar enfrentá-la. Mas o jovem deve aprender a suportar a realidade e suas limitações, assim como o velho deve aprender a enfrentar as incontinências das novidades.

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Nos tornaremos mais inteiros se formos capazes de, respeitando o mastro do destino, alterarmos  nossos rumos, afrouxando-nos em jovialidade ou retesando-nos em certezas, conforme os ventos das mudanças soprarem em nossas vidas.

Biutiful

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Biutiful

Sinopse: O filme relata a história de vida de Uxbal, um homem em conflito com a paternidade, o amor, a espiritualidade, a morte, o crime e o sentimento de culpa.

Beleza

O vocábulo que dá nome ao filme, Biutiful, escrito de maneira  incorreta, nos remete à beleza que não é literal, convencional e que também podemos encontrar onde menos esperamos: na luta, na doença e na morte. Não é cheia de luzes mas brilha na escuridão através, por exemplo, do amor do protagonista pelos filhos e em sua luta pela existência. A grafia errada da palavra se ‘traduz’, a meu ver, no belo que não se perde nas dores da vida.

Biutiful trata de doenças. Abrange não apenas a doença física de uma pessoa com sua culpa e dor moral pela forma como se sustenta na vida, mas também a doença de um coletivo. O filme é uma denúncia social, é a sombra humana que escurece a película com seus abusos, discriminações e frieza entre as pessoas  sendo o retrato, no mundo, da doença terminal do protagonista. Entretanto, nesse cenário de injustiças e deterioração da realidade conseguimos percebermos, através do contraste, a sensibilidade e empatia que Uxbal tenta praticar por linhas tortas e grafias incorretas. 

images (6)A doença terminal, o sofrer e o morrer

À uma deterioração geral prolongada damos o nome de agonia e é o que sentimos ao logo de todo o filme que não romantiza situações onde a vida se degrada. Há intenso sofrimento no caminho de muitos dos personagens e, na verdade, todos nós sabemos que experimentamos dores ao longo de nossa jornada até a morte. Uma vez que os sofrimentos nos acompanham com tanta fidelidade, talvez pudéssemos “ouví-los” ao invés de insistirmos na crença ingênua de que seremos capazes de evitá-los ou vencê-los. Isto porque os dissabores transformam não só a materialidade do nosso corpo mas também nosso existir no mundo. Se fizermos uma analogia entre o sofrer e o ser submetido a altos graus de pressão e temperatura, processo pelo qual o grafite se transforma em diamante, percebemos que é através desse sofrimento que podemos nos conhecer, descobrir nossa riqueza interior e também nos lapidar. Lembrando que o diamante é a substância natural mais dura conhecida pelo homem e, em sua etimologia a palavra diamante significa indestrutível, o entendimento da dor que vivemos pode, desta forma, revelar o que em nós é indelével e eterno.

    

A doença terminal, em particular, por tornar a morte algo objetivo e próximo, não permite que se negue mais a finitude da vida. Assim, esta tem que ser reorientada, bem como seus objetivos, crenças e valores devem ser  acomodados na perspectiva de sua iminência e é o que o filme nos faz viver junto com Uxbal que corre contra o tempo para fazer os acertos necessários para o amparo dos filhos, ao mesmo tempo em que parece sentir o peso da culpa de seus erros.

imagesA doença terminal explicita na linha do tempo a etapa final de uma vida, da Opus Alquímica como chamavam os alquimistas da Idade Média, uma metáfora para o trabalho interior da alma durante nossa existência. Durante a Opus, a matéria ‘sofre’ e se transforma, sendo que tal sofrimento é dado como certo e desejado visto que o objetivo do processo é a transmutação do chumbo em ouro. Não chumbo e ouro físico e material mas a transformação de nossos aspectos de vulgaridade e escuridão plúmbeas em ouro alquímico, ou seja, na sabedoria reluzente que não se corrompe. Essa é a própria individuação de uma pessoa, processo de desenvolvimento psíquico que leva ao conhecimento consciente de sua totalidade.

images (7)Bipolaridade

Na película, Marambra, mãe do filhos de Uxbal, também sofre. Acompanhamos sua angústia psíquica em não ter equilíbrio emocional para cuidar dos filhos, apesar de tanto desejar viver seu papel de mãe. Há uma oscilação de humor que rompe a estabilidade de suas condutas e a harmonia de seus atos e infantiliza, em algumas passagens, sua maneira de estar no mundo. Esse estado pode ser nomeado genericamente de “bipolaridade”, mas o filme não nos permite fazer ou sugerir qualquer diagnóstico psiquiátrico específico. A psiquiatria é extensa nesse âmbito caracterizando diversos transtornos que variam de acordo com o tipos de instabilidade de humor, tempo de duração e intensidade dos sintomas.  Invariavelmente há importante prejuízo no funcionamento da vida do indivíduo, como podemos observar com Marambra no desenrolar do filme. Uma das grandes dificuldades relacionadas a essa condição é a dificuldade que o indivíduo apresenta de perceber quando os sintomas estão surgindo, admitir que seu estado começa a se tornar disfuncional, aceitar o tratamento proposto e concordar com sua manutenção a longo prazo.

Mediunidade

De forma genérica e simplista, a mediunidade é o instrumento através do qual um indivíduo pode fazer conexão com outras dimensões ou mundo espiritual. Vale lembrar que vou abordar o fenômeno do ponto de vista psicológico. Segundo essa perspectiva, a condição que alguns indivíduos possuem de conseguir efetuar contato com o que está além da nossa realidade têmporo-espacial estaria relacionada à uma capacidade psicológica normal que todos nós possuímos chamada dissociação. Vivenciamos essa possibilidade de forma leve quando sonhamos acordados ou nos perdemos no momento, enquanto fazemos alguma coisa. Alguns indivíduos podem experimentar esse fenômeno de modo intenso, como num transe, quando vivem os fenômenos mediúnicos. Uxbal possui a condição de se comunicar com os recém-falecidos e trazer aos parentes vivos algo que tenha ficado sem ser dito, amenizando a dor e facilitando a aceitação da morte do ente querido. Percebemos que isso, no entanto, não torna seu processo de partida menos doloroso, nem parece possibilitar a Uxbal, dar um sentido e significado à sua morte iminente. O protagonista não faz reflexões nem traz à luz de sua consciência o que essa condição poderia permitir.

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O anel

É muito rico percebermos que na última cena, o anel que era de sua mãe e que Uxbal dá à filha, traduz o símbolo de união entre eles e carrega a mensagem de que a ligação e a continuidade do amor nunca estará rompida. A forma circular do anel pressupõe o infinito, aquilo que não tem início nem fim, materializando o elo que permanecerá entre eles mesmo após a sua partida. Em suas últimas palavras à filha, Uxbal parece resgatar sua história transgeracional e unir aqueles que foram aos que ficarão, encontrando seu lugar na árvore familiar, imprimindo, enfim, a marca de sua essência na eternidade.

Amor

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AmorSinopse: Georges e Anne são um casal de idosos aposentados apaixonados por música que passa pelos difíceis obstáculos do envelhecimento.

 

Envelhecimento

Um duro processo de envelhecimento e a difícil tarefa do cuidador é o que o filme nos apresenta. A película, em si, já promove uma reflexão a respeito dos momentos bastante difíceis para quem envelhece, adoece e perde sua autonomia e também para o cuidador que pode precisar decidir sobre a melhor maneira de lidar com esse tempo que precede a morte. A questão sobre o que a medicina tradicional oferece neste processo de final de vida e a necessidade de novas perspectivas também é levantada.

Obviamente não há uma data para o início do envelhecimento, mas há sinais na vida que precisam ser aceitos e compreendidos pelo indivíduo. Devemos refletir e nos preparar para essa etapa.

Com muita beleza, Jung nos diz:

“Nossa vida compara-se a trajetória do sol. De manhã o sol vai adquirindo cada vez mais força até atingir o brilho e o calor do apogeu do meio dia. Depois vem a enantiodromia. Seu avançar constante não significa mais aumento e sim diminuição de força. Sendo assim, nosso papel junto ao jovem difere do que exercemos junto a uma pessoa mais amadurecida. No que se refere ao primeiro, basta afastar todos os obstáculos que dificultam sua expansão e ascensão. Quanto a última, porém, temos que incentivar tudo quanto sustente sua descida. Um jovem inexperiente pode pensar que os velhos podem ser abandonados, pois já não prestam para nada, uma vez que sua vida ficou para trás e só servem como escoras petrificadas do passado. É enorme o engano de supor que o sentido da vida esteja esgotado depois da fase juvenil de expansão, que uma mulher esteja “liquidada” ao entrar na menopausa. O entardecer da vida é tão cheio de significação quanto o período da manhã. Só diferem quanto ao sentido e intenção” (Jung, vol.7/1, 1987).

O filme traz uma passagem simbólica logo no seu início que mostra que a porta principal da casa em que mora um casal de idosos foi estranhamente aberta sem o seu consentimento, levantando a eles a suspeita e temor de que algo pudesse ter sido roubado. A casa simboliza o indivíduo e há aqui a sugestão de algo súbito e ameaçador que quer adentrar a vida. Claramente o envelhecimento é um processo de invasões e perdas até seu objetivo final, a morte. É o dissipar da última parcela de energia da vida que vai se tornando cada vez mais lenta e rarefeita e busca, como se soubesse o caminho, o alvo do repouso total.

Jung nos fala sobre isso:

“A vida é um processo energético, como qualquer outro, mas em princípio, todo processo energético é irreversível e, por isto, é orientado univocamente para um objetivo. E este objetivo é o estado de repouso. No fundo, todo processo é nada mais do que, por assim dizer, a perturbação inicial de um estado de repouso perpétuo que procura restabelecer-se sempre. A vida é teleológica “par excellence”, é a própria persecução de um determinado fim, nada mais é do que um sistema de objetivos prefixados que se procura alcançar” (Jung, vol. 8, 2002).

Como esse processo será vivido, no entanto, dependerá de cada indivíduo e seu contexto de vida.

Voltando ao filme, uma crise adentra a vida do casal. Anne passa mal e há a indicação médica de uma cirurgia, a priori, com baixo risco de complicação. Um ponto importante que gostaria de ressaltar aqui é que não ficamos sabendo se Anne participa da decisão de se submeter à cirurgia sugerida pelo médico.

O movimento Slow Medicine

Sem títuloA medicina tradicional avançou muito em desenvolver novos medicamentos, na tecnologia de exames diagnósticos e procedimentos de alta complexidade mas perdeu o foco no paciente e nos imprescindíveis diálogos entre este último e o médico para ponderar os riscos e benefícios de intervenções diagnósticas e terapêuticas.

Gostaria de trazer ao leitor uma abordagem que vem ganhando atenção e destaque no mundo todo, inclusive no Brasil. Trata-se de um movimento novo chamado Slow Medicine (Medicina Sem Pressa) que é uma proposta de resgate da arte de cuidar dentro da medicina tradicional que preconiza, dentre outros princípios, o de uma escuta cuidadosa e significativa do paciente, bem como uma atenção aos seus valores, expectativas e preferências  Assim, sem abandonarmos os avanços e todas as importantes conquistas médicas em nossos dias, nos permite resgatar o essencial aspecto humanístico do qual a arte médica sempre esteve imbuída (www.slowmedicine.com.br).

Retomando o filme, testemunhamos Anne em casa e com sequelas, sendo que é apenas nesse momento que ouvimos seu pedido explícito feito ao marido para que não volte a ser internada. Alguns diálogos breves entre a idosa e seu marido sobre seu estado e o desejo de morrer são imediatamente rechaçados, antes de serem ouvidos de modo maduro e permeável. Seus medos, como ser cuidada a partir de então e como deseja morrer, infelizmente não são discutidos mas poderiam ajudar a amenizar a angústia nesse momento de dúvidas e perdas. Georges ainda enfrenta a discordância da filha que, lutando contra a própria impotência, quer “resolver” a situação e decidir o que é melhor para os pais. Sem diálogos francos entre os familiares e aquele que está doente a respeito de suas preferências e do que espera, somados a atitudes de defesa e racionalização, acabam dificultando a tomada de decisões de quem cuida frente aos obstáculos que vão surgindo. É o que vemos acontecer com Georges à medida em que o conflito sofrimento-morte da esposa vai se descortinando.

Na verdade, o amor que sempre existiu entre os personagens, e que dá nome ao filme, será o sentimento que norteará Georges em tentar aplacar as dores das perdas instaladas na vida dele e de Anne. Somos apresentados, com o desenrolar do filme, à maneira como esse amor se manifestará e quantas questões ele nos fará, inclusive sobre a impactante decisão e maneira de Georges trazer a morte à Anne, sobre a qual me absterei de julgamentos.

Sabemos que a expectativa de vida vem aumentando e é cada vez maior a porcentagem de idosos na população brasileira e mundial. Não podemos mais ocultar de nós mesmos as questões de como viver a fase final da vida e de como morrer. O movimento Slow Medicine nos alerta que nem sempre fazer mais é fazer melhor. Na verdade, a medicina precisa encarar os desafios representados pelo cuidado aos idosos e aos doentes em fase terminal, procurando oferecer a “morte digna” que todos merecem.

Considerações finais

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Como nos propõe a psicologia analítica, a certeza da morte física caminha junto com a certeza de nossa eternidade psíquica. Nosso corpo morrerá, nossa consciência se extinguirá mas nossa inconsciência permanecerá e, após nossa morte, será devolvida ao universo com a marca de nossa essência. Não partimos do mesmo modo que chegamos. Quando somos restituídos à totalidade, nos entregamos transformados por todas nossas experiências de vida. Teremos, assim, modificado o todo que passa a somar agora nossa consciência adquirida, expandida e, tanto melhor, se evoluída durante a vida, sendo este o sentido de nossa existência.

       

       

       

       

Enfim, acompanhando a pianista Anne e sua história e fazendo um paralelo simbólico com a música, podemos perceber que qualquer composição carrega sempre um percurso circular de nascimento, transformação e morte. Anne faz parte desse ciclo. Foi iniciada nas notas musicais e, embora não tenha mais podido executá-las ao piano no final de sua vida, transformou-se nas músicas que tocam sua essência, deixando ao mundo o significado e a melodia de sua existência, seu mais genuíno legado.

Referências

 

JUNG,C.G. Psicologia do inconsciente . OC VII/1. Petrópolis: Vozes,1987

JUNG,C.G. A energia Psíquica . OC VIII. Petrópolis: Vozes, 2002

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Depois de Lúcia

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

Depois de LuciaSinopse: Depois da morte da esposa, Roberto e sua filha de 15 anos, mudam de cidade para tentar recomeçar a vida.

O filme nos faz sentir a dor de um luto e da violência moral, física e emocional causada pelo  bullying. Além disso, nos faz ouvir também, os gritos de angústia presentes na maneira silenciosa de sofrer de Alejandra e Roberto .

O título “Depois de Lúcia” nos localiza em que tempo se passa o filme, ou seja, na falta de Lúcia, que acabara de falecer. E é essa ausência, presente em todo o filme, que preenche o abatimento contido dos personagens.

 

Bullying

O bullying escolar tem sido definido como a hostilidade intencional e frequente de um aluno mais velho ou mais forte, ou de um grupo de alunos, (como é o caso do filme) dirigida a outro, podendo gerar diversas consequências físicas, morais e emocionais para aquele que o sofre, desde uma angústia acentuada até o assassinato ou suicídio. A vítima do bullying se constitui num bode expiatório, que é um alvo ideal para o agressor. Quando o sofredor do bullying demonstra ansiedade, chora ou não se defende, o agressor pode se sentir superior e satisfazer impulsos de crueldade e agressividade, além de se sentir bem, mesmo quando são outros que atacam a vítima.

De maneira simplificada, segundo a psicologia de Jung, aquilo que não aceitamos em nossa personalidade, reprimimos e estes elementos constituirão nossa sombra. Esta nos é inconsciente e teremos a tendência de projetá-la em outro indivíduo. No bullying efetuado por um grupo, o aluno agredido está sendo alvo da projeção de elementos sombrios coletivos e não da sombra de apenas um indivíduo. Independente de quais elementos estejam sendo projetados na vítima, que podem ser, “o feio, o estranho, o diferente, o fraco, o burro, o incompetente”, isso ocorre para que o coletivo possa expiar esses elementos que, embora negados, lhes pertence.

depois de luciaQuando existe alguém que carregue estas projeções, a maioria pode se sentir bem em sua mediocridade e essa é uma das grandes crueldades do coletivo. Segundo Jung, no grupo a emoção é contagiosa e o anonimato libera instintos e forças primitivas. Visto que a consciência de um grupo é inferior à consciência individual, cria-se um tipo de alma animal coletiva.

A respeito da vítima, podemos supor que inconscientemente este indivíduo possui um alto grau de agressividade que não consegue expressar de forma adequada. Ao sacrificar a expressão deste sentimento, se torna o alvo da maldade projetada dos agressores que a transformam em atos cruéis e cuja execução fica facilitada pela  passividade da vítima. Esta pessoa que sofre a violência precisará, assim, passar por um processo onde possa se tornar consciente de sua sombra, no caso de sua agressividade não aceita e reprimida, a fim de passar a externá-la para sua própria proteção e defesa.

Alejandra vive um momento bastante delicado e doloroso devido à morte da mãe, possivelmente carregando raiva pelo que a vida lhe impôs e eventualmente algum grau de culpa. Tudo isso vivido de forma contida, sem a troca de emoções com o pai e em silêncio. Em função da provável fragilidade em que se encontra e por estar vivenciando os fortes sentimentos de impotência que a morte causa, a garota pode ter se tornado vulnerável e indefesa frente ao mundo e sua maldade.

Luto

Pai e filha sofrem em silêncio. Na tentativa de evitar a expressão das emoções trazidas pela dor do luto, substituem tal vivência pelo empenho em se oferecerem cuidados recíprocos. Parecem, desta forma, querer se unir  e somar forças evitando levar problemas ou tristezas um ao outro. Mas como vemos com o desenrolar da história, tentar poupar dificuldades acaba resultando em distanciamento. Ao negarem suas dores ou raivas decorrentes do luto, correm o risco de se tornarem passivos e vítimas indefesas de atos violentos como ocorre com Alejandra  ou, de maneira  compensatória, se tornarem ativos e explosivamente destrutivos, como no caso de Roberto.

images (5)Nesse grande momento de dor, percebemos pai e filha tentando seguir com firmeza a rotina dos dias conseguindo, no entanto, apenas uma frágil estabilidade. Rasa e seca. Vivem este duro período de perda de maneira emocionalmente árida, carecendo da flexibilidade úmida que as lágrimas, o escorrer das emoções ou o transbordar da dor poderiam lhes possibilitar. Este movimento e profundidade emocional que os personagens não são capazes de experimentar, o filme trará, como compensação e contraste, nas imagens da profundeza do oceano e suas ondas. O início da película mostra  Alejandra próxima ao mar e também enfatiza seu gosto pela água nas cenas onde nada na piscina. Além disso, é pelo mar que ela encontra uma ‘solução’ e foge da maldade praticada por seus pares. E por último, também é o mar que acolhe a vingança de Roberto no final do filme. A água simboliza os sentimentos e as emoções em movimento que estão negadas e reprimidas, surgindo apenas do lado de fora da vida de pai e filha. A partir desse simbolismo, abordarei a operação alquímica denominada “solutio”.

A alquimia foi estudada e entendida por Jung como uma forma de compreender o que se passava no psiquismo dos alquimistas visto que as transformações que eles produziam na matéria correspondiam a projeções psíquicas de seu inconsciente. Assim, cada uma das operações alquímicas traz um significado psicológico para quem está envolvido com determinado elemento. A partir da conscientização desse significado é possível ao indivíduo adquirir maior conhecimento a respeito do que vem vivendo internamente podendo, assim, se compreender melhor.

Como dito, a “solutio” é a operação alquímica relacionada à água, que é o elemento simbólico recorrente no filme.

Segundo Edinger, a experiência da solutio ‘soluciona’ problemas psicológicos mediante a transferência da questão para o domínio do sentimento. Em outras palavras, dá respostas a questões ao dissolver a obstrução da libido a respeito da qual a questão era sintoma, no caso a perda e o luto. Simbolicamente, o fenômeno da ‘solutio’ corresponde à dissolução através da fluidez das emoções dos aspectos estáticos da personalidade que resistem a mudanças.

Finalizando, o luto é um tempo duro que precisa lentamente se desmanchar.

É um gelo, um choro cristalizado que precisa derreter sob o calor do coração e escorrer como as lágrimas para que a vida possa voltar a fluir.

 

A Balada de Narayama

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

 

A balada de NarayamaSinopse: A Balada de Narayama, de Shohei Imamura, premiado em Cannes com a Palma de Ouro retrata, no fim do século XIX, uma tradição que ocorria em um pequeno vilarejo japonês. Aquele que completasse 70 anos devia ser levado pelo filho ao topo da montanha sagrada de Narayama onde aguardaria a sua morte. Quem se recusasse a cumprir o costume trazia desonra à sua família.

Enfatizarei neste texto o contraste entre culturas na percepção de questões como envelhecimento e morte. O objetivo é refletir sobre o assunto a fim de ampliar e enriquecer nossos entendimentos e atitudes frente a esta importante fase da vida.

A vida e seus ciclos

O filme apresenta a vida humana transcorrendo extremamente próxima à natureza, enfatizando nossa primitividade em aspectos relacionados à alimentação, reprodução e sobrevivência. Muitas vezes escancara atitudes que nos chocam e demoramos a aceitar como atos passíveis de serem executados por nós, humanos.

Civilizados que somos, nos distanciamos do instintivo, bruto e selvagem que nos habita. Aprendemos a domar nosso lado animal e passamos ingenuamente a acreditar que podemos controlá-lo e subjugá-lo. Com isso, muitas vezes nos percebemos distantes de nossos ciclos naturais que possuem tempo e objetivos próprios e que tentamos, sem sucesso, eliminar de nossa vida prática, veloz e atribulada. Dentre eles temos o envelhecimento e seu desfecho fatal, muitas vezes combatidos e negados dentro de nossos valores, modo de viver e encarar o mundo.

Na película, os habitantes são parte do ambiente que os cerca e o ciclo de nascimento e morte é vivido tão naturalmente quanto o nascer e o cair do sol. Abertamente e, com frequência, fala-se no morrer, seu desenrolar no tempo e sua aproximação. A morte é, na verdade, esperada e planejada por Orin, a protagonista. Acertos são buscados e decisões são tomadas como a retirada brutal dos próprios dentes, a fim de se alimentar menos e permitir que outros o façam em seu lugar, bem como a busca de uma esposa para o filho mais velho e de uma mulher para a primeira experiencia sexual do mais novo.

Em nossos tempos e sociedade, por outro lado, a morte é um tabu, raramente embuída de valor e significado. É o fim e a tristeza e envolver-se com ela carrega uma mistura de sentimentos como medo, repulsa, incômodo e aflição. No filme, além de ser uma necessidade, dada a pobreza e falta de alimento do local, a morte é uma entrega, um auto-oferecimento ao sagrado, que honra a família e os valores. Ao invés de ser rejeitada, é reverenciada. Assim, aos 70 anos, sobe-se a sagrada montanha de Narayama para aguardar a morte.

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A montanha

Segundo Mircea Eliade, em sua obra “O sagrado e o profano”, todos os lugares sagrados apresentam um simbolismo vertical em sua estrutura, que se dirige diretamente à transcendência.

”A Transcendência revela-se pela simples tomada de consciência da altura infinita. O “muito alto” torna-se espontaneamente um atributo da divindade. As regiões superiores inacessíveis ao homem, as zonas siderais, adquirem o prestigio do transcendente, da realidade absoluta, da eternidade. Lá é a morada dos deuses [...]”. (ELIADE, 2001, pp.100- 101)

Desta forma, a busca da transcendência religiosa necessita um símbolo que assuma a ligação do homem com o que está acima dele ou que facilite esta ligação. É por este motivo que muitas montanhas são tidas como sagradas, pois se elevam verticalmente em direção aos céus e é nelas que o homem pode subir a fim de diminuir sua distância com o divino. Assim se dá com a montanha de Narayama no filme.

Metaforicamente podemos supor que a subida da montanha é a oportunidade, o tempo de preparo para esse encontro com o sagrado, sendo o caminho da possível e necessária transformação. Quem não a enfrenta, não honra a família e não é digno da própria morte. Em nossos tempos, num inquestionável contraste, a subida da montanha corresponde ao temido processo de envelhecimento, mal aproveitado e, sobretudo, mal valorizado em nossa sociedade. Lutamos contra as transformações físicas que a velhice nos impõe, resistimos às limitações que ela nos traz e fugimos de todas as possíveis reflexões com a qual essa condição poderia nos brindar. Evitamos a todo custo pensar sobre quem somos e o que entregamos ao mundo nesse tempo final, correndo assustados e sem rumo em busca de mais tempo de vida.

Como escreveu Jung em “A Natureza da Psique”:

“Completamente despreparados, nós damos o passo em direção à tarde da vida. Pior ainda, nós damos esse passo com o falso pressuposto de que as nossas verdades e os nossos ideais vão nos servir como nos serviram até hoje. Mas não podemos viver na tarde da vida de acordo com o programa da manhã da vida. Para o que foi ótimo na parte da manhã será muito pouco à tarde, e o que de manhã era verdade, na noite terá se tornado uma mentira”.

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Subida

Uma cena do filme nos apresenta a anciã preparando e semeando a terra, enquanto declara a chegada do momento para a subida da montanha. Para ela está tudo plantado e cumprida sua ‘missão na terra’. Na noite que antecede sua partida, os anciões ‘que conhecem o caminho” são reunidos para lhe dar instruções. É transmitido a ela e ao filho que a carregará, que essa é tarefa árdua, perigosa, deve ser enfrentada com cuidado e em silêncio. Além disso, o caminho na montanha Narayama não está previamente determinado e o acompanhante não deve olhar para trás ao descê-la.

Seria importante que refletíssemos sobre essas condutas e talvez pudéssemos perceber que envelhecer é uma tarefa séria e difícil que deveria receber nosso devido respeito individual acompanhado de uma atenção silenciosa e plena. Além disso, o modo, ritmo e parâmetros para ultrapassá-la é tarefa particular de cada um.

Vemos no filme que o acompanhante leva a anciã em suas costas, num contato bastante íntimo, carregando o peso físico e emocional da tarefa. Assim se passa com aquele que segue próximo ao idoso que necessita de amparo. Deve-se dispor de uma paciência continente, no ritmo determinado por suas perdas e com a proximidade calorosa que ameniza as dores físicas e emocionais de quem perde a autonomia.

Importante percebermos que o cuidador tem um papel muito importante no processo de envelhecimento e morte de alguém próximo e também passará por transformações. Como no filme, há trechos do caminho que são mais suaves, outros em que se tropeça, cai e sangra. Cometem-se erros que demandam correções, subidas que exigem descansos e atalhos esperançosos. Aos poucos, passa a existir um binômio composto pela humildade de quem envelhece e aceita ser ajudado e pela generosidade e paciência de quem cuida e ultrapassa os obstáculos inevitáveis. Para o cuidador, a aceitação vai se dando aos poucos e o encontro com outras mortes nesse mesmo caminho contribui para essa difícil conscientização da finitude. No filme, a imagem dos esqueletos pelo caminho dispensa palavras e sinaliza a chegada ao destino.

Finalmente, a dor da despedida se mescla num profundo amor e gratidão recíprocos. A vida pede, agora, sabedoria. Para quem fica, de continuar seu caminho sem culpas ou remorsos e para quem vai, de partir com a certeza e confiança da missão cumprida.

Referências

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992

JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Obras Completas. Petrópolis: Vozes, 2012.

 

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