O site pretende explorar temas da psiquiatria e conceitos da psicologia jungiana em filmes de cinema.

O Clã

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE 

 

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Sinopse

 

Em meados dos anos 80, a Argentina passava pelo fim da Guerra das Malvinas e da ditadura militar. No meio desse clima, o patriarca da família Puccio, Arquimedes, seus filhos Daniel e Alejandro e alguns amigos sequestram e matam empresários, enquanto tentam manter as aparências de uma família normal.

 

 

O filme foi baseado na história real de Arquimedes Puccio. Minha leitura, obviamente uma dentre muitas que podem ser feitas, construo a partir de minhas impressões psicológicas da personagem do filme e de algumas dinâmicas da obra como um todo. Gostaria de esclarecer que não intenciono, em nenhum momento, tecer diagnósticos, julgar comportamentos ou questionar a visão de mundo de Arquimedes Puccio enquanto indivíduo, na vida real.

 

 

Psicopatia

Muitos aspectos psicológicos poderiam ser discutidos a partir deste filme. No entanto, optei por abordar, a partir da dinâmica psíquica do protagonista Arquimedes, o que chamamos de psicopatia.

Inicialmente apresentarei a definição de psicopatia na psiquiatria.

Considerada um transtorno de personalidade (chamado antissocial), o Manual de Diagnóstico e Estatística, quinta edição, (DSM-V) da Associação Psiquiátrica Americana assim a define:

Critérios Diagnósticos

A. Um padrão difuso de desconsideração e violação dos direitos das outras pessoas que ocorre desde os 15 anos de idade, conforme indicado por três (ou mais) dos seguintes:

  1. Fracasso em ajustar-se às normas sociais relativas a comportamentos legais, conforme indicado pela repetição de atos que constituem motivos de detenção.
  2. Tendência à falsidade, conforme indicado por mentiras repetidas, uso de nomes falsos ou de trapaça para ganho ou prazer pessoal.
  3. Impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro.
  4. Irritabilidade e agressividade, conforme indicado por repetidas lutas corporais ou agressões físicas.
  5. Descaso pela segurança de si ou de outros.
  6. Irresponsabilidade reiterada, conforme indicado por falha repetida em manter uma conduta consistente no trabalho ou honrar obrigações financeiras.
  7. Ausência de remorso, conforme indicado pela indiferença ou racionalização em relação a ter ferido, maltratado ou roubado outras pessoas.

B. O indivíduo tem no mínimo 18 anos de idade.

C. Há evidências de transtorno da conduta com surgimento anterior aos 15 anos de idade.

D. A ocorrência de comportamento antissocial não se dá exclusivamente durante o curso de esquizofrenia ou transtorno bipolar.

Durante todo o filme, não temos dificuldade em perceber no comportamento do protagonista, várias das características descritas acima.

Arquimedes nos transmite frieza. A frieza onipotente, calculista e inescrupulosa dos psicopatas transgressores de regras que visam, apenas, o interesse próprio (assassinar e conseguir o dinheiro da família das vítimas). Repetidamente mente, coloca em risco todos com quem convive e mata sem remorso. Racionaliza e impõe, autoritariamente, que a família se comporte com naturalidade. Entretanto, o que falta em humanidade em Arquimedes, sobra em seu filho, Alejandro, em quem percebemos uma verdadeira e crescente angústia que muito o diferencia de seu pai. O protagonista não mostra mudanças ou desenvolvimento emocional durante toda a película, o que é observável inclusive no seu olhar e feições impassíveis.

Vale ressaltar que os psicopatas não apresentam problema algum de ordem cognitiva ou deficiência de raciocínio. A deficiência deles está no campo das emoções, como trataremos mais adiante. Também, apenas uma pequena parcela são assassinos ou serial killers, existindo níveis variados de agressividade e criminalidade. Muitos estão bem inseridos na sociedade sendo pessoas charmosas, sedutoras, bem sucedidas, e muito persuasivas em conseguir o que desejam, sem nenhuma empatia pelo outro. Cometem fraudes, golpe e estelionatos, por exemplo. Além disso, compensam a incapacidade de ter emoções e sentir, pelo aprendizado de como se comportar em sociedade. Representam muitíssimo bem e são verdadeiros atores da vida real. Estão inteiramente satisfeitos consigo mesmos e não apresentam constrangimentos morais ou sofrimentos emocionais. A psicopatia é um modo de ser e os tratamentos são ineficazes.

Voltando ao filme, percebemos que Arquimedes é um homem inteligente, se comporta com adequação e está bem inserido socialmente. Age em função dos seus objetivos sem remorso, não sofre moral ou emocionalmente e não muda seu comportamento frio e calculista até diante da situação limite que compõe o final do filme. Numa das últimas cenas provoca intencionalmente o filho a lhe agredir com o objetivo de alegar que confessou seus crimes sob tortura dos guardas da prisão.

 

 

Eros

 

O inconsciente coletivo, como definido por Jung, é formado por arquétipos. Estes podem ser vistos como condições ou modelos prévios da formação psíquica em geral. São formas sem conteúdo próprio que organizam ou canalizam o material psicológico. 

Eros é um arquétipo. Sua função psíquica é a de unir, atrair para o outro e fundamentalmente permitir e proporcionar a capacidade de estabelecer relações. Eros é o deus do amor.

Amor aqui abrange a sexualidade, amizade, paixão, envolvimento com a profissão, hobbies e arte. É ele quem nos mantém conectados com a vida, sendo um princípio que nos arrebata e nos coloca em movimento a serviço do desejo, criatividade e beleza. A habilidade de amar é uma das características decisivas da nossa humanidade.

 

 

Ausência de eros e psicopatia

 

Segundo Guggenbühl-Craig em sua obra "Eros de Muletas" o primeiro sintoma da psicopatia é a incapacidade de amar. Essa falta de eros se expressa nos psicopatas nas dificuldades de relacionamento interpessoal que passam a ser substituídas por manipulação, controle e domínio.

Nas palavras de Jung: " Ali onde predomina o amor não há vontade de poder, e onde há predominância do poder, não há amor. Um é a sombra do outro".

Outro sintoma é a deficiência do senso de moralidade. É preciso que eros esteja presente para que nossas tentativas egóicas de viver corretamente sejam satisfatórias. A falta de moralidade nos psicopatas resulta de uma falta de eros. Eles compreendem a moralidade intelectualmente e imitam um comportamento moral mas a mesma não possui qualquer significado para eles. 

Outro sintoma presente segundo o mesmo autor é a falta de desenvolvimento psíquico. Nada se desenvolve, muda ou se movimenta no indivíduo psicopata. O que pode ocorrer é uma adaptaçāo a situações externas ou mudança de papéis, mas isso não é verdadeiramente um desenvolvimento. É a atração erótica que movimenta a psique e promove o desenvolvimento, que não ocorre nesses indivíduos. Note-se que símbolos psicológicos de desenvolvimento, formalizados por rituais de passagens como serviço militar ou casamento, por exemplo, sāo fobicamente rejeitados por esses indivíduos.

Iremos encontrar ainda sintomas como desconfiança do mundo porque sem eros não se é capaz de sentir o amor em outras pessoas. Além disso, de alguma forma o psicopata sabe que não possui a afetividade e significado que guia e conduz a vida das outras pessoas, o que aumenta sua desconfiança e consequente agressividade. 

No que se refere à sexualidade, ela é impessoal, sem amor e sem nenhum potencial simbólico. É um ato físico e livre, podendo ser perverso e é invariavelmente frio. 

Os psicopatas, ainda por falta de eros, carecem de culpa, manipulam através de charme e aprendem a evocar pena para atingirem seus objetivos. 

É importante acrescentar que os indivíduos psicopatas, por desconfiarem, de algum modo, que algo lhes falta, passam a compensar tal deficiência. Muitos tornam-se moralmente rígidos e compulsivamente moralistas, defendendo causas morais para si e para os outros de forma extremamente fanática. 

E finalizando, ainda segundo Craig, apesar da ausência de eros nos psicopatas, o Self, a centelha humana divina permanece presente nesses indivíduos, o que permite que manifestem um senso de religiosidade, muitas vezes de difícil compreensão diante da frieza de seus atos.

2 comentários:

Já faz um tempo que assisti, mas sinceramente tenho dúvidas de compartilhar o diagnóstico de psicopatia. Qual a diferença entre Arquimedes e o Poderoso Chefão? Este último também é psicopata? Todos os mafiosos são psicopatas? Arquimedes tem uma vida familiar pelo menos na aparência bem constituída. Ele mata por dinheiro, mas apenas determinados tipos de pessoas, que não são nem foram anjos.
De qualquer forma, já estou curtindo o Psique Cinema. Parabéns pela ideia, Simone, espero que dê muito certo!

Oi Arthur! Que bom que está gostando do site. Puxa, concordo com você que fechar diagnósticos não é algo prudente tendo a versão do filme apenas. Mas a intenção é aproveitar situações do filme que ilustrem sintomas e dinâmicas. De fato, não podemos generalizar e colocar todos os mafiosos de criminosos na categoria de psicopatas, mas a falta de moralidade e frieza em Arquimedes é central em sua figura. O fato de estar inserido socialmente não o exclui da psicopatia e pelo que consta no filme, suas vítimas não estão envolvidas com o crime e são mortas exclusivamente por facilidade em satisfazer seus desejos.
Adorei seu comentário, espero que continue acompanhando os posts. Grande abraço!

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