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O Quarto de Jack

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE 

 

o quarto de jack

Sinopse

O Quarto de Jack conta a história de Jack, um menino de 5 anos que é cuidado por Ma, sua mãe. Como toda boa mãe, Ma se dedica em manter Jack feliz e seguro, fazendo coisas típicas como brincar e contar histórias. Sua vida, entretanto, é tudo, menos normal – eles estão presos – confinados em um espaço de 10 m² sem janelas.

 

Dualidade prisão-liberdade

O filme pode ser dividido em dois momentos: o primeiro se passa na claustrofobia do quarto onde permanecemos angustiados junto com Jack e sua mãe por cerca de 40 minutos. O segundo momento consiste no alívio da liberdade externa conquistada mas que, muito pertinente e bem retratada psicologicamente, se dá concomitante à uma sofrida busca da liberdade interna.

 

Imaginação e fantasia

Quando o mundo é um quarto, a fantasia é a única saída. É dessa forma que Joy cuida de Jack na condição fisicamente cruel e restrita que lhes é imposta. Há, em nossa  visão ocidental unilateral, uma valorização do entendimento lógico e racional em detrimento do modo imaginativo e fantasioso de enxergar o mundo. Um exemplo é uma expressão algo pejorativa: “tudo isso é fruto da sua imaginação”, que desqualifica o que foi apreendido através dessa possibilidade. Segundo Jung nossa psique possui duas formas de funcionamento: o dirigido e o de fantasia. O tipo dirigido é a linguagem do intelecto, baseado nos conceitos e na lógica. O tipo fantasia, por sua vez, emprega imagens, é metafórico e simbólico e está mais relacionado às camadas profundas da nossa psique. Para Jung, não há motivo para a fantasia ameaçar nossa consciência e lógica; pelo contrário, há um beneficio se as duas perspectivas puderem coexistir. A mãe de Jack estimula e tenta, inclusive, usar a fantasia para complementar os conceitos lógicos que o garoto adquiriria se tivesse um contato habitual com o mundo. Isso, de certa forma, o distancia das privações a que está submetido. A imaginação é, principalmente para a criança, um espaço de liberdade e de movimento em direção ao possível, quer realizável ou não. Um outro ponto a ser notado é que o aspecto nutritivo e protetor do arquétipo materno constelado em Joy permite a repressão de sua angústia e a manutenção da coerência dessa escolha. Jack é quem dá sentido e permite a sobrevivência da mãe. Como disse Jung:O sentido torna muitas coisas, talvez tudo, suportável”.

 

O dente e seu simbolismo

Pensemos a respeito da cena em que Jack recebe o dente perdido de sua mãe. O dente simboliza, dentre outras coisas, a possibilidade de ser agressivo, rasgar, cortar e consequentemente se defender. Desta forma, Joy entrega ao filho um elemento interno precioso que é sua agressividade, impedida de ser expressa naquele contexto, em prol da sobrevivência de ambos. Jack o carrega durante a imposta busca pela liberdade, dentro da própria boca, num símbolo de incorporar (fazer pertencer ao seu próprio corpo) a raiva da mãe. Outro ponto interessante é o momento e a situação em que o garoto decide revelar o dente. Mostra-o à  policial delegando a ela, simbolicamente, tal agressividade. Permanece, no entanto, possuindo o dente da mãe junto a si possivelmente associando a ele a força e vida que ela lhe transmitiu.

 

O rapto de Coré no mito, sofrimento e transformação

Como atentou Mircea Eliade, as imagens, os símbolos e os mitos não são criações irresponsáveis da psique; elas respondem a uma necessidade e preenchem uma função: revelar as mais secretas modalidades do ser. Quero enfatizar que vou pinçar uma passagem bastante específica do mito grego de Coré-Perséfone a fim de refletir sobre a questão da inocência, rapto, descida à escuridão e transformação. A passagem do mito é:

Num certo dia de outono, Coré colhia inocentemente narcisos quando repentinamente é raptada e levada para as profundezas, onde irá casar-se com o grande deus Hades, o irmão de Zeus e senhor do reino dos mortos. Uma aura de mistério permeia a descida da jovem ao submundo e sabe-se apenas que, quando retorna, ela volta tão diferente que ganha outro nome: Perséfone.

Obviamente o filme retrata circunstâncias extremamente cruéis e obviamente não pretendo justificá-las de maneira alguma. Entretanto, a mitologia nos oferece símbolos que nos possibilitam refletir sobre diversas condições humanas. Na simbologia, o subterrâneo é o local das ricas jazidas, o lugar das metamorfoses, das passagens da morte à vida e das transformações. Coré carrega a pureza e a inocência que precisam ser modificadas dando lugar à maturidade, independência e autonomia.

Retornando ao filme, mais próximo do final, há uma discussão entre Joy e sua mãe onde a protagonista lamenta sua subordinação às regras da mãe e sua inocência em atender à solicitação do estranho que acaba sequestrando-a. Aqui lembramos a ingenuidade e falta de autonomia de Coré como tratamos anteriormente.

Obviamente Joy sai do quarto e retorna ao mundo amadurecida, transformada e lapidada numa mulher, pelo sofrimento vivido. Mas é bastante importante atentarmos para o fato de que apesar de Joy ter retomado sua liberdade externa, internamente isso ainda não ocorreu. A personagem se revolta, deprime e se recolhe tentando, com o suicídio, matar a pessoa em que se transformou. Há de ocorrer um luto, elaboração e integração do sofrimento, um renascimento, para que a liberdade interior ressurja no símbolo de Perséfone.

Para Jack, a liberdade se apresenta tão grande e repentina que também é difícil absorvê-la num golpe. O garoto se comporta de forma reticente e esquiva até conseguir deixar de ficar ofuscado pela luz da vida. Como no mito da Caverna de Platão, quando o que se vê não são mais os reflexos mas a luz em si, há que se dar o devido tempo para se habituar à essa nova verdade. Jack precisa, inclusive, revisitar o quarto e despedir-se num processo de luto, redimensionando o que foi vivido, agora no seu novo mundo de portas abertas.

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