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Truman

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE 
 
 
Sinopse
 
Quem é Truman?
Para nossa surpresa e, ao contrário do que naturalmente pensaríamos, quem dá nome ao filme não é um personagem humano, mas um cão, que será o fio condutor de toda a trama.
Depois de anos afastados, morando em países diferentes, dois grandes amigos, Julian e Thomas se reencontram na Espanha para passarem quatro dias juntos. Thomas vem do Canadá rever Julian que está com câncer e que, após saber da falta de perspectiva de cura de sua doença, decide interromper o tratamento e aguardar pela morte.
Julian é o dono de Truman, um cão já velho e seu companheiro inseparável.
Nos dias em que passam juntos, os amigos procuram alguém que adote o cão.
Durante essa busca por um novo dono para Truman, o filme se desenrola trazendo à tona temas importantes como amor, amizade, cumplicidade, fidelidade, despedidas, morte e finitude.

 
Simbologia Animal
 
O inconsciente comunica-se com o indivíduo através de símbolos que podem aparecer em sonhos, contos ou estar retratado num filme de cinema como tentarei propor a seguir.
De um modo geral, quando um animal surge num sonho ou mito está sendo simbolizada, como destacou Jung, a natureza primitiva e instintiva do homem.
Neste filme, a relação do personagem com o animal nos remete à ligação psíquica que todos nós possuímos com nossa natureza mais elementar e arcaica. Se negligenciamos ou nos distanciamos deste extrato primitivo, é possível que ele nos seja apresentado através dos símbolos animais, por exemplo em sonhos.
A forte ligação da personagem com o animal ao longo da trama nos leva a pensar em sua forte conexão, mesmo que inconsciente, com seus instintos de vida e morte, tema importante na estrutura do filme.


A simbologia do cão

No entanto, em Truman, o animal que aparece é o cachorro; e é sobre sua simbologia e presença no decorrer do filme que trataremos a seguir.
Considerado o fiel amigo e companheiro do homem desde tempos muito longínquos, o cão tem uma simbologia que está presente em quase todas as culturas antigas do mundo.
Como tantas vezes ouvimos dizer: 'o cão é o melhor amigo do homem'... não há questionamentos sobre a relação afetiva que pode se dar entre um indivíduo e seu cão.
Sem dúvida, o cão é indiscutivelmente um símbolo de lealdade, sendo um guardião e guia protetor, durante toda a vida.
E é com essa mesma lealdade e profundidade afetiva que o personagem principal se relaciona com seu cão e também com seu amigo, no caso, alguém que respeita diferenças, divide dores, mantém a continência e consegue falar através do silêncio.
A escolha de para quem entregar os cuidados do cão após sua morte, simbolicamente sua natureza mais íntima, também é outra surpresa sensível do filme. De fato, só o cúmplice amigo seria capaz de carregar viva sua essência/alma após sua partida.
Outro aspecto psicológico bastante relevante é o fato da imagem do cão, em muitas culturas antigas, estar ligada à simbólica da morte.
Sentimos que a aproximação da morte abraça o filme o tempo todo, não sendo negada. Pelo contrário, a questão da finitude é constantemente apresentada e é trabalhada a preparação para sua chegada.
Em diversas mitologias, o cão está associado aos impérios subterrâneos e invisíveis e guia o homem na escuridão da noite e da morte, sendo um condutor entre os mundos. Na mitologia grega, Cérbero ou Cerberus era um monstruoso cão de múltiplas cabeças e cobras ao redor do pescoço que guardava a entrada do Hades, o reino subterrâneo dos mortos, deixando as almas entrarem, mas jamais saírem e despedaçando os mortais que por lá se aventurassem.
A presença do cão em um portal de entrada ao reino dos mortos também pode ser sutilmente vista no filme. Truman faz parte desse momento de passagem de Julian que deve partir e escolhe 'passá-lo' aos cuidados do amigo, como somos surpreendidos no final.
Assim, o simbolismo do cachorro carrega ambivalências que também percebemos na película, tingida de um misto de amor e tristeza. Talvez porque presenciamos o protagonista vivenciar a quase paradoxal partida ou separação da infinita lealdade vivida com seu cão.

 
Considerações finais

Enfim, Julian, assim como todos nós, podemos nos dar conta de sermos a resultante de nossas experiências vividas e transformadas. Somos o produto de todo inconsciente que se tornou consciência, que se expandiu e que, ao morrermos, será devolvida ao universo com a marca de nossa essência.
Julian parece saber que, como já dito por Jung, sua vida finda apenas no plano da consciência, deixando projetada em Truman, a viva e eterna inconsciência da qual viemos e para onde retornaremos.

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