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Um divã para dois

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

 

umdiva

Sinopse

 

Após trinta anos de casamento, um casal decide fazer terapia para melhorar seu relacionamento.

 

 

Metanoia 

 

A palavra grega metanoia é formada pelo prefixo “meta” que significa "o que transcende" e o sufixo “noia” que tem o sentido de "compreensão ou entendimento". Desta forma, a palavra metanoia significaria uma compreensão daquilo que está além, dizendo respeito a uma crise de transição ou passagem para um novo modelo. Embora tenha um sentido mais amplo, a metanoia é muitas vezes igualada à crise da meia idade.

A crise da meia idade é caracterizada por um período de auto-avaliação e possíveis mudanças psicológicas. Pode provocar transformações no modo de pensar, de se comportar, na visão de mundo e nos valores que fundamentam a existência humana. Muitas vezes surge na forma de queixas e demandas visto que o indivíduo vem repensando seu existir. Há, no fundamento dessa crise, a experiência simbólica de morte e renascimento.

Como nos é apresentado logo nas primeiras cenas, os protagonistas do filme são um casal de meia idade vivendo uma rotina conjugal que passa a ser questionada pela esposa, dando início a uma crise psicológica e busca por mudanças.

 

 

Casamento

 

Para Jung o casamento é um relacionamento psicológico no qual cada cônjuge pode entrar em contato, através do espelhamento, com sua própria luz e sombra. Constituído por uma constelação de forças arquetípicas, quase sempre inconscientes, há casamentos que acabam tendo um caráter mais biológico ou de gerar descendentes do que uma possibilidade de relacionamento e crescimento psicológico. Quanto maior a inconsciência, maior o grau de limitação do relacionamento psicológico.

A meia-idade pode levar o indivíduo à tomada de consciência de si mesmo por ser um momento de confronto interno entre a imagem que apresenta ao mundo (persona) e as possibilidades de si que não foram reconhecidas (sombra).  Isto pode possibilitar um crescimento psicológico que irá se refletir no casamento. Nesse período os cônjuges também se confrontam com seus elementos femininos (anima, no homem) e masculinos (animus, na mulher) até então inconscientes e projetados no parceiro. Segundo Jung, "a harmonia que existe no casamento na primeira metade da vida é baseada na projeção de certas imagens". Como se dá esse processo?

Cada um dos cônjuges projeta em seu parceiro, imagens das quais não tem consciência. Assim, o homem vai projetar em sua parceira imagens femininas que possui dentro de si, enquanto a mulher projetará as imagens masculinas que carrega. Entretanto, não há crescimento psicológico dos indivíduos dentro de um casamento construído por projeções. Com o tempo tais projeções deixam de sustentar o relacionamento e, muitas vezes, características do parceiro que eram carregadas de admiração e fascínio passam a ser vividas como decepções e impressões de falta. Dessa forma, é imprescindível o processo de dialética entre os parceiros com a retirada de projeções, elaboração e integração desses conteúdos, até então inconscientes. Isso impede que o casamento na segunda metade da vida se deteriore e passe de paixão e admiração a um fardo intolerável.

As primeiras cenas do filme evidenciam os protagonistas, casados há 31 anos, claramente vivendo uma rotina vazia e estéril. Há um distanciamento emocional com poucos diálogos, baixa expressão de afeto e um comportamento previsível e monótono. Dormem em quartos separados, faltando também a intimidade e o prazer de uma vida sexual satisfatória. Testemunhamos, além disso, a atitude rígida e inflexível do marido que rejeita reflexões e a possibilidade de viver novas experiências. Tal situação começa ser questionada pela esposa que passa a repensar sua vida conjugal e desejar mudanças nas esferas afetiva e sexual, fato que se torna o fio condutor de todo o desenrolar do filme.

Segundo Jung, a meia-idade pode trazer para o indivíduo, o desenvolvimento das qualidades sexuais que estiveram adormecidas e não foram, portanto, desenvolvidas. Essas possibilidades poderiam ser, por exemplo, uma provocação sedutora e agressiva ou um charme carinhoso e cativante até então não expressados.

É comum, na crise da meia idade, as mulheres assumirem sua sexualidade de forma mais livre e sem culpas. No filme, é a atriz quem passa a perseguir mudanças na sua vida sexual, admitindo, mesmo que timidamente, seus desejos e fantasias.

Por outro lado, convicções e princípios vigentes, geralmente de ordem moral, podem se enrijecer, caso o indivíduo acredite estarem sendo ameaçados. Nessa situação há medo e consequente resistência ao processo de mudança como observamos na atitude do marido frente à possibilidade de reexperimentar a sexualidade em seu casamento.

A sexualidade, nessa fase da vida, se puder ser reexperimentada, torna-se um elemento de transformação da alma do indivíduo, não permitindo que haja a petrificação e a paralisia da psique.

 

 

Individuação e casamento

 

A individuação é um processo de diferenciação do ser humano no transcorrer de sua vida, no qual um indivíduo se torna ele mesmo, pleno e distinto da coletividade. É o desenvolvimento da personalidade no seu sentido único, singular. Trata-se do desenvolvimento do Self (Si-mesmo, totalidade) através de um confronto da consciência com elementos do inconsciente que precisam ser elaborados e integrados.

Assim, o processo de individuação se dá a partir da realização, no seu sentido mais pleno, da essência e potencialidade de cada indivíduo.

Quando nos referimos a relação psicológica que constitui o casamento, como são dois os indivíduos implicados, o processo de individuação de um ou de ambos os cônjuges, pode desencadear mudanças no relacionamento psicológico do casal. O processo de individuação pelo/do casamento consiste no fato de que, nele, não se pode evitar o encontro dialético com o parceiro, principalmente quando as coisas se tornam difíceis e desagradáveis. Assim, com a individuação de cada um, a conjugalidade também sofre mudanças, acarretando transformações no próprio casamento. No entanto, não raro ocorre que um dos cônjuges não seja capaz de acompanhar o processo de individuação do parceiro, permanecendo inconsciente e resistente ao novo. Como já foi dito, a personagem do marido claramente interpreta esse papel conservador e intransigente.

Quando isso ocorre, o indivíduo que busca transformação pode abrir mão do seu crescimento pessoal e se acomodar, vivendo parcialmente seu potencial individual. Ou pode tentar envolver o cônjuge num trabalho de conscientização dos elementos sombrios da crise buscando um amadurecimento da conjugalidade, como tenta fazer a atriz ao buscar a terapia. A narrativa do filme tenta ilustrar o impasse e a necessidade de ajuste na convivência de um casal quando um deles decide viver aspectos da sua individualidade que ficam impedidos pelo outro. Conduz ainda o espectador a observar a renovação e ampliação no relacionamento, depois das mudanças pessoais de cada um.

Alguns casais conseguem, a seu modo, caminhar para a realização de suas potencialidades individuais. Nesses casos, a individuação do próprio casamento se dá de forma inconsciente. A tomada de consciência, no entanto, conduz a um grau maior de maturidade e diferenciação no relacionamento.

Há obviamente os casais que, frente a situação de crise, optam pela dissolução do casamento.

 

 

Conclusão

 

Como vimos, a individuação é um processo que ocorre durante toda a vida, não apenas com cada cônjuge, mas também com o casamento.

Quando as duas partes de um casal encaram seus aspectos sombrios, a vida conjugal que se segue tende a um enriquecimento do relacionamento, uma renovação e, simbolicamente, um renascimento. O par passa a cuidar da auto-satisfação, muito mais do que cumprir as expectativas sociais. Tende a usufruir de maior liberdade e ousadia. Cresce ainda o prazer em desfrutar o que foi ensinado pelo outro e o que foi construído em conjunto, sem deixar de existir o respeito pelas limitações e particularidades de cada um.

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