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A Chegada

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

 

A chegadaSinopse: Linguista é convocada para mediar o primeiro contato entre humanos e uma nave alienígena que pousa na Terra

 

Os filmes sobre alienígenas são projeções da psique humana a respeito daquilo que o homem busca, mesmo sem saber, para a sua completude. “A Chegada” gira em torno da necessidade humana fundamental de comunicação, entendimento e contato.

O mundo digital em que vivemos encurtou o tempo e alargou o espaço de nossas comunicações. Hoje podemos falar, ver ou ouvir quem está muito longe, de forma quase imediata. Vivemos on-line e, de fato, não temos dificuldade em nossa comunicação. Por que, então, o filme seria uma projeção da necessidade de contato, visto que interagir nunca esteve tão fácil e tão ao nosso alcance, como hoje? A resposta, a meu ver, diz respeito muito mais à qualidade do que à quantidade de nossas interações. Infelizmente trocamos muitos bites de informação sem alma. Teclamos o tempo todo, enviamos e recebemos dezenas ou centenas de mensagens e imagens, todos os dias, mas apenas algumas são, de fato, significativas. Poucas fazem vibrar o nosso íntimo e nos tocam verdadeiramente. Em outras palavras, não nos relacionamos com nossas fantasias, sonhos e mundo interno, desconhecendo a nós mesmos. Nem tão pouco interagimos de maneira significativa com os outros ou com aquilo que ultrapassa nossa humanidade, o que evidencia, muitas vezes, nossa carência de sentido na vida.

Vale lembrar que o inconsciente tem uma função compensatória em relação à atitude inevitavelmente unilateral de nossa consciência. Nosso mundo consciente, transbordando de contatos superficiais exclusivamente egóicos, parece vir desejando mais profundidade e pessoalidade em nossas trocas. O filme denuncia essa necessidade projetada na película, tanto no âmbito pessoal quanto no coletivo. No modo individual, simbolizada através do desejo da protagonista de se comunicar com a filha falecida e no coletivo, através da ânsia do mundo todo por conexão com o desconhecido alienígena.

Outro aspecto interessante no filme diz respeito à permutabilidade dos tempos passado e futuro. O tempo linear é questionado, visto que podemos entender a narrativa em ambos os sentidos. A história pode fluir e ser compreendida de antes para depois ou vice-versa (como o palíndromo Hannah, nome da filha de Banks). Essa é a imagem circular do tempo. O tempo representado pelo termo Kairós e entendido como um campo e não uma linha.

Kairós é uma palavra de origem grega, que significa "momento certo" ou "oportuno", relativo a uma antiga noção que os gregos tinham do tempo. Essa noção teria surgido a partir de um personagem da mitologia grega. Kairós era filho de Cronos, deus do tempo “cronológico” e das estações do ano e, ao contrário de seu pai, expressava uma ideia não-linear do tempo, impossível de se determinar ou medir. Kairós diz respeito ao momento apropriado único ou à ocasião ideal para a realização ou acontecimento de algo específico.

A película traz as imagens de circularidade como forma de comunicação, questionando nosso paradigma materialista de linearidade, causa-efeito e localidade/separação. Somos levados a refletir sobre os conceitos de simultaneidade, conexões não-locais e relatividade entre tempo e espaço, todos pertencentes a um novo paradigma, onde se insere a física quântica.

O filme também nos permite ponderar sobre a questão do contato entre o indivíduo e o universo, o conhecido e o desconhecido, o consciente e o inconsciente. Vemos uma simultaneidade entre o desenvolvimento da comunicação que a protagonista estabelece com os alienígenas e aquela que estabelece com suas imagens íntimas. Há um paralelismo no grau de conhecimento que vai se dando entre Banks e suas profundezas e entre ela e o universal.

Isso levanta a questão: estariam separados o “um” e o “todo”?

Finalizo com um pequeno conto indiano:

 

“A mãe de Krishna o chama e o repreende por ter comido terra.

Ele explica: - Mas não comi, pode ver minha boca. – Então, abra a boca, diz

a mãe Yassoda ao Deus que havia assumido a forma de criança. E então ela

viu em sua boca o universo inteiro, com os mais distantes pontos dos céus,

os ventos, os relâmpagos e a esfera terrestre com suas montanhas e mares,

e a lua e as estrelas e o próprio espaço e sua vila e ela própria.”

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