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A Espera

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

A EsperaSinopse: Uma mulher recebe a visita de sua futura nora e a conhece melhor enquanto espera pelo filho.

O luto é um processo de cicatrização lento e doloroso. Há um imenso vazio, perdem-se raízes e o sentimento de separação parece sem fim.

Ann, a protagonista, vive o luto da perda do filho. O filme se passa numa ilha cujo isolamento físico diz respeito à mesma solidão psíquica que se passa com a mãe. Visualizamos, logo no início, Ann numa casa com espaços amplos que parece estagnada e sem vida. Não é possível olhar a si mesma nessa nova realidade de falta, de modo que os espelhos são cobertos, as portas e janelas são fechadas e a luz do sol só existe do lado de fora.

Neste lugar, duas esperas se sobrepõem. A primeira é a de uma mãe em luto pela perda do filho que espera conseguir viver, apesar de sua partida. A outra é a da namorada que vai até a casa da mãe do rapaz, sem saber que ele havia morrido, e espera por sua chegada, com receio de não acontecer (“morrer”) caso isso não ocorra. A espera que o luto nos obriga contém, na verdade, o sim e o não, ao mesmo tempo. O nome do filme é extremamente apropriado ao luto lembrando que, segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss, o verbo esperar vem do latim "esperar, ter esperança; contar com, ter confiança de que" que é derivado de spes,ei, "esperança, expectativa". É importante percebermos que o luto é uma espera e, na espera, há a confiança da passagem. Note-se que na maneira ocidental de encarar o luto, isso não é percebido ou valorizado, insistindo-se na crença de que o luto é uma perda vazia e só. O luto é uma transição. Dolorosa, sim, mas uma transição.

Enquanto esperamos, vivemos entre dois mundos, o que foi e o que ainda não é, o que partiu e o que ainda não veio. A espera é o tempo-espaço entre a morte e o renascimento. É a potencialidade, o quântico. Lembrando que a física quântica é o novo paradigma científico que a atualidade custa a absorver e que interroga o modo materialista e causal de entender a realidade, enfatizando aspectos de conexão e totalidade. Trata-se de uma perspectiva que chama nossa atenção para enxergar o tempo também em sua forma qualitativa. Passamos a uma imagem circular do tempo, representado pelo termo Kairós e entendido como um campo e não uma linha. Kairós é uma palavra de origem grega, que significa "momento certo" ou "oportuno", relativo a uma antiga noção que os gregos tinham do tempo. Essa noção teria surgido a partir de um personagem da mitologia grega. Kairós era filho de Cronos, deus do tempo “cronológico” e das estações do ano e, ao contrário de seu pai, expressava uma ideia não-linear do tempo, impossível de se determinar ou medir. Kairós diz respeito ao momento apropriado único ou à ocasião ideal para a realização ou acontecimento de algo específico.

O luto precisa ser entendido também sob essa perspectiva visto que há, para cada indivíduo, um tempo apropriado para ocorrer, ligado às circunstâncias individuais e qualitativas do momento de vida onde vem se inserir. 

Na verdade, entre o (des)espero e a espera(nça), a espera é o tempo do balanço, o meio do caminho entre o que parte e o que chega. Assim também é o luto.

Testemunhamos no filme uma espera e dois processos de ausência que vão se dando durante a convivência entre as personagens.

Voltando ao filme, Anna parece negar a perda do filho, tentando aumentar seu tempo com ele através da presença de sua namorada. Já Jeanne, inconscientemente parece querer prolongar o tempo em que acredita que o namorado retornará, também evitando a certeza da perda. É comum, num primeiro momento do luto, a defesa contra a dor ocorrer através da negação. Acaba sendo uma maneira de não entrar em contato com a realidade, de alguma forma ainda inaceitável. O tempo de duração desse período não é fixo, dependendo dos fatos e diferenças entre as pessoas.

Segundo Kubbler-Ross, podemos distinguir algumas fases distintas durante o processo de luto:

Negação

Momento em que parece impossível a perda e há uma incapacidade em acreditar. A dor é tão grande que é necessária uma fuga da realidade.

Raiva

Surge depois da negação. Há o pensamento de “ por que comigo?”. Surgem sentimentos de inveja e raiva e existe dificuldade em se acreditar em qualquer palavra de conforto que acaba soando como falsa.

Negociação

Surge quando o individuo começa a se aproximar da hipótese da perda e tenta negociar, na maioria das vezes com o divino e através de promessas ou sacrifícios, a aceitação do fato.

Depressão

Ocorre quando o individuo toma consciência de que a perda é inevitável e não há como escapar disso. Sente o vazio deixado pela pessoa, encarando que nunca mais irá vê-la e partirá com ela também, os sonhos e projetos traçados anteriormente.

Aceitação

É a ultima fase do luto. Irá se dar dependendo muito da capacidade da pessoa em mudar a perspectiva a respeito da realidade inevitável. O espaço vazio deixado pela perda é preenchido e a mesma é aceita sem desespero ou negação. Algumas pessoas levam décadas de vida e outras nunca conseguem aceitar com serenidade a perda. Isso ocorre principalmente no caso de perda de um filho.

Voltando ao filme, vale apontar que há uma correspondência de campo simbólico que se dá dentro e fora da psique. No mundo externo, esse encontro e espera ocorrem durante a comemoração da Páscoa, tempo de ressureição. Refletido no mundo interno vive-se o desejo do ressurgimento daquele que não está mais presente.

Durante esse período juntas, podemos nos perguntar se Ann está sendo egoísta ao mentir para Jeanne e “usá-la” para minimizar a falta que sente do filho, apesar de não parecer fazer isso intencionalmente. Logo de imediato tendemos a olhar os eventos da perspectiva de Ann, avaliando-os e julgando-os a partir daí. Podemos, no entanto, observá-los através da perspectiva de Jeanne que também decide e toma atitudes, mesmo que inconscientemente. Conforme aumenta o tempo que passam juntas, começamos a ficar intrigados com a atitude de Jeanne que parece “saber” que o namorado não retornará mais e vive esse período de contato com Anna evitando a verdade de sua morte, ganhando a chance de se preparar para tal descoberta. Na verdade, Ann ganha tempo para esquecer e Jeanne, para descobrir. Enquanto esperam, vivem juntas a negação necessária para elaborar a dor. Há uma complementariedade psicológica entre elas:  a desesperada consciência da mãe fazendo um contraponto à esperançosa inconsciência da namorada. Entre o (des)espero e a espera(nça), a espera é o tempo do balanço, o meio do caminho entre a dor que parte e a dor que chega.

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