O site pretende explorar temas da psiquiatria e conceitos da psicologia jungiana em filmes de cinema.

A Onda

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

A ondaSinopse: Um professor fica responsável por lecionar aulas sobre autocracia para uma turma de ensino médio. Para conseguir a atenção e o interesse dos alunos, o professor propõe um experimento que trará sérias consequências.

Instrução, Sugestão e Sugestionabilidade

A instrução, assim como um comando ou uma ordem, faz surgir uma atitude ou ação deliberada por parte do receptor.

Já a sugestão é a comunicação onde o indivíduo poderá emitir, de forma involuntária, um comportamento ou conduta como resposta.

Por exemplo, a expressão “mova sua cabeça para frente e para trás” é uma instrução, enquanto a expressão “sua cabeça está sentindo uma intensa vontade de se mover para frente e para trás” é um exemplo de sugestão.

A sugestionabilidade, por sua vez, é uma disposição ou atitude favorável a acatar e dar forma à sugestão recebida. É a variável psicológica responsável por tratar o estímulo externo e fazer com que ele se reverta na resposta coerente esperada. Para uma sugestão ser bem sucedida, ou seja, o conteúdo da sugestão corresponder ao comportamento emitido, a pessoa não pode limitar-se a acolher a sugestão, mas apropriar-se dela e fazê-la sua.

A sugestionabilidade está intimamente relacionada aos mecanismos de influência social. No filme, logo percebemos alunos cujas respostas positivas ao “experimento” são mais imediatas do que outros. É sabido que quanto maior a capacidade de elaboração cognitiva dos argumentos persuasivos, menor a capacidade de ser sugestionado. Esta última está mais ligada aos aspectos emocionais e de atratividade. No filme temos a personagem Mona, de postura reflexiva e argumentativa em contraste com Tim, francamente dirigido pelo afeto.

O Coletivo

O século XIX viu aparecer um novo tipo de agrupamento humano. Antes, a regra eram pequenas vilas, nas quais todo mundo se conhecia e se relacionava. O processo de industrialização forçou uma grande quantidade de indivíduos a se deslocarem para grandes centros nos quais as pessoas não se conheciam e não tinham qualquer relacionamento mais íntimo. Essa nova realidade tornou patente um novo tipo de comportamento, que não era individual, mas coletivo. Baseado na psicologia social do médico francês Le Bon, Jung aponta o contágio emocional e a sugestionabilidade humana, inerentes à constituição de grupos. Segundo ele, “o indivíduo na multidão torna-se facilmente uma vítima de sua sugestionabilidade”.

Ao longo do filme, esses alunos que se caracterizam como um grupo vão sofrendo uma verdadeira infecção psíquica, cada um sendo contagiado através de suas vulnerabilidades individuais. Passa a existir uma consciência coletiva desse grupo que é mais crédula do que cada indivíduo separadamente. Na verdade, cada indivíduo fica num estado de “sono ou hipnose”, com sua consciência individual prejudicada, um menor poder de crítica, acatando a primeira ideia que lhes for oferecida.

No grupo a emoção é contagiosa e libera na massa instintos, forças e imagens primitivas. Reforçando o que já foi dito, a consciência de grupo é inferior à consciência individual. Jung afirma que “quando o grupo é muito grande cria-se um tipo de alma animal coletiva e por esse motivo a moral de grandes organizações é sempre duvidosa.”

Ainda nas palavras do autor, “quanto maior for a carga da consciência coletiva, tanto mais o eu perde sua consciência prática. É, por assim dizer, sugado pelas opiniões e tendências da consciência coletiva, e o resultado disto é o homem massificado, a eterna vítima de qualquer “ismo”.

O Líder

O líder é alguém dominado pelo desejo de poder e de auto-engrandecimento que controla e subjuga o grupo.

Inaugurando o filme testemunhamos o professor Reiner absolutamente frustrado com a imposição de lecionar um tema que não havia sido de sua escolha. De maneira inconsciente e, possivelmente como resposta, decide exercer o mesmo poder que lhe foi imposto. Reúne os alunos nos moldes do treino de disciplina e submissão, tornando-os instrumento de poder contra o “mal” fora de si.  O curso sobre anarquia, na figura do professor que lhe negou o diálogo ou negociação, torna-se a projeção de sua sombria impotência.

Faz parte da condição de manipulação própria do líder identificar um inimigo pois é mais fácil indispor-se com o outro alheio do que com aquele dentro do grupo.

Busca de sentido

Uma insatisfação, vazio ou falta de significado de origens distintas e experimentados individualmente podem, quando lado a lado, se tornarem sintônicos e se condensarem em algo único e bastante perigoso, por sua intensa carência de sentido. Na verdade, são essas as condições que se coagulam no surgimento de um líder. É ele que suprirá as angústias com a projeção da inconsciência de cada indivíduo num objetivo além do âmbito pessoal, numa meta que ultrapasse o eu.

Exemplificando tais carências a partir do filme, a personagem Tim é um rapaz que se esforça para agradar sem, no entanto, conseguir se inserir no grupo até que finalmente “a onda” lhe possibilita tal experiência. Fica identificado com o movimento e seu líder, fazendo uma relação fusional com total perda de identidade e que se torna fatal na ocasião de sua dissolução.

Karo , namorada de Marco, se insere numa família algo permissiva mas é uma figura mais interrogativa e discriminada. Marco, que carece de um ambiente familiar com modelos estruturantes, passa a ganhar confiança e poder de dominação ao integrar o grupo (note que Marco chega a tentar exercê-lo sobre Karo quando a agride).

Lisa e Bomber, por sua vez, perdem-se na falta crítica e no anonimato que o grupo oferece, numa verdadeira entrega e submissão sem questionamentos.

Quanto maior o poder, cresce também a agressividade. A consciência rasa e coletiva do grupo vai também se refletindo num grau cada vez maior de violência e animalidade indiscriminada, facilitada também pelo anonimato.

Enfim, é a busca de sentido que traça os caminhos de todos nós. Quando o sentido falta, o caminho desaparece e os indivíduos se perdem. Reina a escuridão e a inconsciência. Mas nossas buscas são diversas e únicas e os atalhos que prometem uma luz coletiva e superior são trilhas perigosas.

Como a luz da consciência só nasce do confronto com a própria sombra, o significado, o sentido e o caminho de cada um só pode ser encontrado a partir de si mesmo.

 

0 comentários:

Postar um comentário

 

Curta nossa página!

Siga o site para receber notificações sobre as postagens!

Copyright 2017 Psique Cinema - Todos os direitos reservados.