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A partida

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

A partidaSinopse

O filme conta a história de um violoncelista que volta à cidade natal com a esposa depois que a orquestra onde toca é dissolvida. Lá, começa a trabalhar como funcionário funerário, apesar das críticas que lhe são feitas.

Corpo

O corpo concretiza nossa existência e é expressão mais divina da nossa alma.

É a nossa conexão com o mundo externo mas, antes de tudo, é a morada, o templo de nossa individualidade e de tudo aquilo que somos como pessoa. Em nossos dias, esquecemos esse lado sagrado do corpo, dando ênfase apenas à sua manifestação estética. Perseguimos todos os recursos a fim de inserí-lo nos moldes da beleza padrão ditada pela sociedade. Mas no sentido da sua interioridade, o corpo vem sendo esquecido e descuidado.

No entanto, é através do nosso corpo que chegamos e partimos dessa dimensão existencial. E é sobre essa partida que o filme trata, resgatando a omissa reverência que lhe é devida.

Ritual

 

A vida tem suas etapas. A cada finalização de um ciclo e início de outro, necessariamente passamos por um período de transição. Tal período, muitas vezes, não é confortável e pode nos levar a uma experiência de crise. São durante essas transições que se inserem os chamados rituais ou ritos de passagem.

Os ritos de passagem são vivências, simultaneamente criativas e repetitivas, que celebram as experiências essenciais da vida humana.  As mais importantes seriam o nascimento, a adolescência, o casamento, a chegada dos filhos, a velhice e a morte. Tais experiências ritualísticas ajudariam o indivíduo a se separar da etapa anterior e ser incluído e integrado na nova fase de vida, geralmente associada a um novo papel social. Como bem conheciam os povos primitivos, os rituais levariam o indivíduo a perceber a perpétua continuação da vida através da transformação e da renovação. A civilização moderna, no entanto, perdeu em grande parte o contato com essas intensas vivências, dificultando ao ser humano expressar suas alegrias, seus medos ou suas dores junto ao grupo a que pertence. Em suma, estamos cada vez mais nos tornando carentes de rituais.

O filme trata da temática do ritual de despedida na ocasião da morte. Preparar o corpo para a partida, esse é o trabalho encontrado pelo protagonista, após ter sido afastado da música . Há uma dificuldade na aceitação da tarefa, principalmente pela esposa, por uma provável mistura de sentimentos que o envolvimento com a morte nos causa: medo, repulsa, incômodo, aflição. Aos poucos, no entanto, o filme vai revelando a riqueza daquele ritual que abre espaço para a expressão de tantas inquietações e angústias.

A pedra

Na psicologia analítica a pedra é o símbolo alquímico do Self ou Si-mesmo.

O Si-mesmo é a nossa essência, o principio ordenador e unificador da totalidade da psique consciente e inconsciente. E, sendo nosso centro psíquico, atua como a fonte criadora e reguladora de nossa vida psíquica. É a nossa unidade.

A pedra é o símbolo do bruto e imperfeito, mas ao mesmo tempo da solidez e estabilidade. É o consciente dialogando e sendo lapidado a partir do inconsciente, é a união dos opostos, é o todo.

No filme, a pedra perpassa toda vida do protagonista, alinhavando seus questionamentos em relação à ausência do pai. A pedra é a lembrança e o vínculo que não desaparece. Segundo Jung, “a pedra não tem começo, existe desde toda a eternidade, e também não tem fim e existirá por toda a eternidade”. O protagonista consegue, como acompanhamos no final do filme, se deixar tocar, se reconciliar e se ligar novamente com o pai através da pedra. A pedra que “toca” Daigo e traz de volta sua “ligação” com o pai me fez lembrar da chamada “pedra-de-toque”, um material usado para se testar ligas de metais preciosos (uma imagem ilustrativa, apenas).

Ao mesmo tempo, acompanhamos como a consciência de Daigo se transforma a partir do contato com seu Self, ou seja, como sua essência é trabalhada, dando novos contornos à sua unidade, à sua pedra. O protagonista afirma, em pensamento, logo nas primeiras cenas: “faz quase dois meses que sai de Tóquio e voltei a Yamagata. Pensando nisso agora, eu levava uma vida insignificante”. Daigo não perde mas transforma e amplia sua sensibilidade, que é parte da sua essência, e está presente tanto na música quanto nos gestos melodiosos com que toca os corpos. 

 

Despedida e transformação

Como foi dito anteriormente, os rituais visam oferecer a oportunidade de transformação. O filme apresenta isso de forma rica e bela. Durante a realização do ritual, a película nos faz testemunhar como podem surgir na consciência, imagens, fantasias, lembranças e sentimentos vindos do inconsciente, elementos  valiosos a serem trabalhados. O ritual, dessa forma, vem a ser o catalisador de uma possível transformação, necessária para a nova etapa da vida. Na verdade, nos dias de hoje, os rituais foram transpostos para o interior da pessoa, constituindo mais uma vivência psíquica do que física. Não raro os rituais necessários vão ser vividos através dos processos de terapia, com a elaboração e integração de conteúdos inconscientes e possível mudança psíquica. A transformação, quando alcançada, pode significar uma ampliação na maneira de viver do indivíduo, promovendo seu amadurecimento.

Enfim, os rituais, muitas vezes, podem  mobilizar conteúdos que oferecem ao indivíduo a oportunidade de dar significado àquele momento de despedida. O cuidar amorosamente do corpo, preparando-o para a partida, permite que se reatem conexões perdidas, que se diga o que não foi possível e que se enxergue além do que se viu até o momento da despedida. O amor depositado naquele ritual é o eros que une, faz a ponte e estica a linha do tempo, dando uma chance aos encerramentos necessários, sejam eles quais forem.

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