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Manchester, à beira mar

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

Manchester, à beira marSinopse: Homem marcado por um trauma volta à terra natal para cuidar do sobrinho após a morte do irmão.

Esse é um filme sobre o impedimento de dar sentido à uma dor. Um filme sobre um erro, onde o outro não pode ser responsabilizado, uma história de culpa e da dificuldade em se perdoar. Identificamos no protagonista, logo de imediato, alguém vivendo aquém de sua condição intelectual e que basicamente se pune através do trabalho. Lee retira a sujeira dos encanamentos do condomínio onde é zelador, e desobstrui o que precisa fluir. Mas há uma estagnação em sua vida emocional, um peso em sua expressão e uma desistência em suas ações. Até que a morte do irmão o leva de volta à cidade onde nascera tal dor. De onde Lee tentou fugir e se distanciar, ingenuamente querendo deixar para trás, o que não conseguiu elaborar dentro de si. Através da reaproximação de seu trauma e da  mobilização de imagens inconscientes e sombrias, ficamos conhecendo o que se deu com o protagonista. Lee tinha sido um homem casado, mas que prolongava uma atitude infantil de satisfação imediata de desejos, egoísta e focado em si mesmo que, acidentalmente, incendeia a casa onde vivia, perdendo seus três filhos.

Em suma, falamos de um homem com dificuldade de amadurecimento que passa por um trauma que não consegue elaborar. O trauma diz respeito ao ato, no caso acidental e, podemos supor, inconsciente, da destruição de sua casa e de seus descendentes através das chamas.

Me deterei um pouco nesse símbolo, comentando alguns aspectos gerais da alquimia e, mais especificamente, a operação alquímica relacionada ao fogo, a calcinação.

A visão racionalista da ciência atual pode entender a alquimia como um tipo de química primitiva sem resultados esclarecedores. Entretanto a alquimia, conforme entendida por Jung, era um reflexo da psique do investigador e as transformações na matéria correspondiam às projeções psíquicas de seu inconsciente. A opus alquímica corresponderia ao processo de individuação, transformando seus conteúdos internos, trazendo-os à luz da consciência.

Clareando um pouco esse conceito, a individuação é um processo de diferenciação do ser humano no transcorrer de sua vida, no qual um indivíduo se torna ele mesmo, pleno e distinto da coletividade. É o desenvolvimento da personalidade no seu sentido único, singular. A busca pela totalidade (Si-mesmo) através de um confronto da consciência com elementos do inconsciente que precisam ser assimilados e agregados ao eu.

Eram várias as operações alquímicas.

A calcinação é a primeira delas e se relaciona ao fogo. Consiste em aquecer uma substância até que seja reduzida a cinzas. Psicologicamente, é a destruição de nossos apegos e posses materiais, a necessária frustração do desejo em prol daquilo que é essencial e prioritário. É um processo natural que nos acontece à medida em que somos exigidos pelas responsabilidades da vida. Não vemos isso acontecer naturalmente com o protagonista que se prende aos prazeres imediatos e não atende às solicitações maduras de um desenvolvimento esperado. A meu ver, o incêndio é o espelho externo do que deveria ocorrer na psique de Lee em seu processo de individuação. Comumente a vida nos traz, através de acontecimentos no mundo, o equivalente aos símbolos do inconscientes que resistimos em acolher.

O restante do filme nos apresenta a morte psíquica do personagem, estagnado emocionalmente, impedido de dar sentido à sua vida. Não resta a condição emocional de atender às solicitações em acolher o sobrinho, o que poderia ser uma chance de rever a ferida que não se curou. A culpa que carrega é maior do que ele próprio, mutilado por perder os filhos. De fato, para alguns, não há reparação para tal e, não raro, a aceitação não ocorre. Mas para outros, pode haver a chance de se transformar, elaborando e integrando conteúdos inconscientes, se concedendo o auto-perdão e a chance de renascer das cinzas que sempre ficam.

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