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O feitiço do tempo

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

 

o feitiço do tempo

Sinopse:

 

Um repórter de televisão que faz previsões de meteorologia vai a uma pequena cidade fazer uma matéria especial sobre o celebrado "dia da marmota". Pretendendo ir embora o mais rápido possível, ele passa por inexplicável dificuldade para conseguir partir.

 

A repetição

 

O filme como um todo é uma forma  bem humorada de apresentar e lidar com uma questão incômoda vivida pelo protagonista: ficar preso no tempo. Obviamente isso não é possível na realidade, mas aproveitarei a proposta do filme para abordar, do ponto de vista psíquico, uma desconfortável situação de repetição. De fato, todos nós  já experimentamos a sensação de vivermos psiquicamente algo que se repete. Uma música, um pensamento, uma cena que “não sai da cabeça” ou o mesmo sonho ocorrendo diversas noites.  A ideia aqui é refletirmos, sob o olhar psicológico, a respeito de algo que surge independente de nossa vontade e que insiste em se apresentar à nossa consciência. Vale ressaltar ainda que, na maioria das vezes, não nos perguntamos o porquê do surgimento de tais conteúdos e até tentamos nos esquivar deles.

É interessante notar no filme que, antes do protagonista ser apanhado pela repetição do evento do “dia da marmota”, uma predisposição negativa permeava seu humor visto que trabalhar no evento ia contra a sua vontade e não havia como se esquivar. Portanto, há um contexto emocional tenso que culmina com algo que passa a se repetir e não pode mais ser ignorado. Seria interessante que isso levasse o indivíduo a prestar atenção e refletir sobre aspectos da situação ou de si mesmo que talvez estivessem sendo negligenciados.

 

 

Consciência, ego, inconsciente pessoal e coletivo 

 

Algo que desconhecíamos e que nos é apresentado, e não chega a nós através dos nossos sentidos, diz respeito a algo que se origina no inconsciente. Num contexto afetivo intenso (como o descontentamento de Phil, no filme), um elemento inconsciente pode ganhar energia psíquica e tentar emergir em nossa consciência. Assim ocorre com o protagonista que é surpreendido, assim, por uma vivência  que se repete, sendo obrigado a lidar com tal situação, o que vai ocorrendo ao longo da história. Uso as impressões do filme de forma ilustrativa, uma vez que, nele, o processo de mudança é o desenrolar natural da trama sem que haja questionamentos.

Vale a pena apresentar, simplificadamente, alguns conceitos  da psicologia analítica pertinentes ao que está sendo exposto.

 

Consciência e Ego

A consciência é tudo aquilo que conhecemos e o ego é o seu centro ou filtro, que seleciona e nos apresenta um conteúdo de cada vez.

 

Inconsciente

O inconsciente é composto por todos os elementos que não conhecemos e compreende o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo.

 

Inconsciente Pessoal

O inconsciente pessoal reporta-se às camadas mais superficiais do inconsciente, onde estão guardadas as experiências que não foram aceitas pelo filtro do ego e, consequentemente, foram reprimidas ou desconsideradas, tais como: lembranças penosas, conflitos pessoais ou morais. Também estão escondidas algumas características que, apesar de nos serem inerentes, nos desagradam e, por isso, as encobrimos de nós mesmos. 

 

Inconsciente Coletivo

O inconsciente coletivo é uma camada mais profunda do inconsciente, uma espécie de reservatório de padrões latentes de comportamento, relacionada à psique mais primitiva e ancestral.

 

Poderíamos ilustrar os conceitos expostos acima da seguinte forma: o inconsciente coletivo seria as profundezas do mar; o pessoal, a parte do mar mais superficial e próxima à ilha que, por sua vez, seria a consciência onde estaria um farol, que chamaríamos de ego.

Lembrando que, tudo isso se relacionando de forma dinâmica, compõe a psique.

Como dissemos, algum conteúdo que se repete, provavelmente assume tal dinâmica na intenção de ser notado. E qual seria a finalidade desse movimento?

Segundo Jung, a psique é um todo que procura o equilíbrio. Entretanto, nossa consciência tem a tendência em crescer numa mesma direção. Por exemplo, alguém bastante racional e perfeccionista geralmente vai, com suas experiências de vida, acentuando tal modo de ser. O inconsciente vem, então, exercer  uma atividade compensatória em relação à consciência no sentido de busca de equilíbrio. O indivíduo pode ter sonhos que, por exemplo, contradizem suas vivências conscientes de ordem e perfeição e ficar sem compreendê-los. Assim, fantasias, ideias que nos tomam ou retornam à nossa consciência são compensações do inconsciente na busca por um equilíbrio, sendo elementos valiosos para nosso auto-conhecimento e expansão pessoal. 

Voltando ao filme, percebemos como Phil tenta lidar com a situação repetitiva que se impõe. Ele se estranha, não aceita o que ocorre, se acha doente, foge das pessoas, se esquiva das situações que, para ele, se tornaram armadilhas, chegando à agressividade e autodestrutividade.

Fazemos tais movimentos em nossas vidas quando nos defrontamos com situações difíceis que se repetem e não tentamos alcançar o simbolismo que trazem para nós mesmos. Aos poucos Phil consegue notar o que está ao seu redor, suas emoções, passa a expressar seus sentimentos e percebe sua atração pela colega de trabalho, o que fica bem inserido no gênero romântico do filme. Enfim, após resistência, devagar o protagonista se transforma, ao integrar elementos de si mesmo que lhe eram desconhecidos e deixa de estar aprisionado e “enfeitiçado”. O tempo e sua vida podem, agora, continuar seu caminho.

Enfim, é enriquecedor tomarmos consciência daquilo que se impõe e se faz presente. E, se pudermos refletir sobre seu significado, inserindo-o em nossa existência, ampliaremos nossa visão de mundo e de nós mesmos, caminhando para uma vida mais plena de sentido.

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