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Um homem chamado Ove

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

 

Um homem chamado OveSinopse: Ove é um mal-humorado de 59 anos de idade que cuida do condomínio onde mora com punho de ferro, até que novos vizinhos se mudam para a casa ao lado da sua.

Persona

Durante todo o filme acompanhamos o jeito de ser de Ove, revelado na forma como se relaciona com o mundo. É um senhor bastante rígido, metódico, frio, que não se incomoda em desagradar as pessoas que, segundo sua visão, fazem tudo errado. Essa é a imagem com a qual Ove se relaciona com os outros, com os valores coletivos e normas culturais. Na psicologia analítica, damos a isso o nome de Persona (sua “personalidade exterior”).

Há um outro tipo de relacionamento importante que diz respeito à maneira pela qual uma pessoa se relaciona com seu mundo interior (ou “personalidade interior”). É a forma como as pessoas tratam a si mesmas. Por exemplo, a disposição ou atitude que governa nossas relações com o mundo interior pode ser acolhedora e calorosa ou hostil e hipercrítica. Ainda falando sobre a “personalidade interior”, mais especificamente sobre seus conteúdos, Jung propõe que ambos os sexos tem componentes e qualidades masculinas e femininas presentes nessa “personalidade”. Anima (palavra que significa alma) foi o nome dado à “personalidade interior” do homem e Animus (cujo significado é espírito), à da mulher.

É importante destacar que os termos alma e espírito não têm conotação religiosa.

Não tratarei, neste post, da mulher e seu correspondente Animus e, sim, da Anima que é o conceito retratado no filme.

Anima

A Anima é a essência interior feminina e inconsciente da psique do homem que lhe confere flexibilidade, passividade, a possibilidade de ser sensível e acolhedor. É sempre importante que exista uma dialética entre a consciência do homem e tais conteúdos inconscientes, pois sabe-se que o consciente e o inconsciente “funcionam” de maneira compensatória. A existência de tal diálogo evita que, caso a personalidade exterior do homem se torne unilateralmente dura e racional, elementos inconscientes sejam ativados fazendo com que o homem fique à mercê de sua Anima (essência interior feminina). Esta passa a “dominar” sua consciência e o torna sensível, irritável, temperamental e vaidoso (uma caricatura do feminino que estava aprisionado e agora “toma conta” da consciência). Num grau ainda mais grave, quando o homem torna-se totalmente distante de sua Anima, que está extremamente suprimida, pode haver diminuição da vitalidade e flexibilidade e a “personalidade externa” pode chegar aos extremos da rigidez, dureza, estereotipia, unilateralidade fanática e tendenciosidade. Esse é o caso de Ove que não mantinha qualquer dialética com sua Anima e que, como veremos adiante, acaba projetando-a no mundo externo.

Persona e Anima

De forma simplificada e retomando o que foi dito acima, há na psique uma relação de compensação entre a Persona (consciente) e a Anima (inconsciente). De certo modo, uma “personalidade interna” (Anima) apresenta aquelas propriedades que faltam à “personalidade externa” (Persona). Assim, quanto mais viril é a Persona, mais suprimidos e inconscientes são os traços femininos, ou a Anima, para um homem. Esse é o caso do protagonista cuja expressão externa de sua pessoa é a do tirano cruel, insensível, obstinado, duro e inacessível, atormentado por pressentimentos sombrios. Assim, um homem muito masculino na Persona terá que ser igualmente feminino na Anima, possuidora de seus aspectos de receptividade, sensibilidade e capacidade de estabelecer relações. Como foi dito anteriormente, Ove não entra em contato com sua Anima, que permanece inconsciente, e que desta forma, estará projetada na mulher por quem se sente atraído. Geralmente isso se dá através de uma paixão por uma mulher que tenha características opostas e complementares ao seu jeito de estar no mundo e que retrate sua alma: no caso de Ove, uma mulher ousada, com espírito de aventura e que foge aos padrões convencionais. É essa a Persona da moça por quem Ove se apaixona, com quem se casa e que lhe confere um sentimento de completude. Entretanto, Ove continua não estabelecendo contato e diálogo com sua Anima que permanece sendo vivida através da projeção carregada por Sonja. Percebemos, assim, o porquê do protagonista, após a morte da esposa “perder” sua sensibilidade (que estava projetada na mulher e ele não tinha se apropriado) e viver como apresentado no início do filme: um senhor amargurado, rabugento e inflexível.

Com o desenrolar da história, vamos perceber um segundo momento na vida de Ove que passa, muito a contragosto, a se relacionar com outra figura feminina. Trata-se de Parvaneh, uma imigrante iraniana grávida, mãe de duas crianças, que se muda para o mesmo condomínio. É uma figura maternal, afetiva, que tolera as intransigências e a falta de sensibilidade de Ove, insistindo em se relacionar com ele (como se enxergasse a vida de sentimentos que ele mesmo não sabe que possui). Mesmo com resistência, o protagonista é colocado em contato com as filhas de Parvaneh, o que o obriga a se relacionar com o novo, repleto de potencial (símbolos da criança) e a compartilhar fantasias. Um dia, por exemplo, as garotas solicitam que Ove ”fale com a voz de Urso”, ao ler um livro infantil para elas; uma experiência rica e criativa que, aos poucos, vai permeando sua dureza. Vamos notando que o protagonista vai estabelecendo algumas trocas com Parvaneh, recebendo os doces que ela lhe oferece (adoçando-o) e concordando em ensiná-la a dirigir. Dessa forma, vai trazendo, apesar do medo e resistência, sua essência interior feminina para o mundo, agora através de Parvaneh. Note-se que isso novamente ocorre sem diálogo, conscientização e integração dos aspectos de sua Anima que, apesar de experimentados e trazidos para a vida, permaneceram inconscientes a Ove até a sua morte.

Enfim, generalizando o exposto acima, vemos que, com todos nós, a guerra que se trava com o outro exterior é a guerra que acontece no mundo interior. Dessa forma, é importante, para fins de desenvolvimento psicológico, que o indivíduo possa se engajar num processo dialético com seu ego, centro de sua consciência. Isso permite que se reconheçam as projeções e surja a possibilidade de expansão do grau de entendimento a respeito de si próprio.

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