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XXY

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

 

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Sinopse (imdb)
O filme versa sobre a questão do intersexo numa adolescente de 15 anos. Ela mora com os pais que precisam lidar com os desafios de sua condição médica.

XXY

O nome do filme "XXY" nos remete a uma alteração cromossômica bastante específica mas que pode ser incluída dentro de uma categoria geral conhecida como intersexo. Optei, na leitura do filme, em explorar aspectos psicológicos dessa categoria como um todo. Isso porque, de fato, são os conflitos inerentes a essa condição, tanto dos pais quanto da protagonista, que serão o fio condutor de todo o filme.

Nomenclatura: hermafrodita ou intersexo?

 

Intersexo é o termo usado atualmente em substituição a designação anterior dita hermafroditismo. A palavra hermafrodita se origina do grego Hermaphroditos, nome de uma figura mitológica que possuía os dois sexos e era filho de Hermes e Afrodite. Essa designação para fins médicos, entretanto, carregava problemas como imprecisão e anacronismo frente aos conhecimentos atuais, além de reforço da estigmatização já existente. Foi, assim, substituída pelo termo intersexo.

No entanto, tem havido ainda um emergente consenso em passar a usar a nomenclatura “distúrbios do desenvolvimento sexual” (DDS) no lugar de intersexo, por parecer ainda mais apropriada.

Intersexo, Gênero, Identidade de gênero, Orientação sexual

É importante saber a diferença entre esses termos.

Intersexo

É um termo geral usado para uma variedade de condições em que uma pessoa nasce com uma anatomia reprodutiva ou sexual que não se enquadra nas definições típicas de feminino ou masculino.

Gênero

Gênero era dividido corriqueiramente entre masculino e feminino, de acordo com os genitais externos. Masculino quando o indivíduo possuía pênis e testículos e feminino no caso de apresentar vulva, clítoris e mamas. Entretanto, como dito anteriormente, essa divisão binária e simplista não se sustenta mais. Gênero é o sexo social definido, ou seja, gênero não é sinônimo de anatomia. Enquanto o sexo é biológico, o gênero é construído historicamente, culturalmente e socialmente. Incorporamos o gênero masculino ou feminino, através do aprendizado de comportamentos, hábitos, formas de pensar, concordantes com padrões definidos socialmente como masculinos ou femininos.

Identidade de gênero

Vem sendo preferida ao conceito de gênero. A identidade de gênero diz respeito ao modo como a pessoa se vê, ou seja, a autoidentificação. A partir daí, se utilizam dois termos: transgênero e cisgênero.

Transgênero é a pessoa que não se identifica com as características do gênero designado a ela no nascimento. Cisgênero. por sua vez, é o indivíduo que se identifica com as características do gênero designado a ela no nascimento.

Orientação sexual

Ainda se faz bastante confusão entre  o que é identidade de gênero e orientação sexual. Cabe o esclarecimento:

A orientação sexual diz respeito à direção ou à inclinação do desejo afetivo e erótico de cada pessoa. Se a pessoa direciona seu desejo a indivíduos do sexo oposto, falamos em heterossexualidade. Se o direciona a pessoas do mesmo sexo, homossexualidade, se o direciona a ambos os sexos, bissexualidade ou a nenhum, assexualidade.

Um pouco mais sobre intersexo

Retomando o que foi dito anteriormente, intersexo é um termo geral usado para uma variedade de condições em que uma pessoa nasce com uma anatomia reprodutiva ou sexual que não se enquadra nas definições típicas de feminino ou masculino. Por exemplo, uma pessoa pode nascer parecendo ser do sexo feminino na sua genitália externa, mas ter a maioria de sua anatomia interna tipicamente masculina e vice-versa. Também podem ocorrer nascimentos onde a criança pode ter genitais que parecem estar entre as formas típicas masculinas e femininas: uma menina pode nascer com um clitóris visivelmente grande para os padrões típicos ou com a falta uma abertura vaginal. Ou um menino pode nascer com um o saco escrotal não totalmente fundido de modo que se parece mais como lábios vaginais.

Nem sempre a anatomia de um indivíduo intersexo se mostra ambígua ao nascer. Isso pode ocorrer apenas na puberdade.

A intersexualidade não se resume a tipos exatos e bem definidos de alterações genitais. O intersexo é uma categoria socialmente construída que reflete variações biológicas reais. Na realidade, a natureza nos oferece um espectro da anatomia sexual, como, por exemplo, o espectro da luz. Assim, a natureza não decide onde a categoria masculina termina e a categoria de intersexo começa, ou onde a categoria de intersexo termina e a categoria de feminino começa. Somos  nós, humanos, quem decidimos. As opiniões dos médicos sobre o que deve ser considerado como intersexo variam substancialmente. Alguns pensam que é preciso possuir genitália ambígua para ser tido como intersexo. Outros pensam que o cérebro tem de ser exposto a uma “mistura” incomum de hormônios pré-natais para contar como intersexual. E alguns pensam, ainda, que o indivíduo tem que possuir tecido ovariano e testicular para contar como intersexo.

Reflexões

Passando ao filme, Alex, a filha, vive numa cidade distante com os pais e todos lidam com a questão da intersexualidade e suas dificuldades. Digo filha porque a narrativa nos revela que os pais escolheram criá-la como menina.

No entanto, por expressões sutis dos personagens, pode-se arriscar dizer que o pai parece preferir que sua filha viesse a ser filho, caso decidisse ser homem – enquanto sua mulher, Suli, parece ter uma leve preferência para que ela tenha uma filha, ou melhor, que “siga” tendo uma filha. Desse fato já evidenciamos uma primeira dificuldade dos pais em relação à questão, uma vez  que não necessariamente terão seus desejos satisfeitos.

Daí advém a questão: é importante atribuir um sexo ao nascer?

Segundo o que é proposto atualmente pela ISNA (Intersex Society of North America), sim, deve haver a escolha e atribuição de um gênero, menino ou menina. Tal escolha se faz em função de com qual gênero é mais provável que a criança se identifique enquanto cresce.

Note-se que a atribuição de gênero não envolve realização de cirurgia, visto que isto não cria uma identidade de gênero.

Bem retratado no filme, os pais optaram por não submeter a filha a nenhuma intervenção cirúrgica, convivendo com a angústia de não “resolver” o assunto,  aguardando a própria filha definir sua identidade de gênero.

Outro aspecto bastante importante da película são as dificuldades sociais e de relacionamento que a protagonista e seus pais enfrentam. Provavelmente optam por viver num local distante e mais isolado tentando se proteger do estigma que a condição ainda carrega.

No filme, durante o crescimento da filha, parece ter havido um enfrentamento solitário dos pais em relação à questão do intersexo. Sem informações e suporte suficientes, emerge a angústia de como agir, chegada a puberdade da filha. Há uma cena importante onde o pai busca informação e algum conforto com o relato de um indivíduo que havia sido submetido a uma cirurgia genital precoce para atribuição de gênero.

O esclarecimento de dúvidas e a troca de experiências possibilitam um convívio mais tranquilo com as indefinições próprias do intersexo.

O acompanhamento psicológico é essencial, assim como o contato com outros indivíduos na mesma condição para troca de experiências, suporte e continência afetiva.

Em resumo, do ponto de vista médico e psicológico o que hoje é preconizado para os pais e filhos com intersexo, segundo a ISNA, é o seguinte:

-Tratar a questão de forma aberta e honesta, sem vergonha ou mentiras.

-Acesso a psicólogos e psiquiatras conhecedores da questão. Não tratar a angústia dos pais com a cirurgia "normalizadora" em crianças.

-Indivíduos competentes devem ser autorizados a obter as cirurgias desejadas depois de terem sido plenamente informados de seus riscos e benefícios. Não devem ser feitas cirurgias eletivas em pessoas (geralmente crianças) sem seu consentimento informado.

Há uma tendência atual em se adotar uma abordagem que elimine a vergonha, o segredo e as cirurgias genitais indesejadas para qualquer pessoa nascida com o que alguém acredita ser uma anatomia sexual não-padrão.

O filme finaliza de acordo com o que é proposto pelos meios acadêmicos, ou seja, respeito à decisão do indivíduo, seja ela qual for, no seu devido tempo.

E assim Alex responde ao pai: “E se não houver nada para eu escolher?”

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