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A criança

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE 

A criançaSinopse: Um casal de jovens que acaba de ter um filho vai precisar enfrentar os questionamentos dessa nova vida.

Não há dúvida de que este filme denuncia os contrastes sociais e econômicos existentes no mundo contemporâneo, evidenciando a marginalização presente nesse contexto. É o que se passa com o casal de namorados, Sonia, de 18 anos que acabou de dar à luz um menino e Bruno, o pai, com 20 anos de idade que vive de pequenos roubos e golpes, cometidos por ele e seus comparsas adolescentes. Nessa análise, abordarei apenas os aspectos psicológicos das personagens.

Apesar do filme não trazer dados da vida pregressa dos dois jovens é evidente que o abandono é a ferida que sangra na alma desses personagens. Sustentam-se um ao outro através de um amor que se confunde com uma relação de sobrevivência. Bruno e Sonia ainda são crianças que correm, se provocam, caem, levantam, brincam e sorriem.

Segundo Jung, a criança  é gerada no fundamento da natureza humana, ou melhor, da própria natureza viva. É uma personificação de forças vitais e de inteireza, representando o mais forte e inelutável impulso do ser, isto é, o impulso de realizar-se a si mesmo. É esse centro inteiro e pleno de potencialidade, essa criança viva que Bruno e Sonia carregam e que, apesar de ferida, permanece em busca de poder vir a ser em sua plenitude.

Percebemos, já no início do filme, que o recém-nascido dessa pueril união, Jimmy, constela ou ativa o arquétipo materno em Sonia, imprimindo uma nova dimensão à sua puerilidade. Ela o aceita amorosamente, protege-o, mais de uma vez preocupa-se em dar-lhe identidade registrando-o e, através da possibilidade de criá-lo, ganha a chance de resgatar sua criança interna abandonada. Sonia ainda é uma garota, brinca e corre como uma criança mas também é mãe, nitidamente protetora e calorosamente maternal. Percebemos ainda como Sonia tenta, em vão, contaminar o namorado com esse sentimento de conexão que sente pelo filho.

Mas isso não acontece com Bruno. Ele mantém um distanciamento frio e amedrontado, que soa mais como uma maneira de se proteger da dor de sua própria ferida de abandono, do que um comportamento perverso ou amoral para com o filho. O bebê é, ele próprio, a necessidade  de proteção que o pai abandonado não tem para dar. Há uma defesa tão desesperada em Bruno que o impede de humanizar o filho, tratando-o como “algo” que pode ser vendido, substituído ou “feito de novo”.

Sabemos que estas experiências de abandono na primeira infância geram uma ferida infantil que interferem nas possibilidades de desenvolvimento e até no destino daquele ser. Jung nos diz: “A eterna criança no homem é uma experiência indescritível […]; um imponderável que determina o valor essencial de uma personalidade ou sua falta de valor. Conclui afirmando que a manifestação do arquétipo da criança ocorre quando há uma identificação do indivíduo com seu infantilismo pessoal e com a sua criança abandonada e incompreendida. A mãe de Bruno aparece em uma única cena e parece haver uma grande reticência em acolhê-lo. Não há segurança para gostar de si mesmo quando não se foi espelhado nos olhos maternos. O olhar da mãe é a primeira possibilidade de se ver refletido e ser aceito incondicionalmente como a pessoa que se é. Bruno não se vê, não acredita em seu valor como indivíduo e rouba do mundo tudo aquilo que lhe foi negado e nunca acreditou poder conquistar por si mesmo.

Delinquência e a privação emocional

Chamo de delinquência um padrão de conduta que se caracteriza pelo confronto e antagonismo frente às normas e valores sociais vigentes. Bruno exterioriza esse padrão de comportamento praticamente durante todo o filme. Vale notar que por meio de uma conduta delinquente, o indivíduo impele a sociedade a retroceder com ela à época em que se deu a privação emocional e a testemunhar e reconhecer suas grandes perdas. Na motivação para o furto que geralmente visa à posse de objetos, dinheiro e bens materiais, o que se tem é a procura obsessiva e incessante de “algo” que nunca se encontra e que é exatamente o olhar materno perdido. O furto expressa a privação de amor. No entanto, ao vender seu filho Jimmy, Bruno fere Sonia, passa a ser rejeitado por ela e se vê privado de sua única relação de afeto verdadeira. Aos poucos, conforme a película avança, percebemos que as defesas de Bruno tornam-se menos eficazes e o contato com sua própria dor vai ficando difícil de ser reprimidamente negada. Bruno parece mais frágil e vulnerável e,assim, mais sensível o que nos leva a pressupor que, em decorrência disso, acaba assumindo a autoria do furto cometido junto com o garoto, entregando-se à polícia. Bruno rende-se.

A cena final é a dor do arrependimento de quem finalmente se conecta com a própria solidão. Seu choro pede perdão à Sonia e o abraço é a própria confissão de quanto ainda precisam um do outro.

 

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