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A promessa

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE 

Sinopse: O filme acompanha como Roger usa seu filho, Igor, no tráfico  e exploração de imigrantes em situação ilegal no país.

A promessaO filme, na personagem do jovem Igor, nos mostra como cada indivíduo é único e surpreendente ao seguir o chamado da própria alma.

Segundo Jung, “como o corpo tem sua evolução, de cujas diferentes etapas ainda traz vestígios nítidos, assim também a psique”.

De modo simplificado, o desenvolvimento da psique, mais especificamente da consciência, ocorre da seguinte forma:

Quando a criança nasce (fase urobórica), está num estado difuso e indiferenciado com o meio ambiente e com a psique da mãe, de onde ocorrerá o surgimento de sua própria consciência, por volta dos 2 anos de idade e, a partir daí, o seu desenvolvimento. A fase seguinte é a matriarcal (relativa ao arquétipo materno - não necessária e diretamente dependente da mãe pessoal, mas da maternagem). Durante tal período, o desenvolvimento da consciência vai se dando através do carinho, amor, sustentação, acolhimento; enfim, do suprimento das necessidades básicas de suporte à vida física e psíquica. Na fase patriarcal que se segue, (relativa ao arquétipo paterno), a consciência caminha em direção à aquisição da socialização, conceitos morais, normas, leis, regras, hierarquização, disciplina, auto-controle e abstração. Em seguida, na fase da alteridade (referida aos arquétipos da anima e animus), o amadurecimento da consciência atinge a possibilidade de abranger o outro e passa a se definir através dessa dialética. Uma última etapa, dita cósmica, entende que a existência enquanto individualidade e o mundo externo, antes vistos em separado, estão envolvidos numa dimensão única.

Há poucas figuras femininas na película e nada sabemos a respeito da mãe de Igor, da presença de outra figura com papel de mãe que a tenha substituído ou da vivência matriarcal do garoto como um todo. O pai se relaciona com uma moça de nome Maria que não parece se apresentar como uma figura de mãe. No entanto é ela quem intervém numa situação importante de agressividade física do pai contra o ele. Igor é “salvo” por uma mulher.

Desde o início do filme, Igor surge imerso no mundo do pai e suas regras, valores, ordens e comandos. Com a obediência fria e distante de alguém que nunca se questionou sobre seus atos, segue o pai incondicionalmente. Num determinado momento, chega a ganhar dele um anel, como recompensa por tal fidelidade, símbolo do pacto de união entre eles.

No entanto, os valores e atitudes do pai, repetidos pelo filho, tirando proveito das dificuldades de outros seres humanos, são obviamente questionáveis. O filme contém uma importante crítica social e uma denúncia de desigualdade, exclusão e marginalização das pessoas, presentes no mundo contemporâneo. 

Voltando à questão psicológica, que é o foco desse texto, acompanhamos a morte de Amidou, um desses imigrantes excluídos e explorados pelo pai do adolescente, ocorrida num acidente decorrente dessa condição precária de vida a que é submetido por Roger. Após Amidou pedir a Igor que cuide de sua esposa e filho, na iminência de sua morte, precipita-se no rapaz um sentimento empático que se coagula num novo valor, nascido em si mesmo  e não imposto pelo pai. A cena impactante e que é um divisor de águas no filme, é aquela onde o pai se recusa a ajudar o filho a fazer um aperto circular com o cinto, ao redor da perna do homem que sangra. A iniciativa de socorrer o imigrante foi de Igor que parece tentar estreitar o círculo ou “anel” de união com seu pai, a fim de, com o mesmo gesto, inconscientemente selar o modo de vida e a concordância de sentimentos entre eles. Sem tal ajuda, no entanto, e escancarando o contraste entre suas decisões, o pai desata o laço, mata a inocência e dá espaço para o nascimento, em Igor, de uma nova moral e conduta.

Além disso, é possível que, através da promessa em cuidar e ajudar a mulher imigrante e seu bebê, tenha emergido no jovem o espelhamento do feminino que nutre e acolhe. Seria possível, desta forma, que estivesse havendo uma chance de Igor re(-)conhecer uma vivência materna que não sabemos como se deu em sua vida, mas que ele decide apoiar e tentar “salvar”. Como citado anteriormente, a psique evolui trazendo vestígios do que já foi vivido e Igor, obviamente, não foge à regra. Possivelmente há uma maternidade que necessita ser resgatada, elaborada e integrada à sua consciência e fazer parte de seu todo para acompanhá-lo no desenvolvimento da fase patriarcal em que vive.

Igor é um adolescente que se vê obrigado a fazer uma opção que, dentro do esperado para esse momento do desenvolvimento do indivíduo, pode exigir um distanciamento das figuras parentais em busca do próprio caminho e seus pressupostos. São comuns esses momentos de conflito, onde a escolha que um indivíduo faz para dar sentido à sua vida, pode permitir e facilitar sua individuação em direção a tornar-se pleno. Igor opta pelo rompimento com a verdade do pai em prol de sua própria ética. Deve assumir o preço das consequências inerentes ao caminho da maturidade que a clareza de sua nova consciência agora lhe permite enxergar.

A película traz também o questionamento e a  reflexão sobre como as aparentes diferenças de cor, raça, cultura, religião e condição sócio-econômica existentes entre nós  é ilusória e passível de ser desfeita e ultrapassada através da percepção que somos todos frutos de uma semelhante e inseparável humanidade, como Igor parece ter experimentado em seu íntimo.

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