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Ferrugem e Osso

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE 

Ferrugem e Osso

Sinopse: Responsável pela criação de seu filho, Alain se envolve com Stéphanie e a relação entre eles se estreita após a ocorrência de um sério acidente.

Como o nome do filme nos leva a refletir, quando o osso fratura e a sustentação fraqueja; quando a ferrugem corrói e a integridade se perde, as personagens expõem suas fragilidades e a necessidade de lidar com elas, e é sobre isso que trataremos a seguir.

Essa é uma história sobre o corpo, sua materialidade, todas as emoções que sua existência permite e que são sentidas à flor da pele.

Corpo

O corpo concretiza nossa existência e é expressão mais divina da nossa alma. É a nossa a morada, o templo de nossa individualidade e de tudo aquilo que somos como pessoa. É também nossa imagem, nossa apresentação e nossa conexão com o mundo externo. A maneira pela qual uma pessoa se relaciona com seu corpo, que pode ser, por exemplo, amável, rigorosa, narcisista, lucrativa, hostil ou agressiva, dentre outras, revelará traços de sua maneira de agir e estar no mundo. Há neste ponto o primeiro contraste entre Stéphanie e Alain, no início do filme. Ela usa seu corpo de forma sedutora e aprecia ser desejada e ele usa-o de modo agressivo e lucrativo. Ela é adestradora e “seduz” baleias e ele ganha dinheiro em lutas de rua.

Símbolos

Após ser atacada pela baleia no parque aquático, Stéphanie é mutilada, perdendo suas pernas.

O inconsciente comunica-se com o indivíduo através de símbolos que podem aparecer em sonhos, contos ou estar retratado na história de um filme de cinema. Há dois símbolos importantes nessa passagem do filme: o animal, mais especificamente a baleia, e o aleijado. De um modo geral, quando um animal surge em fantasias ou histórias, como dito acima, vem simbolizar, como destacou Jung, a natureza primitiva do homem, os poderes do inconsciente e o nosso lado ligado aos instintos.

Segundo Eliade, a baleia simboliza a escuridão abissal e misteriosa, o inconsciente, a Grande-Mãe devoradora em cujo ventre o herói se transforma e de onde precisa retornar para que seja possível o seu renascimento. A entrada em seu ventre é análoga à descida ao sub-mundo e à passagem pelo inferno. Nesse confronto está simbolizado que o ego do indivíduo precisa se transformar. Há uma luta, e sua salvação se constitui num símbolo da vitória do consciente sobre o inconsciente. A saída do ventre da baleia significa um renascer transformado, tanto que o símbolo da baleia é comum a vários ritos de iniciação. Stéphanie deve passar por essas trevas da dor, da perda; enfrentar essa força devoradora gigantesca que a baleia simboliza e, sobrevivendo, após conhecer sua própria escuridão, retornar transformada.

Novamente segundo Eliade, o aleijão nos mitos era visto como sinal de iniciação. A sua imagem encontra-se vinculada às pessoas que possuem um destino incomum e heroico. Essa característica parece ser o resultado de uma necessidade de sobrepujar tal deformidade física. Novamente a personagem poderá se modificar a partir do contato e elaboração de aspectos de sua personalidade que lhe eram inconscientes, se superando e se enriquecendo como pessoa.

Lembrando que esse é sempre um processo de vida bastante difícil e extremamente doloroso.

 

Persona e sombra

Persona

A persona, resumida e simplificadamente falando, é a imagem que o indivíduo mostra externamente, a forma como deseja ser visto, sua relação com o mundo e o status social que deseja que lhe seja atribuído.

Conhecemos a persona de Stéphanie como bela, sensível, delicada, observadora e intensa. Uma pessoa que procura carinho mas não parece se valorizar como mulher, aparentando ser vulnerável e manter relações afetivas superficiais. A persona de Alain é viril, rude e dura. Mostra uma violência primitiva, despida, que ele parece usar para não se envolver emocionalmente, evitando compromissos e contatos profundos.

Sombra

Segundo Jung, a sombra exprime uma parcela inconsciente e não aceita da personalidade. É o conjunto de tendências, características, atitudes e desejos inaceitáveis pelo indivíduo e que ele desconhece como seus. Nem sempre exprime aspectos destrutivos, mas geralmente apresenta características complementares à persona. Há, assim, na sombra de Stéphanie aspectos de força, resistência, agressividade, e combatividade que lhe permitem guerrear. A sombra de Alain, por sua vez, contém sua sensibilidade, calor humano, flexibilidade, amabilidade, suavidade e leveza. Trata-se de uma sombra rica e criativa.

Através das marcas nos corpos dos dois personagens e da aproximação entre eles, o filme mostra como se desencadeia o processo pelo qual cada um passa a tomar contato com suas forças desconhecidas, bem como com suas inconscientes necessidades de afeto. Os traumas e vazios vividos por ambos, a aceitação e a continência que um oferece ao outro permite que possam se apropriar dos aspectos que lhes falta. As imposições da vida, catalisadas pelo envolvimento entre eles, nos faz testemunhar como vão reconhecendo em si características de sua sombra que os fortalece como pessoas e permite que se tornem indivíduos mais completos.

O filme reúne beleza e violência, delicadeza e selvageria, fragilidade e força, sombra e luz num processo doloroso, mas fecundo.

Enfim, a árdua reunião dos opostos que permite aos seres humanos renascerem transformados é, segundo a psicologia analítica, o sentido da vida de todos nós.

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