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Mar adentro

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE 

 

Nar adentroSinopse: Ramón O filme conta a história de Ramón Sampedro em sua longa batalha pelo direito legal de poder morrer.

É desnecessário dizer quão poético e reflexivo é o filme, baseado na história real de Ramón Sampedro ocorrida na Espanha.

Mar adentro é nome de um de seus poemas que transcrevo a seguir:

"Mar adentro, mar adentro

e nesse fundo onde não há mais peso,

onde se realizam os sonhos,

se juntam as vontades

para cumprir um desejo.

Um beijo acende a vida

com um relâmpago e um trovão, e em uma metamorfose

meu corpo já não é mais meu corpo

é como penetrar o centro do universo

O abraço mais pueril

e o mais puro dos beijos,

até vermo-nos reduzidos

a um único desejo:

Seu olhar e meu olhar

como um eco se repetindo, sem palavras:

mais adentro, mais adentro,

até mais além de todo o resto

pelo sangue e pelos ossos

Mas me desperto sempre

e sempre quero estar morto

para seguir com minha boca

enredada em teus cabelos."

Como marinheiro, Ramón Sampedro passou a vida no mar até ficar tetraplégico aos 26 anos de idade, depois de mergulhar, acidentalmente, em águas rasas. Viveu 28 anos nessa condição. Seu sobrenome nos lembra o nome do discípulo São Pedro que, antes do chamado de Cristo, era pescador no lago da Galiléia, novamente nos conduzindo à imagem das águas.

As Águas e o Mar

Segundo Eliade, as águas simbolizam a soma universal das virtualidades; elas são o reservatório de todas as possibilidades de existência. É um estado transitório entre as potencialidades ainda informais e as realidades formais. A água mata por excelência: ela dissolve, anula todas as formas. Justamente por isso ela é rica em germes e é também criadora. Já o mar, contendo águas em movimento, simboliza a  própria dinâmica da vida, os nascimentos, as transformações, a morte, e os renascimentos. O movimento das ondas do mar atentam para o estado transitório da vida, representando a incerteza, a dúvida, a indecisão, podendo levar tanto ao bem como ao mal. Por isso, o mar simboliza tanto a vida como a morte.

O nome do filme “Mar adentro” nos remete à direção que Ramón deseja seguir, que é a de fazer cessar a própria vida, adentrar o mar e “morrer dignamente”. Trata-se da questão da eutanásia.

Alguns conceitos merecem ser esclarecidos:

Eutanásia: (do grego  eu, "boa"; thanatos, "morte", “boa morte”) é a prática pela qual se abrevia a vida de um enfermo incurável, em estado terminal ou que esteja sujeito a dores e intoleráveis sofrimentos físicos ou psíquicos, de maneira controlada e assistida por um especialista.

Distanásia: prática pela qual se continua através de meios artificiais a vida de um enfermo incurável. É considerada morte com sofrimento.

Mistanásia: ou eutanásia social, é a morte miserável, fora e antes do seu tempo. São os que morrem vítimas de erro médico ou por imperícia, imprudência ou negligência. Ocorre também quando o governo não oferece saneamento básico, permitindo doenças entre crianças.

Ortotanásia: define a morte natural, sem interferência de meios como medicamentos e aparelhos, permitindo ao paciente morte digna, sem sofrimento, em pacientes irrecuperáveis e que já foram submetidos a tratamento. .

Há várias discussões que são levantadas a partir do filme envolvendo questões religiosas, das leis e do estado que não consideram ser do homem o direito de morrer. Fica claro que Ramón fala exclusivamente em nome de sua pessoa e sofrimento, explicitando que não luta por uma causa ou ideia, nem defende uma classe de indivíduos enfermos.

Proponho aqui algumas reflexões relacionadas ao tema.

Viver e Morrer

A meu ver, devemos repensar o lugar da morte no reino da vida.  Não se discute o direito à liberdade de viver mas não nos soa tão natural a questão de desejar morrer, mesmo quando a justificativa é a dignidade.

Segundo Fukuyama, “o desejo humano de “imortalidade” e a compreensão da morte como uma falha orgânica, que pode ser tratável ou pelo menos adiável, promovida pelos recentes progressos da medicina celular, em sintonia com a forte cultura narcisista em que o indivíduo tem que ser percebido para poder existir, promoveram uma alteração na concepção de finitude humana, na medida em que a aceitação da morte passou a representar uma “opção insensata, não havendo porque encará-la com dignidade ou nobreza”.

A separação dualista entre vida e morte promovida pela cultura ocidental leva a uma separação das partes, desintegrando o elo da unidade psicofísica. A vida é corpo, mente e espírito a um só momento. Com isso, a morte passaria a representar, segundo Jonas, “uma condição geral da vida e não uma ofensa externa e causal a ela”.  Precisamos repensar o sentido da mortalidade, para que a morte não seja compreendida como um fracasso.

O direito de viver com liberdade deveria nos levar a pensar se não podemos ter o mesmo direito de morrer com dignidade, visto que a divisão entre vida e morte é artificial embora seja um pressuposto inquestionável da cultura ocidental.

Além disso, devemos lembrar que assegurar o direito de morrer não significa defender o direito ao suicídio, mas, sim, garantir o direito da pessoa de não querer retardar a vida com o uso da tecnologia, para além do ponto onde ela tenha valor para o indivíduo. Por exemplo, quando não há mais esperanças, nem para uma possível melhora e muitas menos para a cura.

Enfim, temos que assegurar o direito de viver e de morrer, mas não a obrigação, nem de viver e nem de morrer.

O protagonista claramente não queria se opor ao desejo de seus familiares de que ele continuasse vivo, nem travar uma discussão com os preceitos da igreja ou as leis do estado. Ramón Sampedro acreditava e lutava pelo direito de morrer dignamente. Em suas próprias palavras:

““A vida assim não é digna...o corpo é o meu bem mais precioso.”

“Viver é um direito, não uma obrigação.”

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