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Meu Rei

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE 

Meu ReiSinopse: Após um acidente de esqui Tony é internada num centro de reabilitação onde relembra o tumultuado relacionamento que teve com Georgio.

 

O filme todo é o caminho árduo de um relacionamento patológico onde vislumbramos picos e vales, voos de alegria que não se sustentam e descidas íngremes dolorosas.

A abertura do filme nos coloca num pico nevado junto com Tony prestes a se lançar de esquis num longo declive. Sua expressão parece carregar o ápice da angústia de quem busca coragem para se libertar e voar. Entretanto, a personagem não alça voo e se acidenta.

Na sequência, acompanhamos Tony contar o acidente à psicóloga da clínica de reabilitação onde permanecerá em tratamento. Há um tom de fatalidade na maneira como enxerga o ocorrido, próprio de quem desconhece os símbolos enviados pelo inconsciente: “Os esquis se cruzaram e eu saí voando, foi isso.” Tony não se dá conta do contexto ou da configuração de sua vida onde o acidente se insere.

Simbolicamente, num acidente, a pessoa não é apenas vítima mas também um autor inconsciente do ocorrido, cujas motivações precisam ser percebidas e clareadas. Um acidente questiona de forma súbita o modo como o indivíduo vem vivendo. Trata-se uma ruptura em sua vida e, como tal, precisa ser analisada. Geralmente escancara uma problemática de maneira exagerada, incisiva e extremamente dolorosa.

No diálogo com a psicóloga, e de maneira ricamente pertinente, a personagem é apresentada à simbólica da parte do corpo que foi lesionada, no caso, seu ligamento “cruzado” do joelho. Retomando tal simbologia, dizemos que a articulação do joelho não só nos permite caminhar como também recuar ou avançar. A articulação do joelho é considerada uma das mais complexas do organismo, assim como a decisão do caminho a ser tomado diante do “cruzamento” de um impasse. Além disso, o joelho deve equilibrar simultaneamente duas funções importantes. Ao mesmo tempo em que precisa ter estabilidade suficiente para suportar as demandas do peso do corpo, precisa possuir também um alto grau de flexibilidade e de liberdade de movimento para absorver e transmitir as forças que passam por ele. Sendo assim, numa leitura simbólica, seu funcionamento adequado  indica a possibilidade do indivíduo ser firme e livre simultaneamente. A lesão do joelho de Tony revela as fragilidades pelas quais vem passando, questionando sua sustentação frente à necessidade de avançar rumo à sua liberdade.

A partir daqui, aproveitarei um pequeno trecho do Mito de Narciso para ir adiante na análise do filme.

Segundo Mircea Eliade, as imagens, os símbolos e os mitos não são criações irresponsáveis da psique; elas respondem a uma necessidade e preenchem uma função que é a de revelar as mais secretas modalidades do ser.

Se nos detivermos nas figuras mitológicas de Eco e Narciso presentes no mito de Narciso e, particularmente na forma como se dá a interação entre elas, podemos perceber essa mesma dinâmica ilustrada no filme e em relacionamentos abusivos, de dependência e alto grau de sofrimento, percebidos com frequência à nossa volta.

Não vou descrever o mito na íntegra, que pode facilmente ser encontrado e lido em outras fontes. No entanto, gostaria de dizer em linhas muito gerais, quem é Narciso, quem é Eco e como é o relacionamento entre eles.

Narciso

Narciso é descrito no mito como aquele rapaz de extrema beleza que, caso se deparasse com sua própria imagem (como ocorreu quando se viu refletido numa fonte) se apaixonaria por ela e morreria.

Narciso representa as características de personalidade dos indivíduos auto-centrados, donos da ação, que são o foco das atenções e que inovam. Não há dificuldade em percebermos tais traços em Georgio, em cenas de egoísmo, independência, manipulação e sedução. Ele é um “Rei”. Além disso estes indivíduos sentem-se atraídos por pessoas que olham pouco para si mesmas e que renunciaram a uma parte do seu brilho.

Eco

Eco é uma ninfa das montanhas que é designada por Zeus (senhor do Olimpo) para distrair Hera (sua esposa) com sua tagarelice, enquanto se envolve com outras mulheres. Hera descobre que esta ninfa a ocupa com suas falas e histórias excessivas e a pune, condenando-a a reproduzir apenas as últimas palavras ditas pelo outro.  Desta forma, Eco se torna dependente do que o outro diz e deixa de ter voz própria.

Como traços de personalidade vamos identificar no indivíduo ecoista uma falta de acesso ao diálogo e ao silêncio, só podendo ecoar o outro. Grudado nele, possui excessiva dependência de amor que é sempre bastante idealizado e é de onde tenta obter reconhecimento. A fala sem medida visa capturar o outro, numa tentativa de ser ouvida naquilo que não consegue dizer a si própria. Segundo Montellano coloca-se sempre à disposição do outro, não consegue expressar seus sentimentos, especialmente a raiva, e vive um grande sentimento  de culpa. É muito crítica e exigente, mas se mostra tolerante e humilde. Tony é essa mulher que se valoriza pouco, é entregue, vulnerável, passiva e não possui a proteção necessária que lhe assegure espaço para a construção da sua individualidade e do seu feminino (lembrando que no início do filme Tony acredita ter a “vagina larga”).

O relacionamento entre Narciso e Eco

Eco segue Narciso pelos bosques e se apaixona. Ao ser rejeitada por Narciso Eco envergonha-se, esconde-se, deixa de se alimentar e se retira para as montanhas, definhando até a morte. Narciso, por sua vez, apaixona-se por sua imagem, pensando que é outro e também num desespero crescente de tentar alcançar esta imagem, chega à morte. No lugar de sua morte nasce narciso, a flor branca com o centro amarelo, que, como o próprio nome diz, vem de “narkos”, o que entorpece, e que pode ser visto como símbolo da paralisação do processo de desenvolvimento dos dois jovens.

Todos conhecemos relações onde um é o centro e o outro gira em torno deste centro, como um satélite em torno do planeta. O filme evidencia essa dinâmica, onde um só olha para o outro que só olha para si mesmo e tais olhares nunca se cruzam. Percebe-se a paralisação do desenvolvimento psicológico dos dois personagens, evidenciados pelos abusivos, dolorosos e infindáveis ciclos de aproximação e afastamento.

Para finalizar, podemos destacar alguns dos desenvolvimentos psíquicos possíveis e desejáveis a estas dinâmicas de personalidade:

Aos narcisistas, que amam sua imagem e são insensíveis ao outro, cabe a tarefa de buscar o seu eu mais profundo ocultado por dores e carências primitivas. Poderá, assim, reconhecer-se mais genuinamente, realizar sua essência de se amar e também poder amar o outro, deixando de ficar fechado em si mesmo.

Aos ecoistas, cabe abrir o canal da voz a fim de se expressar e passar a cuidar de si próprio, reconstruindo a própria estima e os seus limites. Cabe também ecoar suas qualidades, ressoar os espaços onde há vida a ser descoberta, buscando sempre a liberdade e o novo.

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