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Ninguém pode saber

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

Ninguém pode saberSinopse: Num pequeno apartamento em Tóquio um garoto de 12 anos deve cuidar de seus irmãos mais novos na ausência da mãe.

Se transformarmos o nome do filme numa questão: “Por que ninguém pode saber?” a resposta vai surgindo ao longo da história e diz respeito à uma relação de irmandade que luta para não ser desfeita. Este laço afetivo, amarrado por uma calada resiliência, conecta todo o filme e une os fios emaranhados de abandono e solidão da vida de seus personagens.

É gritante e escancarado o despreparo de Keiko em ser mãe. Apesar de oferecer carinho e ternura aos filhos quando está com eles, percebemos o quanto é essencial e primitiva sua própria necessidade por afeto. Tenta suprí-la através de um relacionamento duradouro mas seus envolvimentos não se sustentam e Keiko gera quatro filhos com diferentes homens. Sua carência é vital e egoísta. Busca amor para se constituir como pessoa, mas o faz se ausentando e privando os filhos da maternidade que não é capaz de exercer. É tão filha quanto eles e sua infantilidade assume traços de crueldade quando decide abandoná-los.

Pais e mães nem sempre são capazes de exercer papéis estruturantes. Muitos ainda sofrem com seus complexos maternos e paternos não elaborados que serão inconscientemente transferidos aos filhos. Keiko ainda busca uma proteção parental em seus relacionamentos que deveriam se de alteridade, o que priva seus filhos de terem pai, visto que seus romances fracassam, e mãe, uma vez que ainda não pôde deixar seu papel filial.

Enquanto a ausência de Keiko ainda é recente, as quatro crianças vão se mantendo física e emocionalmente nutridas pela expectativa de sua volta e pelo cumprimento de incumbências impostas ao filho mais velho de 12 anos. Akira exerce tarefas e papéis de mãe e pai, amadurecendo precocemente, perdendo a possibilidade da adolescência e não recebendo o amparo que lhe é direito. Um filho de quem são exigidas tais responsabilidades e que sofre demandas displicentemente abusivas pode sentir revolta e indignação, não necessariamente expressas verbalmente. Akira só manifesta seu desacordo com a atitude da mãe, numa ocasião, em que a chama de egoísta. De qualquer forma, seus tristes e longos silêncios denunciam seu mais profundo desamparo. Sabe-se que crianças abandonadas tem ou terão dificuldades nos relacionamentos sociais, maior risco de depressão e baixa autoestima.

Percebemos também em Akira, a constelação do arquétipo do herói à medida em que as dificuldades vão aumentando. O herói enquanto arquétipo se constela em nossas vidas especialmente em momentos tempestuosos e árduos. O termo constelação diz respeito à ativação de padrões de reação que, no caso do herói, se referem à capacidade de suportar adversidades, frustrações e tolerar as experiências de enfrentamento. O herói é a metáfora do ser resiliente, aquele capaz de adaptação ou evolução em momentos de dificuldade. Akira sustenta a dúvida do retorno da mãe, a frustração da sua demora e a angústia da certeza de seu abandono. Acolhe os irmãos, trata da rotina da casa, consegue alimentos e paga as contas. As adversidades precisam ser vencidas e um herói silencioso certamente compõe Akira na superação dos obstáculos que se sucedem.

Há, no entanto, algo de extrema importância que justifica o ocultamento da difícil situação pela qual passa o garoto e seus irmãos mais novos. Akira não quer correr o risco de viverem separados uns dos outros em troca de acolhimento. É essa fraternidade que justifica o enfrentamento das adversidades, conferindo-lhe sentido.

Enfim, estamos diante do arquétipo do irmão que, como todos, possui dois polos ou facetas: o polo positivo que, neste caso, é o da cooperatividade e o negativo ou da rivalidade. É através desse tipo de relação fraterna que se desenvolve a capacidade de estabelecer conexões simétricas ao longo da vida. O irmão é o outro destinado, não escolhido e  permanente. Através dele experimentamos a intimidade e a possibilidade da construção de histórias comuns, horizontais, que guardam memórias e são testemunhas de passagens da vida. É com o irmão que dividimos nossos anos de formação.

O filme é a própria relação entre irmãos e o desejo de que esta não se dissolva em função da ausência da mãe. É evidente que os personagens do filme vivem a irmandade em termos de união, apoio e, inconscientemente, de sobrevivência. É a fraternidade como suas únicas experiências de relação, construção de intimidade e história de vida. A derradeira possibilidade de existência de memória e troca de afeto na vida dos personagens.

 

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