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Homem irracional

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

O homem irracionalSinopse: O filme conta a história de Abe, um professor em meio a uma crise existencial que redescobre a vontade de viver.

O filme trata da falta de sentido na vida de um professor de filosofia. Sem entusiasmo, deprimido, entregando-se aos excessos do álcool, não encontra vontade ou interesse no mundo de um modo geral.

Há um conceito na psicologia analítica que Jung chamou de energia psíquica. Trata-se um elemento próprio da psique, um tipo de “seiva vital”, que confere motivação e significado para a realização de um trabalho ou ideia. Na depressão, por exemplo, onde não se consegue fazer nada, não há energia psíquica disponível na consciência para ser convertida em desejo ou vontade para realizar uma atividade. Este é o caso do protagonista no início do filme.

O que teria ocorrido com essa energia?

Segundo Jung,  a energia psíquica nunca se perde mas muda sua configuração. Grande parte dela, que deveria estar na consciência, fica presa no inconsciente. Há muitas situações que podem desencadear este aprisionamento de energia como, por exemplo, perdas, frustrações constantes, um ideal não realizado, dentre outras. 

Abe Lucas, professor de filosofia, vive um momento de extrema falta de significado em sua vida. Questiona, inclusive, a filosofia como um todo: uma “masturbação mental”, em suas palavras. Aponta vários filósofos existencialistas em algumas passagens de suas obras onde declaram que a existência humana é feita de escolhas que irão compor seu sentido. Entretanto, Abe não sabe explicar o motivo de não conseguir fazer as escolhas que possam voltar a motivá-lo. Vive um grande sentimento de impotência cujas raízes inconscientes ele mesmo não questiona, de modo que a energia psíquica permanece retida. Na concepção da psicologia analítica, existindo a possibilidade de contato com o inconsciente através dos símbolos que surgem em sonhos e fantasias, estes poderiam ser explorados permitindo o entendimento, integração e ampliação da consciência. A energia psíquica voltaria, assim, a fluir entre o sistema psíquico formado pelo inconsciente e o consciente, retomando a saúde psíquica.

Quando não há uma dialética entre o consciente e o inconsciente, pode ocorrer da energia recolhida no inconsciente “ativar” conteúdos adormecidos (complexos autônomos). Estes são capazes agora, visto que passaram a ter um maior potencial energético, de irromper na consciência, sob a forma de novos projetos ou ideias que, no entanto, irão dominar o indivíduo. É o que ocorre com Abe que, após ouvir uma conversa sobre um juiz de índole duvidosa, se sente decidido a agir e matá-lo, o que o traz “de volta à vida”. Sem fazer qualquer tipo de reflexão sobre qual motivo simbólico estaria envolvido na recuperação de sua vontade de viver, torna-se destinado a colocar suas ideias em prática.

Novas ideias e vontades são um chamado que a vida faz à um indivíduo. Mas é importante perceber que tal chamado é um convite à reflexão dado que carrega símbolos tentando se fazer conhecidos ao indivíduo. Possivelmente há nesses símbolos algo que tenta harmonizar a consciência que, em todos nós, tende a se desenvolver numa única direção. Poderíamos levantar a hipótese que Abe sentia falta de um valor prático em sua vida ou de oferecer algo significativo de si ao mundo. Queria fazer diferença.  Faltava-lhe perceber seu próprio valor e o quanto era  genuína e relevante sua existência. Se isto fosse conscientizado e trabalhado, não estaria a mercê de algo novo tão intenso que dirigisse sua vida por completo.

Assim, podemos supor que o professor tenha sido tomado por um conteúdo inconsciente que ganhou energia suficiente para alcançar a consciência e, de forma autônoma, veio compensar o senso de incompetência, falta de valor e inutilidade que sentia até então. O personagem é dominado por elementos sombrios carregados de energia psíquica que, consequentemente lhe devolvem o desejo e  o significado para suas ações e planos. Torna-se capaz, potente, vigoroso e pleno. Abe está sob a influência de um complexo sombriamente amoral, sendo incapaz de questioná-lo. Sem poder entender o símbolo de suas novas motivações, deixa-se atuar e ser dirigido por elas. Abe perde a crítica de suas decisões e, de modo ainda mais grave, o contato com as convenções e valores morais do mundo onde se insere.

Pelo caminho da inconsciência, Abe Lucas precisa da morte para dar sentido à sua vida, acreditando dignificar o mundo através de um assassinato. É interessante observar, de forma ampla e bastante ilustrativa no filme,  como os mecanismos compensatórios entre o consciente e o inconsciente vão se dar através das polaridades, no caso, “vida-morte” e “moralmente evoluído- criminosamente amoral”.

Concluindo, como já nos disse Jung: “até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamá-lo de destino."

 

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