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Sono de Inverno

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

Sono de invernoSinopse: Aydin possui um pequeno hotel na região central da Anatólia onde vive com sua jovem esposa Nihal e com quem tem um relacionamento conturbado.

 

 

O filme vai ganhando forma à medida que o inverno vai se instalando e vamos conhecendo os personagens e suas aflições. O foco de minhas observações será sobre o casal Aydin, um homem de meia idade, ator aposentado e dono do hotel onde vive com sua jovem e bela esposa Nahin.

Há um sentimento de distância e isolamento nas paisagens externas que encontra correspondência no mundo interno desses personagens solitários. 

Vale lembrar de uma das contribuições deixadas pelo legislador e filósofo egípcio, considerado o pai da alquimia, chamado Hermes Trimegisto que viveu aproximadamente 1300 anos antes de Cristo. Em um de seus livros, Caibalion, uma das sete leis herméticas lá definidas é a Lei da Correspondência, que diz: "O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima. E segundo os conceitos da psicologia analítica de Jung destacamos também: o que está dentro é como o que está fora e vice-versa. Segundo esse princípio, o microcosmo é como o macrocosmo e vice-versa, um óvulo fecundado é como uma estrela nascendo, as estações do ano são como as fases das nossas vidas. O filme nos mostra claramente o mesmo inverno da região da Anatólia ocorrendo no mundo subjetivo de Aydin e Nihal. Angústias frias, dores gélidas e uma melancolia esparramada pelos altos e baixos de suas convicções, como a neve se deitando sobre os vales e montanhas da Capadócia. A quietude brilhante da paisagem externa nos calados desejos íntimos dos personagens.

Aydin tinha se casado com a leveza da juventude da esposa e ela, com a segurança sólida do marido. Mas os diálogos intensos entre o casal nos dão ideia do descompasso de seus caminhos e da solidão de cada um, vivida sob o mesmo teto. Possivelmente o apoio que haviam sido um para o outro, cada qual confortando e se acomodando em sua incompletude, se desfizera.

Na situação do casamento, ou durante a paixão que o precede, é comum os cônjuges  projetarem em seu parceiro, imagens que são suas, mas das quais não tem consciência. No entanto, não há crescimento psicológico dos indivíduos dentro de um casamento construído por projeções, visto que cada um não se desenvolve como um ser pleno. É comum, com o passar do tempo, tais projeções deixarem de sustentar o relacionamento e, muitas vezes, características do parceiro que eram carregadas de admiração e fascínio passam a ser vividas como decepções e impressões de falta.

Cabe aqui tratarmos de um conceito importante da psicologia analítica chamado projeção.

Segundo Von Franz, a projeção é como uma transferência inconsciente, isto é, imperceptível e involuntária de um conteúdo psíquico subjetivo para o mundo externo ou outro indivíduo. Por exemplo, vê-se numa outra pessoa, aquilo que quase não existe nela. Características negativas ou positivas podem ser projetadas no outro. No caso das projeções negativas, podem ser atribuídos juízos errôneos como autoritarismo ou falta de iniciativa, por exemplo. As projeções positivas podem, por outro lado, levar à supervalorização do interlocutor e à uma admiração desmedida.

Possivelmente Aydin projetava na esposa uma juventude psíquica que o lançasse adiante, evitando sua tendência de ficar aprisionado ao passado. Projetava também a possibilidade de conexão com o mundo através de sua jovialidade e companheirismo, o que aplacaria sua possível dificuldade em estabelecer relações sociais prazerosas. Nihal, por sua vez, projetava no marido características de cuidador e provedor, de forma que sua autonomia e independência não tivessem que ser conquistadas dentro de si. “Viu” nele a proteção para a vida, tendo negligenciado o desenvolvimento de seu auto-cuidado.

Quando as projeções se enfraquecem e percebe-se o outro como ele é, ocorre um fenômeno onde se deprecia e se menospreza o outro ao máximo, para poder desligar-se dele. Passa-se a evitar e desprezar o outro, o que percebemos nitidamente na película. A retirada de projeções é um processo doloroso e muitas vezes vivido como um fracasso pelo indivíduo. Nihal foi protegida e cuidada materialmente mas não pôde crescer emocionalmente como mulher. Acabou sufocada pelo marido que ao mesmo tempo lhe sustentava mas lhe desvalorizava, tratando-a como uma criança incapaz. Aydin que, por sua vez, necessitava da leveza e graça de Nihal para poder ser menos duro, rancoroso e solitário, não recebeu os sorrisos doces e companheiros da esposa, nem a alegria inspiradora de sua juventude. Daí o descompasso e a solidão a dois.

Durante todo o filme percebemos que Aydin é orgulhoso e resistente em assumir sua necessidade de estar e de precisar de Nihal. Apenas nas últimas cenas ele admite, em pensamento apenas, que depende emocionalmente da esposa. Mesmo assim, notamos que não toma consciência de quais seriam suas fragilidades, preenchidas por ela. Nihal, por sua vez, expressa mais francamente sua desilusão e lamenta ter descoberto tardiamente que havia trocado sua autonomia e independência (“seus melhores anos”) pela estabilidade financeira e conforto providos pelo marido.

Enfim, o filme é o próprio retrato do caminho, da busca de sentido e significado em nossa existência, vividos pelos personagens e por todos nós, almas humanas clamando por completude.

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