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De tanto bater meu coração parou

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE 

 

De tanto bater meu coração parouSinopse: Thomas Seyr é um homem de 28 anos que segue os passos de seu pai no mercado de negócios imobiliários. Entretanto,  após um encontro inesperado ,passa a ter novos planos para sua vida.

 

 

Este é um filme sobre contrastes. Um filme sobre a dualidade que existe entre uma escolha e um chamado na vida.

Nossa alma possui uma essência que nunca nos abandona, mesmo quando não somos capazes de percebê-la. Somos dotados de um centro psíquico ordenador que contém toda nossa potencialidade de vir a ser como indivíduo. Jung deu-lhe o nome de Self ou Si-Mesmo. Ao nos desenvolvermos naquilo que somos únicos, nos deparamos com a totalidade do Self (Si-Mesmo) pois, para se tornar íntegro, é necessário abranger a totalidade do ser. O Self abrange o consciente e o inconsciente que, embora polares, não representam opostos, mas sim uma relação de complementaridade, tendo o Self como mediador e gestor dos recursos e conteúdos do indivíduo. Em outras palavras, toda personalidade é formada a partir de um centro que é responsável por seu desenvolvimento e que não é apenas o ponto central, mas abarca a totalidade. Muitas vezes, ao longo da vida, quando já fizemos escolhas e as perseguimos, algo surge como um fascínio, uma força irresistível que se interpõe em nosso caminho nos pedindo mais, passando a nos dividir em um conflito entre o que somos e o que podemos ser.

É o que vemos acontecer com o protagonista do filme. Numa ocasião, Thomas subitamente vê, de longe, uma figura conhecida, amigo de sua falecida mãe e, como se fosse atraído, decide abordá-lo.  Esse indivíduo sempre se interessou pelo talento nato de Thomas pela música e pelo piano, talento esse que Thomas preferiu “esquecer” após a morte da mãe, se unindo ao ramo imobiliário, profissão de seu pai. Na verdade, testemunhamos brotar uma força de seu inconsciente, invadindo a consciência como uma necessidade, um chamado da alma. Thomas fora fisgado e, depois da conversa, se vê preso e enfeitiçado pela ideia de voltar a estudar música e piano. Chamamos tal experiência de numinosa por arrebatar e controlar o sujeito humano, que é sempre sua vítima e não seu criador. O numinoso é uma vivência do sujeito independentemente de sua vontade, é como a influência de uma presença invisível que causa uma peculiar alteração da consciência.

Outro ponto interessante do filme é a forma como Thomas, cega e sem questionamentos, segue os passos de seu pai. Há, de fato, quase uma inversão de papéis quando cabe a Thomas aprovar as decisões afetivas do pai e livrá-lo de eventuais agressões físicas.

O mundo patriarcal carrega as características de racionalidade, controle, caráter ativo, competitivo e poder. É nesse mundo que o protagonista está imerso, exemplificado por seu dia a dia de cobrar aluguéis em atraso, visitar e locar imóveis, despejar inquilinos, depredar área privada. Enfim, os mais diversos tipos de contravenções, brutalidade e violência, claramente expostos no filme.  Esta é a vida que Thomas, egoica e conscientemente, persegue. No entanto, há uma sensibilidade inconsciente que quer ser ouvida, como se “desejasse” trazer equilíbrio à vida de Thomas. O inconsciente tenta, através de símbolos, fantasias, fatos repetitivos, comunicar ao indivíduo a necessidade de ser percebido e fazer parte de sua vida, compensando uma atitude extrema da consciência.  Há em Thomas uma feminilidade carregada pela música, que nunca o abandonou, apesar de Thomas não se atentar a esse fato e não conseguir verdadeiramente “ouví-la”. Nas palavras de Jung:É certo que a música, bem como o drama, tem a ver com o inconsciente coletivo […]. De certa forma, a música expressa o movimento dos sentimentos (ou valores emocionais) que acompanham os processos inconscientes”.

Na psique de todos os homens há uma essência interior feminina e inconsciente que, quando passa a se vivida de forma consciente confere a eles flexibilidade, passividade e a possibilidade de ser sensível e acolhedor. É sempre importante que exista uma dialética entre a consciência do homem e tais conteúdos inconscientes pois, como foi dito anteriormente, sabe-se que o consciente e o inconsciente “funcionam” de maneira compensatória. A existência de tal diálogo evita que a personalidade exterior do homem se torne unilateralmente dura e racional. Assim se apresentava Thomas, antes desse evento numinoso. Faltava em sua vida suavidade, entrega, capacidade de ser paciente, inclusive consigo mesmo, tolerância e receptividade.

Thomas passa a sentir essa possibilidade através da música e a partir daí dá-se um processo doloroso que é expresso no filme através do conflito e luta que o personagem vive ao tentar conciliar os dois mundos que agora fazem parte de sua vida. Vontades conscientes e desejos inconscientes colidem inúmeras vezes e o filme vai sendo permeado de contrastes entre elementos masculinos e femininos; momentos de racionalidade e entrega; dureza e emoção, força e suavidade, que testemunhamos enquanto o protagonista se dedica à música. Os encontros entre Thomas e sua orientadora são a expressão clara e a própria personificação dessa dualidade.

Ao longo da película, vamos acompanhando como Thomas tenta, aos poucos e através da música, integrar à sua personalidade elementos do seu inconsciente feminino como receptividade, sensibilidade e capacidade de estabelecer relações.

Finalizando, o nome do filme nos remete ao coração, às emoções e ao próprio amor que bate o ritmo da vida desejosa de ser ouvida e se realizar.  Ouvir o próprio inconsciente é não deixar que as batidas se cansem e deixem de dar o tom e o significado da existência de cada um.

À todos nós cabe alcançarmos na vida, assim como ocorre na música, a melodia dos sons sucessivos através do alcance de nossas realizações, mas também a harmonia dos sons simultâneos advinda da amplitude de nossas conquistas.

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