O site pretende explorar temas da psiquiatria e conceitos da psicologia jungiana em filmes de cinema.

Dois dias, uma noite

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

Duas noites, um dia)

Sinopse:

Na Bélgica, Sandra fica afastada do trabalho por depressão e, quando retorna, descobre que seus colegas aceitaram receber um bônus salarial no lugar de sua vaga. Agora com a ajuda do marido, ela tem apenas um final de semana para fazer os colegas mudarem de ideia, para que ela possa manter seu emprego.

Conflito

Não há quem nunca tenha se encontrado numa situação onde duas possibilidades simultânea e igualmente válidas se impõem em nossas vidas e somos obrigados a optar por uma delas. Estamos num conflito.

Inserido num contexto sócio-econômico desfavorável em vários países da Europa, o filme trata da difícil ameaça de desemprego que sofrem alguns funcionários no local onde trabalham. A trama toda se desenrola na vivência de um conflito imposto pela empresa a um grupo de trabalhadores: escolher entre receber um bônus de mil euros ou optar pela manutenção da vaga de emprego de Sandra, uma colega de trabalho.

Na ocasião de um conflito entram em jogo duas importantes instâncias psíquicas conceituadas por Jung, a persona e a sombra. Vamos a elas.

Persona

O termo Persona é derivado da palavra latina equivalente a máscara e faz referência às máscaras usadas pelos atores no drama grego para dar significado aos papéis que estavam representando.

Jung escolheu este termo para mostrar a maneira como nos apresentamos ao mundo, o rosto que usamos para o encontro com o ambiente social que nos cerca. É o caráter que cada um assume. Aqui se incluem nossos papéis sociais, nosso estilo de expressão pessoal e o modo como nos relacionamos com os outros. A persona é pele psíquica entre o ego e o mundo e é necessária para nos adaptarmos à vida e sobrevivermos em sociedade.

Note que quando o ego se identifica em demasia com a persona, passa a existir um papel social apenas e a vida psíquica se empobrece. Por outro lado, uma persona frágil e pouco definida leva o indivíduo a uma vida isolada, às margens da cultura social.

Cada personagem do filme apresenta uma maneira de ser no trabalho, ou seja, uma persona profissional adaptada a manter sua adequada colocação nesse ambiente social específico.

download (2)Sombra

Para Jung, a sombra é o conteúdo do inconsciente pessoal que foi reprimido pelo ego. Inclui tendências, desejos, memórias e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a persona e contrárias aos padrões e ideais sociais. Quanto mais nos identificarmos com a persona, mais repudiaremos outras partes de nós mesmos. A sombra representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade, o que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos. No entanto, a sombra não é apenas uma força negativa na psique. Ela é também um depósito de considerável energia instintiva, espontaneidade e vitalidade e é a fonte principal de nossa criatividade.

Enxergamos a nossa sombra nos outros, num fenômeno chamado “projeção”; quando colocamos no outro aquilo é nosso, mas não aceitamos.

A maioria dos indivíduos no filme suporta muito pouco o conflito e se esquiva antes mesmo de uma atitude reflexiva que poderia lhes dar a chance de se aproximarem de seus conteúdos sombrios.

Um outro elemento que chama atenção (e poderíamos chamar de sombra do sistema/da empresa) é o fato da empresa transferir a decisão do conflito entre demitir ou não Sandra, para os seus funcionários, sem um confronto com sua própria sombra. Da mesma forma, a solução final que a empresa encontra para resolver o empate dos votos é novamente recolocar Sandra em detrimento de outro indivíduo (o rapaz em período de experiência), novamente sem reflexão, enfrentamento de conflitos, isenção de responsabilidade e incapacidade de confrontar-se com a sombra.

O confronto com a sombra

Durante todo o filme, cada colega de Sandra, como já apontado, está num conflito entre decidir pelo dinheiro ou pela manutenção da vaga da colega. É importante ressaltar que a presente proposta de análise psicológica do filme nao é atribuir um julgamento de valor, no seguinte sentido: seria "bom" ou "positivo" ou "humano" se a opção do personagem fosse pela permanência de Sandra no trabalho, em detrimento ao recebimento do dinheiro. O que é importante observar é como cada personagem reflete e toma contato com aspectos sombrios de sua psique nessa situação de conflito, independentemente da decisão que toma. Percebemos vários personagens cujo ego encontra-se identificado com a persona, defendendo-se, inclusive, de viver o conflito. Algumas defesas ou justificativas mostradas no filme e que, não raro, observamos em situações do nosso dia-a-dia foram:

1. Responsabilização do cônjuge ou companheiro, esquivando-se de chegar a uma decisão e assumí-la

2. Culpabilização do sistema/empresa pela decisão, alegando estar sob pressão

3. Tentativa de decidir aproveitando a resposta da maioria, eximindo-se do conflito e da responsabilidade de uma decisão pessoal

3. Intensa intolerância ao conflito resultando em acusação, falta de empatia, desprezo pelo outro e agressividade (sombra projetada)

Cabe aqui um exemplo do filme onde um dos personagens desqualifica Sandra, acusando-a de ladra e de querer roubar sua recompensa, no caso o bônus. O rapaz provavelmente projeta na protagonista seus elementos sombrios.

Um dos personagens (Timo, treinador de futebol), diante do pedido de Sandra, revê e muda sua decisão. O roteiro nos faz sentir que o rapaz pôde tomar contato com os motivos que o levaram à uma primeira decisão precipitada e equivocada. Agradece à Sandra, emocionado, a oportunidade de mudar de opinião, provavelmente após conhecer suas motivações mais genuínas através do acesso aos conteúdos enriquecedores da sombra.

Outra personagem (Anne) só toma a decisão após viver, de fato, o conflito (antes apressadamente delegado ao marido). Além disso, parece que Anne aproveita, após sua decisão, a oportunidade de (no confronto com sua sombra) rever e romper sua submissão ao marido. Há expansão de consciência, surgimento de uma nova persona e integração de aspectos antes inconscientes.

Vale lembrar que as ideias aqui expostas são, obviamente, suposições e uma dentre as várias leituras psicológicas possíveis.

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Integrando persona e sombra

Persona e sombra são um par clássico de opostos e figuram na psique como polaridades do ego. Um conflito entre persona e sombra pode ser considerado como uma crise de individuação e uma oportunidade de crescer através da integração. Para isso é necessário o contato com a sombra, como dito anteriormente, e sua conscientização. Se o ego suportar a tensão dos polos, uma solução surgirá na forma de um novo símbolo. Desta forma supera-se o conflito e uma nova persona surge, integrando partes anteriormente inaceitáveis de si mesmo. Observamos a ocorrência desse processo na personagem Anne, como exposto anteriormente.

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