O site pretende explorar temas da psiquiatria e conceitos da psicologia jungiana em filmes de cinema.

Fragmentado

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE 

fragmentadoSinopse: Kevin possui 23 personalidades distintas que se alternam no comando de sua vida, causando-lhe a vivência de uma situação bastante perturbadora.

 

O filme é a apresentação artística do fato de todos nós sermos internamente povoados por outras formas de existir.

É relevante trazer a visão médica da psiquiatria sobre o transtorno dissociativo de identidade, antes conhecido por transtorno de múltiplas personalidades.

Inicialmente, o que é dissociação?

Todos nós já vivenciamos esse estado de forma leve quando sonhamos acordados ou nos perdemos no momento, enquanto fazemos alguma coisa. O aspecto dissociativo é visto como um mecanismo de enfrentamento – a pessoa literalmente dissocia-se de uma situação ou experiência que é muito violenta, traumática ou dolorosa para ser assimilada pela consciência.

A essência do transtorno dissociativo de identidade é uma dissociação grave com divisão da identidade, com fragmentação recorrente do funcionamento consciente e do senso de si mesmo.

O transtorno dissociativo de identidade está associado a experiências devastadoras, eventos traumáticos, maus tratos, e/ou abuso ocorrido na infância.

Sua característica definidora é a presença de dois ou mais estados de personalidade distintos ou uma experiência de possessão. Além disso deve haver lacunas recorrentes na recordação de eventos cotidianos, informações pessoais importantes e/ ou eventos traumáticos que são incompatíveis com o esquecimento comum. Para chamarmos de transtorno dissociativo de personalidade, os sintomas não podem ser atribuíveis aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., apagões ou comportamento caótico durante intoxicação alcóolica) ou a outra condição médica. A perturbação não pode ser parte normal de uma prática religiosa ou cultural amplamente aceita. Além disso, em crianças, os sintomas não são mais bem explicados por amigos imaginários ou outros jogos de fantasia.

Finalmente, os sintomas devem causar sofrimento clinicamente significativo e prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

Os alter egos ou identidades diferentes têm a sua própria idade, sexo ou raça. Cada um tem suas próprias posturas, gestos e maneira distinta de falar. Junto com a dissociação e múltiplas personalidades, pessoas com transtornos dissociativos podem experimentar uma série de outros problemas psiquiátricos, como depressão, ansiedade, tentativas de suicídio, abuso de álcool e drogas dentre outros.

As personalidades distintas podem servir de papéis para ajudar o indivíduo a lidar com dilemas da vida.

Passando à avaliação psicológica de Jung, percebemos que o filme se passa quase sempre numa luminosidade parcial. A luz clara da consciência vigil se distribui entre várias personalidades e está representada através de um tom mais escuro em grande parte das cenas, a fim de ilustrar esta proposta do filme.

Consciência e Ego

A consciência é definida por tudo aquilo que conhecemos.

O ego, o centro da consciência, é um filtro que seleciona e apresenta à nossa consciência um conteúdo de cada vez. O ego vai progressivamente se desenvolvendo através das inevitáveis experiências e confrontos com o mundo externo, compondo quem somos e nossa identidade.  No filme, Kevin é a identidade egóica do protagonista.

Inconsciente e Complexos

Não somos, no entanto, exclusivamente ego e consciência. Nossa psique se compõe também de uma grande parcela inconsciente. Sabemos, além disso, que nossa consciência não vai ser apenas perturbada por estímulos do mundo externo mas também por colisões internas originadas desse nosso próprio inconsciente e dos complexos que o constituem.

Estes complexos são uma rede inconsciente de material associado entre si formado por lembranças, fantasias, imagens, pensamentos que, quando estimulada, pode ganhar força suficiente para  gerar perturbação na consciência, muitas vezes irresistíveis, como se estivéssemos possuídos. Nessa situação, reagimos irracionalmente e depois de recobrarmos nosso estado anterior, geralmente lamentamos, nos arrependemos e pensamos melhor sobre o que fazer numa próxima oportunidade. O que faz um complexo ganhar “energia” pode ser algum tipo de situação atual que mobiliza momentos passados, traumas, associações dolorosas e estressantes que haviam sido enterradas no inconsciente. Quando nosso ego fica sujeito a tais descargas de energia, perde o controle da consciência e ficamos temporária e parcialmente dissociados. Entretanto, o ego forte retoma, em seguida, seu lugar central na consciência e não perdemos a continuidade de nossa personalidade. Há traumas e situações que geram dissociações tão intensas que podem tornar o ego mais vulnerável e com maior risco de perder sua força e autonomia.

Os complexos podem ser pensados como fragmentos de personalidade ou subpersonalidades. A personalidade de todo e qualquer adulto é vulnerável, em certa medida, à desintegração, visto ser construída de grandes ou pequenos fragmentos dotados de maior ou menor autonomia e que podem se “descolar”. No transtorno dissociativo de identidade, esses vários fragmentos de personalidade não são mantidos juntos por uma consciência unificadora. Possuem uma espécie de ego próprio, cada um deles operando de modo mais ou menos independente. Possuem identidade própria e até o seu próprio tipo de controle sobre as funções do corpo, a ponto de uma personalidade poder mostrar capacidades ou dificuldades físicas não apresentadas por outras.

Voltando ao filme, tudo isso está claramente representado nas várias personalidades que assumem o centro da consciência de Kevin, dependendo da exigência de cada situação. Há traumas do passado relacionados a possíveis maus tratos na infância que em alguns momentos são lembrados por ele. Fica evidente a força dos vários complexos que chegam ao status de personalidades e que se alternam “ganhando a luz” da consciência, termo usado pelo próprio protagonista. Cada uma delas possui um estilo, feições faciais, modo de falar e se comportar diferentes e característicos, o que evidencia a presença de uma consciência própria em cada uma dessas personalidades. Também descobrimos diferenças no funcionamento físico das diversas personalidades; por exemplo na necessidade que uma delas possui de tomar insulina para um possível quadro de diabetes. Finalmente, observamos que a memória apresenta lacunas na recordação de alguns eventos, evidentes ao longo do filme.

Outra personagem importante do filme, Casey, nos mostra um contraponto à Kevin no sentido em que ela não possui o transtorno dissociativo de personalidades mas vai nos apresentando, em diversas cenas, as recordações de eventos traumáticos. Tais situações foram provavelmente vividas com intenso grau de dissociação (protetora ao indivíduo), tendo sido reprimidas, permanecendo inconscientes a ela até então. No caso, eram abusos sexuais perpetrados por seu tio, já na  sua infância. Em Casey não há uma permeabilidade do ego passível de ser tomado pelos complexos fragmentados inconscientes. Não chegam, assim, a adquirir a força de personalidades autônomas, a ponto de atingirem e assumirem o centro da personalidade, como ocorre com Kevin.

Finalizando, e como é mostrado no filme, o tratamento desse transtorno é difícil, de longo prazo e feito com psicoterapia. Há necessidade de um vínculo importante entre o indivíduo e o terapeuta, a fim de estabelecer forte confiança e profundo conhecimento da situação e do indivíduo. Os medicamentos são mais comumente utilizados para as possíveis e não raras doenças concomitantes.

 

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