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Na natureza selvagem

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

Na natureza selvagem

Construo esta leitura do filme a partir de minhas impressões psicológicas da personagem e de algumas dinâmicas da obra como um todo. Não intenciono, em nenhum momento, tecer diagnósticos, julgar comportamentos ou questionar a visão de mundo de Christopher McCandless.

 

Quem é Christopher McCandless?

O filme Na Natureza Selvagem é inspirado na história verídica de Christopher McCandless, um jovem rapaz que abandona sua vida de conforto para buscar a liberdade numa viagem que o leva ao Alasca selvagem.

 

A ruptura

 

McCandless se inquieta com o convencional. Aos 23 anos forma-se na universidade, o que parece catalisar seus questionamentos sobre sua maneira de estar no mundo. Desaprova o relacionamento dos pais, bem como a vida materialista e de consumo que o rodeia.  Cansado dos costumes capitalistas da sociedade e saturado com a hipocrisia e as mentiras de sua família (principalmente de seu pai), decide romper seus vínculos com a sociedade patriarcal que carrega as características de racionalidade, materialismo, controle, caráter ativo, competitivo e poder. 

Uma possível hipótese para tal ruptura, segundo o filme, seria a interiorização de uma relação negativa com ou o pai. Simbolicamente o pai representa a ordem do mundo, os valores estabelecidos e o código moral construído por essa tradição. McCandless rejeita viver segundo tais princípios. E, com nova identidade e agora com seu novo nome, Alex Supertramp, escolhe a natureza, virgem, pura e “selvagem”, para essa sua nova conexão e comunhão.

E como se dá essa ruptura com a sociedade?

Algumas características da personalidade puer podem ser vislumbradas a partir da maneira como o protagonista rompe com o mundo à sua volta.

Chris não dá mais notícias à família, doa todas as suas economias a uma instituição de caridade e acaba por abandonar o seu carro e queimar todo o dinheiro que levava consigo para se sentir mais livre e seguir seu rumo. Percebemos que o personagem quer se aventurar e exala um idealismo romântico, com ares de puerilidade.

Puer é o arquétipo da juventude eterna que, quando constelado, traz desafio no âmbito das ideias e promove transformações na visão de mundo. O puer é idealista e carrega o impulso e o movimento. Segundo Hillman (1998) é o espírito do novo que vem para superar o pai através de sua renovação. O puer quer modificar e dar novo brilho aos valores ultrapassados da vida.  Inspira o brotar das coisas, é ousado e algumas vezes se arrisca em atividades físicas perigosas. O lado negativo do puer é sua dificuldade em assumir as responsabilidades que a vida impõe e a possibilidade de manter-se infantil, sem o aprofundamento das relações com as pessoas e o mundo.

Segundo Von Franz (1992), algumas características dos indivíduos com personalidade puer são:

· Permanecem muito tempo como adolescente

· De alguma forma sentem-se especiais e por isso não buscam se adaptar-se

· Apresentam dificuldade de se fixar num determinado trabalho pois nunca é, de fato, o que buscam

· Possui um grande medo de se prender (inclusive de assumir relacionamentos duradouros) e de entrar completamente no tempo e no espaço e ser o indivíduo específico que ele é

· Há uma atração por esportes perigosos, por exemplo, aviação, alpinismo. Alguns indivíduos encontrarão a morte prematura nessas atividades

· São impacientes por temperamento

A vida é a aventura comum a todos os humanos. Cada um de nós busca, a seu modo, os sentimentos que ela nos oferece: superação, realização e proximidade com o divino que há dentro de nós. A aventura vem carregada de fascínio e encanto e é uma forma de conhecer os próprios limites e talvez conseguir experimentar o que está além. Alex buscava essa conexão, essa forma de se ligar com o transcendente e sua história é simbolicamente um desejo comum a todos nós.

clip_image004A polaridade da natureza e do arquétipo materno

Antes de tudo e, de forma inquestionável para todos nós, a natureza é mãe. Tanto é assim que reconhecemos com facilidade a expressão “mãe natureza”. E é ela a escolha que McCandless faz para si na intenção de se desligar da família e dos moldes sociais vigentes, num movimento de busca de sua própria identidade. No entanto, é interessante notar que o protagonista escolhe para esse fim, a natureza, importante símbolo materno. Poderíamos supor que um movimento, obviamente inconsciente, regressivo ou de retorno ao calor do ninho da infância, estaria inserido nessa escolha. Claramente notamos que McCandless passa por uma importante fase de transição e conflito.

A natureza nutre e devora ao mesmo tempo. Qualquer arquétipo, inclusive o materno, também carrega os opostos na sua constituição. Isso significa que nele coexistem as possibilidades da mãe nutridora e também da devoradora.

Como nutridora, a natureza é, em si mesma, a terra e suas águas, a fertilidade, o alimento, calor e abrigo.

Quando humanizada, a natureza nutridora se faz presente no arquétipo materno sob a forma da mãe que oferece acolhimento, proteção e dedicação incondicionais. É aquela que nutre e ama.

Como devoradora a natureza é crua, “selvagem”, com suas feras, terremotos, tempestades e furacões.

Quando tais aspectos são humanizados, teremos o lado devorador do arquétipo materno que pode ser observado através de uma proteção opressora que mutila o outro e um calor que derrete todas as intenções de independência e autonomia do filho. Seu amor é pegajoso e sufocante.

A negociação: conciliando os opostos

 

A expressão de um eu sadio está associada a uma flexibilidade que admite uma coisa e seu contrário. Como o filme nos permite refletir, equivaleria a estar inserido dentro das regras sociais sem deixar de questioná-las e transformá-las. Em outras palavras, aceitar sem se submeter. Seria viver o arquétipo em suas duas faces, por exemplo, amando e temendo a natureza. Ser ao mesmo tempo forte e vulnerável. Trata-se, portanto, de um trabalho de confrontação e negociação entre o consciente e o inconsciente.

Alex começa a reconhecer a beleza de experimentar o balanço da vida quando decide voltar. Parecia desejar conciliar os opostos. Não foi possível.

A mãe natureza é tudo. É boa e má. É o útero da vida que dá sem cessar, sem reservas. Mas é também destino mortal. É o túmulo, é a tumba.

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Referências bibliográficas

FRANZ, M. L.Von. Puer Aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância. São Paulo: Paulus, 1992.

HILLMAN, J. O Livro do Puer: Ensaios Sobre o Arquétipo do Puer Aeternus. 2ª edição. Tradução de Gustavo Barcellos. São Paulo: Paulus, 1998

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