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Paterson

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

PatersonSinopse: O filme acompanha durante uma semana a rotina simples de Paterson, um motorista de ônibus.

 

 

 

O filme trata do cotidiano e de como as miudezas do dia a dia estão impregnadas de significado e poesia.

Há um arcabouço que se repete no decorrer de uma semana da vida de Paterson que identificamos logo no início do filme. Entretanto, se atentarmos para os eventos que recheiam esse arcabouço perceberemos nuances que dizem muito sobre sua vida.

Na verdade, a vida de todos nós é repleta de repetições e conexões sutis que não nos apercebemos, na ânsia de buscar o que ainda não alcançamos. A vida de Paterson vai nos mostrar a beleza sutil que existe naquilo que damos por trivial.  Há muita riqueza no monótono e no pequeno, há muito colorido no preto e branco repetidamente apresentado por Laura no cotidiano do casal.

E há também muitas coincidências ao longo do filme, que não ocorrem à toa e sem sentido, mas estão ligadas pelo afeto. Cabe aqui apresentar um conceito de Jung que aparece no filme e também em nossas vidas, chamado sincronicidade.

Sincronicidade é aquela coincidência que subitamente acontece e nos deixa perplexos como, por exemplo, pensar em alguém distante que, de repente, nos telefona. Ficamos imediatamente impactados porque não se trata de algo qualquer mas de uma coincidência que nos toca, nos afeta e até nos assusta. Não explicamos, apenas testemunhamos. Geralmente uma ocorrência de curta duração, a sincronicidade funde o ambiente externo com nossa psique, possibilita que uma vivência interior fique espelhada no mundo e, como a luz intensa e breve de um relâmpago, nos faz vislumbrar a unidade e conexão entre todas as coisas. O importante a destacar é que não devemos desprezar tais acontecimentos porque desejam comunicar algo. Se pudermos refletir sobre o significado da sincronicidade no contexto de nossas vidas, possivelmente teremos acesso a conteúdos que nos eram inconscientes e que, depois de elaborados, poderão ampliar o que sabemos a respeito de nós mesmos.

Uma ocorrência sincrônica relevante do filme é o protagonista se chamar Paterson, o mesmo nome da cidade onde vive. Essa é uma coincidência significativa que pode nos fazer pensar no Paterson motorista de ônibus, público como a cidade, e outro particular e subjetivo, poeta nos momentos íntimos. Um circula e se expõe e o outro aquieta e se recolhe;  um sustenta a vida prática e o outro sustenta a alma. Essa duplicidade quer se fazer revelada e continua se apresentando ao mundo e ao indivíduo através de outros eventos sincrônicos do filme como, por exemplo, os vários gêmeos que cruzam sua rotina.

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A observação acima nos remete ao “motivo do duplo”, trabalhado por Jung em sua obra.

A dualidade, a cisão, a divergência, ou a antítese remetem, em termos de imaginário, ao elemento chamado “duplo”. Encontramos o simbolismo do duplo em diferentes áreas de estudo como, por exemplo, na literatura, na arte ou na mitologia. Ele nos causa uma atração interrogativa, tendo sido motivo de distintas construções imagéticas. Um exemplo onde pode ser visto é no mito de Narciso: na versão escrita por Pausânias. Narciso se apaixona pela irmã gêmea que morre, deixando-o consumido pelo desgosto. Um dia, enquanto passeava, vê seu reflexo na água do lago e imagina ser sua irmã. Lá permanece admirando-a até definhar e morrer, dando origem à flor narciso.

Um possível significado do duplo condiz com sua denominação: são dois seres ou duas imagens de si mesmo. Isto está representado no filme através da duplicidade presente na personalidade de Paterson,  enfatizado, como já citado, pelos eventos sincrônicos do aparecimento, em diferente momentos, da imagem de dois seres, os gêmeos. O tema do duplo se torna evidente e relevante ao refletirmos a relação eu-outro como um diálogo interno, visando promover o autoconhecimento. O motivo do duplo pode ser compreendido como um elemento inconsciente que está tentando alcançar a consciência de forma a fazer parte da personalidade do indivíduo, podendo aparecer num sonho, fantasia ou em eventos sincrônicos. Carrega um questionamento que o indivíduo deveria fazer a si mesmo a respeito das possibilidades e facetas que o compõe. Laura pede a Paterson que deixe existir o artista que ele já é, mas ele resiste e mantém distante e secreta sua potencialidade poética.

Também observamos outras duplicidades no filme como o “preto e branco” escolhido por Laura como um padrão para estampar sua vida e desejos. Dentro desse padrão podemos enxergar ainda o tema do binário quando os desenhos feitos por Laura são muitas vezes, círculos ou linhas remetendo-nos ao par numérico 0 e 1. Por fim, dois poetas cruzam o caminho do protagonista e vêm “lembrá-lo” de seu dom artístico.

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Enfim, as coincidências significativas que ocorrem à Paterson também podem ser entendidas como as rimas que permeiam a poesia de sua vida.  Há em Paterson e em sua rotina uma simplicidade repleta de significado. O filme sugere para nossas vidas um olhar mais lento e atento que nos permita enxergar as sincronicidades repletas de mensagens e respostas que, muitas vezes, perseguimos velozmente sem obtê-las. Nos propõe um ritmo suave que nos torne capazes de perceber quanto conteúdo existe num dia-a-dia que poderia ser julgado, num olhar apressado, como vazio e sem alma

Definitivamente a poesia de Paterson não é épica, tampouco sua rotina que, no entanto, nos faz lembrar que todos trazemos um Paterson dentro de nós.

 

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