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Precisamos falar sobre o Kevin

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE 

Sinopse: O filme trata do difícil relacionamento entre Kevin e sua mãe.

 

 

precisamos falar sobre o kevinEste é um filme perturbador, sobre Kevin, alguém incapaz de sentir amor.

Gostaria de dar, inicialmente, a visão médica psiquiátrica sobre o chamado Transtorno de Conduta. Muitos dos comportamentos de Kevin estão presentes dentro desse diagnóstico.

O transtorno de conduta é uma espécie de personalidade antissocial na juventude. Esses jovens e crianças não se importam com os sentimentos dos outros nem apresentam sofrimento psíquico pela prática de atos moralmente reprováveis, perigosos e ilegais. Há ausência de remorso, falta de empatia, afeto superficial ou deficiente. Praticam atos como agressão a pessoas ou animais, destruição de propriedade, falsidade, furto e violações graves de regras.

Segundo Bordin e Offord, comportamentos antissociais são frequentemente observados no período da adolescência como sintomas isolados e transitórios. Porém, estes podem surgir precocemente na infância e persistir ao longo da vida, constituindo quadros psiquiátricos de difícil tratamento. Fatores individuais, familiares e sociais estão implicados no desenvolvimento e na persistência do comportamento antissocial, interagindo de forma complexa e ainda pouco esclarecida. Como o comportamento antissocial torna-se mais estável e menos modificável ao longo do tempo, crianças e adolescentes com transtorno da conduta precisam ser identificados o mais cedo possível para que tenham maior oportunidade de beneficiar-se de intervenções terapêuticas e ações preventivas. O tratamento mais efetivo envolve a combinação de diferentes condutas junto à criança/adolescente, à família e à escola. Quando não é possível o acesso a intervenções complementares, o profissional de saúde mental deve identificar a conduta terapêutica prioritária em cada caso específico.

Passando a uma leitura psicológica do filme, podemos iniciar tratando dos aspectos simbólicos de sua impactante abertura.

Uma multidão se aglomera e trava uma verdadeira “batalha de tomates” ficando, aos poucos, envolta num caldo vermelho, espesso e vibrante. Essa é uma tradição espanhola conhecida por Tomatina, prática que remonta a 1944 e se repete todos os anos na cidade de Buñol, atraindo milhares de visitantes. Diz-se que a “Tomatina” começou por ser um símbolo da oposição à ditadura de Franco.

Temos aqui um simbolismo que se mostrará importante ao longo de todo o filme que é a “batalha” do vermelho, cor do sangue e dos afetos, se opondo à tirania fria e assustadora de Kevin. Tirania essa que desconhece o vermelho do coração, símbolo da paixão, das emoções calorosas e do amor. A cena seguinte é a tinta vermelha agressivamente esparramada nas paredes externas da casa de Eva, novamente nos deixando supor a cor do amor do lado de fora de sua vida com o filho. Vale observar que muitas cenas do filme são permeadas pela cor vermelha, como por exemplo, as lembranças de paixão entre Eva e o marido, bem como as de destruição sanguíneas e dor.

A gestação não planejada

Uma mulher, no âmbito de sua consciência, pode não manifestar vontade em gestar, como é o caso de Eva. Entretanto, a poderosa e desconhecida esfera inconsciente dos desejos, que também está em jogo, pode fazer com que ela venha a engravidar, a despeito de seu discurso manifesto referir o contrário. Toda gravidez é vivida de maneira crítica e reflexiva, uma vez que tal etapa na vida da mulher desperta vivências extremamente primitivas, que até então dormitavam inconscientes. Pode-se pensar, assim, o quanto essa crise torna-se maximizada em uma gestação que irrompeu inesperadamente. Desolada, Eva carrega essa crise em seu ventre, sem refletir porquê e a que veio. No parto, a médica pede que ela “pare de resistir”, como se lutasse para impedir o nascimento da criança. Podemos levantar a questão: em algum nível de sua psique, Eva sabia o desafio que encontraria?

Quem é Kevin?

Voltando ao filme, Kevin grita enquanto é bebe e grita também em seu silêncio que recusa interagir com a mãe nos primeiros anos de vida. Segue se opondo, desafiando e destruindo a mãe, seus sonhos e a intimidade de sua vida. A cena em que Eva embeleza seu quarto forrando-o com mapas, como se procurasse um caminho a seguir, simboliza a tentativa de preservar sua dignidade e amor a si mesma. Kevin agressivamente espalha tinta vermelha por toda parte, sangrando a conexão que é incapaz de estabelecer com a mãe.

Com o pai, Kevin finge um relacionamento que não convence e que apenas o libera de maiores confrontos. Franklin tem, assim, a possibilidade de negar e se proteger mais facilmente da distância e do vazio que o filho impõe. Eva carrega solitariamente a amoralidade, a frieza destrutiva e o desamor que lhe é dirigido.

Kevin sufoca, constrange, maltrata. E mata.

O arco e flecha

Segundo Eliade, a flecha é um símbolo da libido, da energia psíquica disponível e projetada. É análoga ao raio solar, fálica e fecundante podendo referir-se à realizações afetivas. Eros, o deus do amor, usava suas flechas para que os homens se apaixonassem, e a emoção do sentir-se apaixonado de forma súbita, nos deixa com a impressão de que fomos flechados. Sem eros para se conectar ao mundo, Kevin parece tentar possuí-lo através da flecha. Assim que a descobre, num dos poucos momentos em que aceitara a aproximação da mãe, que lia para ele a história de Robin Hood, parece ter sido atingido e torna-se fascinado com essa possibilidade. Ganha o arco e flecha do pai e passa a utilizá-lo com destreza e habilidade, muito mais destrutivas do que lúdicas. Há tensão, objetivo, alvo e destino mas claramente suas flechas não carregam amor. O arco e flecha representam a caça, bem como a guerra.

O arco representa energia e disciplina; desejo e destino.

A flecha representa o poder.

Enfim, sem amor, Kevin só conhece o poder.

Como forma de reflexão, finalizarei com as palavras de Jung, “Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro”.

 

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