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A Balada de Narayama

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

 

A balada de NarayamaSinopse: A Balada de Narayama, de Shohei Imamura, premiado em Cannes com a Palma de Ouro retrata, no fim do século XIX, uma tradição que ocorria em um pequeno vilarejo japonês. Aquele que completasse 70 anos devia ser levado pelo filho ao topo da montanha sagrada de Narayama onde aguardaria a sua morte. Quem se recusasse a cumprir o costume trazia desonra à sua família.

Enfatizarei neste texto o contraste entre culturas na percepção de questões como envelhecimento e morte. O objetivo é refletir sobre o assunto a fim de ampliar e enriquecer nossos entendimentos e atitudes frente a esta importante fase da vida.

A vida e seus ciclos

O filme apresenta a vida humana transcorrendo extremamente próxima à natureza, enfatizando nossa primitividade em aspectos relacionados à alimentação, reprodução e sobrevivência. Muitas vezes escancara atitudes que nos chocam e demoramos a aceitar como atos passíveis de serem executados por nós, humanos.

Civilizados que somos, nos distanciamos do instintivo, bruto e selvagem que nos habita. Aprendemos a domar nosso lado animal e passamos ingenuamente a acreditar que podemos controlá-lo e subjugá-lo. Com isso, muitas vezes nos percebemos distantes de nossos ciclos naturais que possuem tempo e objetivos próprios e que tentamos, sem sucesso, eliminar de nossa vida prática, veloz e atribulada. Dentre eles temos o envelhecimento e seu desfecho fatal, muitas vezes combatidos e negados dentro de nossos valores, modo de viver e encarar o mundo.

Na película, os habitantes são parte do ambiente que os cerca e o ciclo de nascimento e morte é vivido tão naturalmente quanto o nascer e o cair do sol. Abertamente e, com frequência, fala-se no morrer, seu desenrolar no tempo e sua aproximação. A morte é, na verdade, esperada e planejada por Orin, a protagonista. Acertos são buscados e decisões são tomadas como a retirada brutal dos próprios dentes, a fim de se alimentar menos e permitir que outros o façam em seu lugar, bem como a busca de uma esposa para o filho mais velho e de uma mulher para a primeira experiencia sexual do mais novo.

Em nossos tempos e sociedade, por outro lado, a morte é um tabu, raramente embuída de valor e significado. É o fim e a tristeza e envolver-se com ela carrega uma mistura de sentimentos como medo, repulsa, incômodo e aflição. No filme, além de ser uma necessidade, dada a pobreza e falta de alimento do local, a morte é uma entrega, um auto-oferecimento ao sagrado, que honra a família e os valores. Ao invés de ser rejeitada, é reverenciada. Assim, aos 70 anos, sobe-se a sagrada montanha de Narayama para aguardar a morte.

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A montanha

Segundo Mircea Eliade, em sua obra “O sagrado e o profano”, todos os lugares sagrados apresentam um simbolismo vertical em sua estrutura, que se dirige diretamente à transcendência.

”A Transcendência revela-se pela simples tomada de consciência da altura infinita. O “muito alto” torna-se espontaneamente um atributo da divindade. As regiões superiores inacessíveis ao homem, as zonas siderais, adquirem o prestigio do transcendente, da realidade absoluta, da eternidade. Lá é a morada dos deuses [...]”. (ELIADE, 2001, pp.100- 101)

Desta forma, a busca da transcendência religiosa necessita um símbolo que assuma a ligação do homem com o que está acima dele ou que facilite esta ligação. É por este motivo que muitas montanhas são tidas como sagradas, pois se elevam verticalmente em direção aos céus e é nelas que o homem pode subir a fim de diminuir sua distância com o divino. Assim se dá com a montanha de Narayama no filme.

Metaforicamente podemos supor que a subida da montanha é a oportunidade, o tempo de preparo para esse encontro com o sagrado, sendo o caminho da possível e necessária transformação. Quem não a enfrenta, não honra a família e não é digno da própria morte. Em nossos tempos, num inquestionável contraste, a subida da montanha corresponde ao temido processo de envelhecimento, mal aproveitado e, sobretudo, mal valorizado em nossa sociedade. Lutamos contra as transformações físicas que a velhice nos impõe, resistimos às limitações que ela nos traz e fugimos de todas as possíveis reflexões com a qual essa condição poderia nos brindar. Evitamos a todo custo pensar sobre quem somos e o que entregamos ao mundo nesse tempo final, correndo assustados e sem rumo em busca de mais tempo de vida.

Como escreveu Jung em “A Natureza da Psique”:

“Completamente despreparados, nós damos o passo em direção à tarde da vida. Pior ainda, nós damos esse passo com o falso pressuposto de que as nossas verdades e os nossos ideais vão nos servir como nos serviram até hoje. Mas não podemos viver na tarde da vida de acordo com o programa da manhã da vida. Para o que foi ótimo na parte da manhã será muito pouco à tarde, e o que de manhã era verdade, na noite terá se tornado uma mentira”.

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Subida

Uma cena do filme nos apresenta a anciã preparando e semeando a terra, enquanto declara a chegada do momento para a subida da montanha. Para ela está tudo plantado e cumprida sua ‘missão na terra’. Na noite que antecede sua partida, os anciões ‘que conhecem o caminho” são reunidos para lhe dar instruções. É transmitido a ela e ao filho que a carregará, que essa é tarefa árdua, perigosa, deve ser enfrentada com cuidado e em silêncio. Além disso, o caminho na montanha Narayama não está previamente determinado e o acompanhante não deve olhar para trás ao descê-la.

Seria importante que refletíssemos sobre essas condutas e talvez pudéssemos perceber que envelhecer é uma tarefa séria e difícil que deveria receber nosso devido respeito individual acompanhado de uma atenção silenciosa e plena. Além disso, o modo, ritmo e parâmetros para ultrapassá-la é tarefa particular de cada um.

Vemos no filme que o acompanhante leva a anciã em suas costas, num contato bastante íntimo, carregando o peso físico e emocional da tarefa. Assim se passa com aquele que segue próximo ao idoso que necessita de amparo. Deve-se dispor de uma paciência continente, no ritmo determinado por suas perdas e com a proximidade calorosa que ameniza as dores físicas e emocionais de quem perde a autonomia.

Importante percebermos que o cuidador tem um papel muito importante no processo de envelhecimento e morte de alguém próximo e também passará por transformações. Como no filme, há trechos do caminho que são mais suaves, outros em que se tropeça, cai e sangra. Cometem-se erros que demandam correções, subidas que exigem descansos e atalhos esperançosos. Aos poucos, passa a existir um binômio composto pela humildade de quem envelhece e aceita ser ajudado e pela generosidade e paciência de quem cuida e ultrapassa os obstáculos inevitáveis. Para o cuidador, a aceitação vai se dando aos poucos e o encontro com outras mortes nesse mesmo caminho contribui para essa difícil conscientização da finitude. No filme, a imagem dos esqueletos pelo caminho dispensa palavras e sinaliza a chegada ao destino.

Finalmente, a dor da despedida se mescla num profundo amor e gratidão recíprocos. A vida pede, agora, sabedoria. Para quem fica, de continuar seu caminho sem culpas ou remorsos e para quem vai, de partir com a certeza e confiança da missão cumprida.

Referências

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992

JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Obras Completas. Petrópolis: Vozes, 2012.

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