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Amor

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

AmorSinopse: Georges e Anne são um casal de idosos aposentados apaixonados por música que passa pelos difíceis obstáculos do envelhecimento.

 

Envelhecimento

Um duro processo de envelhecimento e a difícil tarefa do cuidador é o que o filme nos apresenta. A película, em si, já promove uma reflexão a respeito dos momentos bastante difíceis para quem envelhece, adoece e perde sua autonomia e também para o cuidador que pode precisar decidir sobre a melhor maneira de lidar com esse tempo que precede a morte. A questão sobre o que a medicina tradicional oferece neste processo de final de vida e a necessidade de novas perspectivas também é levantada.

Obviamente não há uma data para o início do envelhecimento, mas há sinais na vida que precisam ser aceitos e compreendidos pelo indivíduo. Devemos refletir e nos preparar para essa etapa.

Com muita beleza, Jung nos diz:

“Nossa vida compara-se a trajetória do sol. De manhã o sol vai adquirindo cada vez mais força até atingir o brilho e o calor do apogeu do meio dia. Depois vem a enantiodromia. Seu avançar constante não significa mais aumento e sim diminuição de força. Sendo assim, nosso papel junto ao jovem difere do que exercemos junto a uma pessoa mais amadurecida. No que se refere ao primeiro, basta afastar todos os obstáculos que dificultam sua expansão e ascensão. Quanto a última, porém, temos que incentivar tudo quanto sustente sua descida. Um jovem inexperiente pode pensar que os velhos podem ser abandonados, pois já não prestam para nada, uma vez que sua vida ficou para trás e só servem como escoras petrificadas do passado. É enorme o engano de supor que o sentido da vida esteja esgotado depois da fase juvenil de expansão, que uma mulher esteja “liquidada” ao entrar na menopausa. O entardecer da vida é tão cheio de significação quanto o período da manhã. Só diferem quanto ao sentido e intenção” (Jung, vol.7/1, 1987).

O filme traz uma passagem simbólica logo no seu início que mostra que a porta principal da casa em que mora um casal de idosos foi estranhamente aberta sem o seu consentimento, levantando a eles a suspeita e temor de que algo pudesse ter sido roubado. A casa simboliza o indivíduo e há aqui a sugestão de algo súbito e ameaçador que quer adentrar a vida. Claramente o envelhecimento é um processo de invasões e perdas até seu objetivo final, a morte. É o dissipar da última parcela de energia da vida que vai se tornando cada vez mais lenta e rarefeita e busca, como se soubesse o caminho, o alvo do repouso total.

Jung nos fala sobre isso:

“A vida é um processo energético, como qualquer outro, mas em princípio, todo processo energético é irreversível e, por isto, é orientado univocamente para um objetivo. E este objetivo é o estado de repouso. No fundo, todo processo é nada mais do que, por assim dizer, a perturbação inicial de um estado de repouso perpétuo que procura restabelecer-se sempre. A vida é teleológica “par excellence”, é a própria persecução de um determinado fim, nada mais é do que um sistema de objetivos prefixados que se procura alcançar” (Jung, vol. 8, 2002).

Como esse processo será vivido, no entanto, dependerá de cada indivíduo e seu contexto de vida.

Voltando ao filme, uma crise adentra a vida do casal. Anne passa mal e há a indicação médica de uma cirurgia, a priori, com baixo risco de complicação. Um ponto importante que gostaria de ressaltar aqui é que não ficamos sabendo se Anne participa da decisão de se submeter à cirurgia sugerida pelo médico.

O movimento Slow Medicine

Sem títuloA medicina tradicional avançou muito em desenvolver novos medicamentos, na tecnologia de exames diagnósticos e procedimentos de alta complexidade mas perdeu o foco no paciente e nos imprescindíveis diálogos entre este último e o médico para ponderar os riscos e benefícios de intervenções diagnósticas e terapêuticas.

Gostaria de trazer ao leitor uma abordagem que vem ganhando atenção e destaque no mundo todo, inclusive no Brasil. Trata-se de um movimento novo chamado Slow Medicine (Medicina Sem Pressa) que é uma proposta de resgate da arte de cuidar dentro da medicina tradicional que preconiza, dentre outros princípios, o de uma escuta cuidadosa e significativa do paciente, bem como uma atenção aos seus valores, expectativas e preferências  Assim, sem abandonarmos os avanços e todas as importantes conquistas médicas em nossos dias, nos permite resgatar o essencial aspecto humanístico do qual a arte médica sempre esteve imbuída (www.slowmedicine.com.br).

Retomando o filme, testemunhamos Anne em casa e com sequelas, sendo que é apenas nesse momento que ouvimos seu pedido explícito feito ao marido para que não volte a ser internada. Alguns diálogos breves entre a idosa e seu marido sobre seu estado e o desejo de morrer são imediatamente rechaçados, antes de serem ouvidos de modo maduro e permeável. Seus medos, como ser cuidada a partir de então e como deseja morrer, infelizmente não são discutidos mas poderiam ajudar a amenizar a angústia nesse momento de dúvidas e perdas. Georges ainda enfrenta a discordância da filha que, lutando contra a própria impotência, quer “resolver” a situação e decidir o que é melhor para os pais. Sem diálogos francos entre os familiares e aquele que está doente a respeito de suas preferências e do que espera, somados a atitudes de defesa e racionalização, acabam dificultando a tomada de decisões de quem cuida frente aos obstáculos que vão surgindo. É o que vemos acontecer com Georges à medida em que o conflito sofrimento-morte da esposa vai se descortinando.

Na verdade, o amor que sempre existiu entre os personagens, e que dá nome ao filme, será o sentimento que norteará Georges em tentar aplacar as dores das perdas instaladas na vida dele e de Anne. Somos apresentados, com o desenrolar do filme, à maneira como esse amor se manifestará e quantas questões ele nos fará, inclusive sobre a impactante decisão e maneira de Georges trazer a morte à Anne, sobre a qual me absterei de julgamentos.

Sabemos que a expectativa de vida vem aumentando e é cada vez maior a porcentagem de idosos na população brasileira e mundial. Não podemos mais ocultar de nós mesmos as questões de como viver a fase final da vida e de como morrer. O movimento Slow Medicine nos alerta que nem sempre fazer mais é fazer melhor. Na verdade, a medicina precisa encarar os desafios representados pelo cuidado aos idosos e aos doentes em fase terminal, procurando oferecer a “morte digna” que todos merecem.

Considerações finais

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Como nos propõe a psicologia analítica, a certeza da morte física caminha junto com a certeza de nossa eternidade psíquica. Nosso corpo morrerá, nossa consciência se extinguirá mas nossa inconsciência permanecerá e, após nossa morte, será devolvida ao universo com a marca de nossa essência. Não partimos do mesmo modo que chegamos. Quando somos restituídos à totalidade, nos entregamos transformados por todas nossas experiências de vida. Teremos, assim, modificado o todo que passa a somar agora nossa consciência adquirida, expandida e, tanto melhor, se evoluída durante a vida, sendo este o sentido de nossa existência.

       

       

       

       

Enfim, acompanhando a pianista Anne e sua história e fazendo um paralelo simbólico com a música, podemos perceber que qualquer composição carrega sempre um percurso circular de nascimento, transformação e morte. Anne faz parte desse ciclo. Foi iniciada nas notas musicais e, embora não tenha mais podido executá-las ao piano no final de sua vida, transformou-se nas músicas que tocam sua essência, deixando ao mundo o significado e a melodia de sua existência, seu mais genuíno legado.

Referências

 

JUNG,C.G. Psicologia do inconsciente . OC VII/1. Petrópolis: Vozes,1987

JUNG,C.G. A energia Psíquica . OC VIII. Petrópolis: Vozes, 2002

www.slowmedicine.com.br

slowmedicine.com.br/essencial-conceito/

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