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Biutiful

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

Biutiful

Sinopse: O filme relata a história de vida de Uxbal, um homem em conflito com a paternidade, o amor, a espiritualidade, a morte, o crime e o sentimento de culpa.

Beleza

O vocábulo que dá nome ao filme, Biutiful, escrito de maneira  incorreta, nos remete à beleza que não é literal, convencional e que também podemos encontrar onde menos esperamos: na luta, na doença e na morte. Não é cheia de luzes mas brilha na escuridão através, por exemplo, do amor do protagonista pelos filhos e em sua luta pela existência. A grafia errada da palavra se ‘traduz’, a meu ver, no belo que não se perde nas dores da vida.

Biutiful trata de doenças. Abrange não apenas a doença física de uma pessoa com sua culpa e dor moral pela forma como se sustenta na vida, mas também a doença de um coletivo. O filme é uma denúncia social, é a sombra humana que escurece a película com seus abusos, discriminações e frieza entre as pessoas  sendo o retrato, no mundo, da doença terminal do protagonista. Entretanto, nesse cenário de injustiças e deterioração da realidade conseguimos percebermos, através do contraste, a sensibilidade e empatia que Uxbal tenta praticar por linhas tortas e grafias incorretas. 

images (6)A doença terminal, o sofrer e o morrer

À uma deterioração geral prolongada damos o nome de agonia e é o que sentimos ao logo de todo o filme que não romantiza situações onde a vida se degrada. Há intenso sofrimento no caminho de muitos dos personagens e, na verdade, todos nós sabemos que experimentamos dores ao longo de nossa jornada até a morte. Uma vez que os sofrimentos nos acompanham com tanta fidelidade, talvez pudéssemos “ouví-los” ao invés de insistirmos na crença ingênua de que seremos capazes de evitá-los ou vencê-los. Isto porque os dissabores transformam não só a materialidade do nosso corpo mas também nosso existir no mundo. Se fizermos uma analogia entre o sofrer e o ser submetido a altos graus de pressão e temperatura, processo pelo qual o grafite se transforma em diamante, percebemos que é através desse sofrimento que podemos nos conhecer, descobrir nossa riqueza interior e também nos lapidar. Lembrando que o diamante é a substância natural mais dura conhecida pelo homem e, em sua etimologia a palavra diamante significa indestrutível, o entendimento da dor que vivemos pode, desta forma, revelar o que em nós é indelével e eterno.

    

A doença terminal, em particular, por tornar a morte algo objetivo e próximo, não permite que se negue mais a finitude da vida. Assim, esta tem que ser reorientada, bem como seus objetivos, crenças e valores devem ser  acomodados na perspectiva de sua iminência e é o que o filme nos faz viver junto com Uxbal que corre contra o tempo para fazer os acertos necessários para o amparo dos filhos, ao mesmo tempo em que parece sentir o peso da culpa de seus erros.

imagesA doença terminal explicita na linha do tempo a etapa final de uma vida, da Opus Alquímica como chamavam os alquimistas da Idade Média, uma metáfora para o trabalho interior da alma durante nossa existência. Durante a Opus, a matéria ‘sofre’ e se transforma, sendo que tal sofrimento é dado como certo e desejado visto que o objetivo do processo é a transmutação do chumbo em ouro. Não chumbo e ouro físico e material mas a transformação de nossos aspectos de vulgaridade e escuridão plúmbeas em ouro alquímico, ou seja, na sabedoria reluzente que não se corrompe. Essa é a própria individuação de uma pessoa, processo de desenvolvimento psíquico que leva ao conhecimento consciente de sua totalidade.

images (7)Bipolaridade

Na película, Marambra, mãe do filhos de Uxbal, também sofre. Acompanhamos sua angústia psíquica em não ter equilíbrio emocional para cuidar dos filhos, apesar de tanto desejar viver seu papel de mãe. Há uma oscilação de humor que rompe a estabilidade de suas condutas e a harmonia de seus atos e infantiliza, em algumas passagens, sua maneira de estar no mundo. Esse estado pode ser nomeado genericamente de “bipolaridade”, mas o filme não nos permite fazer ou sugerir qualquer diagnóstico psiquiátrico específico. A psiquiatria é extensa nesse âmbito caracterizando diversos transtornos que variam de acordo com o tipos de instabilidade de humor, tempo de duração e intensidade dos sintomas.  Invariavelmente há importante prejuízo no funcionamento da vida do indivíduo, como podemos observar com Marambra no desenrolar do filme. Uma das grandes dificuldades relacionadas a essa condição é a dificuldade que o indivíduo apresenta de perceber quando os sintomas estão surgindo, admitir que seu estado começa a se tornar disfuncional, aceitar o tratamento proposto e concordar com sua manutenção a longo prazo.

Mediunidade

De forma genérica e simplista, a mediunidade é o instrumento através do qual um indivíduo pode fazer conexão com outras dimensões ou mundo espiritual. Vale lembrar que vou abordar o fenômeno do ponto de vista psicológico. Segundo essa perspectiva, a condição que alguns indivíduos possuem de conseguir efetuar contato com o que está além da nossa realidade têmporo-espacial estaria relacionada à uma capacidade psicológica normal que todos nós possuímos chamada dissociação. Vivenciamos essa possibilidade de forma leve quando sonhamos acordados ou nos perdemos no momento, enquanto fazemos alguma coisa. Alguns indivíduos podem experimentar esse fenômeno de modo intenso, como num transe, quando vivem os fenômenos mediúnicos. Uxbal possui a condição de se comunicar com os recém-falecidos e trazer aos parentes vivos algo que tenha ficado sem ser dito, amenizando a dor e facilitando a aceitação da morte do ente querido. Percebemos que isso, no entanto, não torna seu processo de partida menos doloroso, nem parece possibilitar a Uxbal, dar um sentido e significado à sua morte iminente. O protagonista não faz reflexões nem traz à luz de sua consciência o que essa condição poderia permitir.

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O anel

É muito rico percebermos que na última cena, o anel que era de sua mãe e que Uxbal dá à filha, traduz o símbolo de união entre eles e carrega a mensagem de que a ligação e a continuidade do amor nunca estará rompida. A forma circular do anel pressupõe o infinito, aquilo que não tem início nem fim, materializando o elo que permanecerá entre eles mesmo após a sua partida. Em suas últimas palavras à filha, Uxbal parece resgatar sua história transgeracional e unir aqueles que foram aos que ficarão, encontrando seu lugar na árvore familiar, imprimindo, enfim, a marca de sua essência na eternidade.

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