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Depois de Lúcia

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

Depois de LuciaSinopse: Depois da morte da esposa, Roberto e sua filha de 15 anos, mudam de cidade para tentar recomeçar a vida.

O filme nos faz sentir a dor de um luto e da violência moral, física e emocional causada pelo  bullying. Além disso, nos faz ouvir também, os gritos de angústia presentes na maneira silenciosa de sofrer de Alejandra e Roberto .

O título “Depois de Lúcia” nos localiza em que tempo se passa o filme, ou seja, na falta de Lúcia, que acabara de falecer. E é essa ausência, presente em todo o filme, que preenche o abatimento contido dos personagens.

 

Bullying

O bullying escolar tem sido definido como a hostilidade intencional e frequente de um aluno mais velho ou mais forte, ou de um grupo de alunos, (como é o caso do filme) dirigida a outro, podendo gerar diversas consequências físicas, morais e emocionais para aquele que o sofre, desde uma angústia acentuada até o assassinato ou suicídio. A vítima do bullying se constitui num bode expiatório, que é um alvo ideal para o agressor. Quando o sofredor do bullying demonstra ansiedade, chora ou não se defende, o agressor pode se sentir superior e satisfazer impulsos de crueldade e agressividade, além de se sentir bem, mesmo quando são outros que atacam a vítima.

De maneira simplificada, segundo a psicologia de Jung, aquilo que não aceitamos em nossa personalidade, reprimimos e estes elementos constituirão nossa sombra. Esta nos é inconsciente e teremos a tendência de projetá-la em outro indivíduo. No bullying efetuado por um grupo, o aluno agredido está sendo alvo da projeção de elementos sombrios coletivos e não da sombra de apenas um indivíduo. Independente de quais elementos estejam sendo projetados na vítima, que podem ser, “o feio, o estranho, o diferente, o fraco, o burro, o incompetente”, isso ocorre para que o coletivo possa expiar esses elementos que, embora negados, lhes pertence.

depois de luciaQuando existe alguém que carregue estas projeções, a maioria pode se sentir bem em sua mediocridade e essa é uma das grandes crueldades do coletivo. Segundo Jung, no grupo a emoção é contagiosa e o anonimato libera instintos e forças primitivas. Visto que a consciência de um grupo é inferior à consciência individual, cria-se um tipo de alma animal coletiva.

A respeito da vítima, podemos supor que inconscientemente este indivíduo possui um alto grau de agressividade que não consegue expressar de forma adequada. Ao sacrificar a expressão deste sentimento, se torna o alvo da maldade projetada dos agressores que a transformam em atos cruéis e cuja execução fica facilitada pela  passividade da vítima. Esta pessoa que sofre a violência precisará, assim, passar por um processo onde possa se tornar consciente de sua sombra, no caso de sua agressividade não aceita e reprimida, a fim de passar a externá-la para sua própria proteção e defesa.

Alejandra vive um momento bastante delicado e doloroso devido à morte da mãe, possivelmente carregando raiva pelo que a vida lhe impôs e eventualmente algum grau de culpa. Tudo isso vivido de forma contida, sem a troca de emoções com o pai e em silêncio. Em função da provável fragilidade em que se encontra e por estar vivenciando os fortes sentimentos de impotência que a morte causa, a garota pode ter se tornado vulnerável e indefesa frente ao mundo e sua maldade.

Luto

Pai e filha sofrem em silêncio. Na tentativa de evitar a expressão das emoções trazidas pela dor do luto, substituem tal vivência pelo empenho em se oferecerem cuidados recíprocos. Parecem, desta forma, querer se unir  e somar forças evitando levar problemas ou tristezas um ao outro. Mas como vemos com o desenrolar da história, tentar poupar dificuldades acaba resultando em distanciamento. Ao negarem suas dores ou raivas decorrentes do luto, correm o risco de se tornarem passivos e vítimas indefesas de atos violentos como ocorre com Alejandra  ou, de maneira  compensatória, se tornarem ativos e explosivamente destrutivos, como no caso de Roberto.

images (5)Nesse grande momento de dor, percebemos pai e filha tentando seguir com firmeza a rotina dos dias conseguindo, no entanto, apenas uma frágil estabilidade. Rasa e seca. Vivem este duro período de perda de maneira emocionalmente árida, carecendo da flexibilidade úmida que as lágrimas, o escorrer das emoções ou o transbordar da dor poderiam lhes possibilitar. Este movimento e profundidade emocional que os personagens não são capazes de experimentar, o filme trará, como compensação e contraste, nas imagens da profundeza do oceano e suas ondas. O início da película mostra  Alejandra próxima ao mar e também enfatiza seu gosto pela água nas cenas onde nada na piscina. Além disso, é pelo mar que ela encontra uma ‘solução’ e foge da maldade praticada por seus pares. E por último, também é o mar que acolhe a vingança de Roberto no final do filme. A água simboliza os sentimentos e as emoções em movimento que estão negadas e reprimidas, surgindo apenas do lado de fora da vida de pai e filha. A partir desse simbolismo, abordarei a operação alquímica denominada “solutio”.

A alquimia foi estudada e entendida por Jung como uma forma de compreender o que se passava no psiquismo dos alquimistas visto que as transformações que eles produziam na matéria correspondiam a projeções psíquicas de seu inconsciente. Assim, cada uma das operações alquímicas traz um significado psicológico para quem está envolvido com determinado elemento. A partir da conscientização desse significado é possível ao indivíduo adquirir maior conhecimento a respeito do que vem vivendo internamente podendo, assim, se compreender melhor.

Como dito, a “solutio” é a operação alquímica relacionada à água, que é o elemento simbólico recorrente no filme.

Segundo Edinger, a experiência da solutio ‘soluciona’ problemas psicológicos mediante a transferência da questão para o domínio do sentimento. Em outras palavras, dá respostas a questões ao dissolver a obstrução da libido a respeito da qual a questão era sintoma, no caso a perda e o luto. Simbolicamente, o fenômeno da ‘solutio’ corresponde à dissolução através da fluidez das emoções dos aspectos estáticos da personalidade que resistem a mudanças.

Finalizando, o luto é um tempo duro que precisa lentamente se desmanchar.

É um gelo, um choro cristalizado que precisa derreter sob o calor do coração e escorrer como as lágrimas para que a vida possa voltar a fluir.

 

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