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Relatos Selvagens

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

relatos selvagensSinopse: O filme reúne seis histórias em que situações ruins, porém comuns, se transformam em grandes tragédias.

Nosso lado selvagem

Não temos dificuldade em perceber que o filme diz respeito ao lado instintivo e primitivo presente em todos nós.

Já durante os créditos são exibidas diversas imagens de animais ferozes fazendo uma alusão aos comportamentos selvagens que os personagens apresentarão durante a película.

Cabe aqui uma breve descrição da simbologia animal.

Muitas vezes o inconsciente nos envia, sob a forma de sonhos, fantasias e imagens, conteúdos que merecem nossa atenção. Segundo Eliade, o animal simboliza os poderes do inconsciente e o nosso lado ligado aos instintos, geralmente apresentando seus aspectos obscuros e perigosos. A energia psíquica, quando aparece em imagem teriomorfa (nome que se aplica à transformação de um homem em um animal, total ou parcialmente) simboliza que a impulsividade “animal” se encontra em estado reprimido.

A Sombra

O que existe em nós e que não é aceito socialmente iremos reprimir ao longo da vida. Isso se constituirá numa parcela de nosso inconsciente denominada, por Jung, de Sombra.

A sombra é formada pelos conteúdos do inconsciente pessoal que foram reprimidos pelo ego. Inclui tendências, desejos e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo, são contrárias aos padrões e ideais sociais e incompatíveis com a imagem que se pretende mostrar ao mundo.

Sabemos que a sociedade em geral desaprova a expressão de algumas emoções, como por exemplo, a raiva. Isso leva algumas pessoas a reprimirem e evitarem demonstrar tal emoção, muitas vezes passando a ter pouco acesso à ela e chegar ao extremo de negar sua existência e experiência. Tais indivíduos geralmente são passivos e às vezes excessivamente tolerantes. A repressão de uma emoção não a extingue e, nas palavras de Jung, “tudo que resiste, persiste”. Desta forma, a raiva se acumula no inconsciente e gera tensão, numa tentativa de poder se expressar. Torna-se grande o risco do indivíduo subitamente passar ao polo da agressividade e transformar em palavras ou atos, os elementos da sombra que estavam reprimidos.

Segundo Jung, “A sombra apresenta-se muitas vezes como um ato impulsivo ou inadvertido. Antes de se ter tempo para pensar, irrompe a observação maldosa, comete-se a má ação, a decisão errada é tomada, e confrontamo-nos com uma situação que não tencionávamos criar conscientemente.”

Ativada pela energização de um complexo, como se fosse o disparo de um “gatilho”, tal emoção pode chegar à consciência de forma abrupta e exagerada, assumindo o controle do ego do indivíduo, que se torna disfuncionalmente agressivo. O indivíduo perde a possibilidade de experimentar e agir de maneira assertiva, de modo a atingir seu objetivo. Na verdade, o tempo todo somos exigidos a buscar um equilíbrio entre nosso instinto e os valores que introjetamos através da cultura; entre nossa primitividade e civilidade. Segundo Jung, “o excesso de animalidade distorce o homem civilizado, mas o excesso de civilização deixa os animais doentes”. Ainda em suas palavras, “o processo da cultura consiste em dominar cada vez mais o animal que há no homem”. Para tal, precisamos admitir esse nosso lado animal, conhecer o que ele tem a nos dizer e, sem desrespeitar a moral vigente, encontrar nossa própria harmonia e nossa própria ética.

 

Os episódios

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O filme explora algumas situações cotidianas onde claramente testemunhamos o predomínio da animalidade nos atos humanos. Darei uma breve percepção psicológica dos seis episódios que o compõem.

Na história que abre a película, um piloto e músico frustrado reúne em uma avião todas as pessoas que em algum momento o magoaram ou o rejeitaram. O objetivo é derrubá-lo com todos dentro, em cima da casa de seus pais. Aqui já observamos um indivíduo que provavelmente “guardou” frustrações, “engoliu” raiva e agora decide pela vingança destrutiva e mortal, inclusive dos pais. Estar nas alturas no comando de um avião nos remete a um sentimento de onipotência, num contraponto extremo e compensatório à possível impotência crônica vivida pelo personagem. De maneira simbólica, um avião que se choca parece mostrar que algo até então inconsciente vai saltar no âmbito da compreensão humana, simbolizando um contato brutal com a realidade concreta. O filme usa tal alegoria sugerindo o grau de intensidade e força que a repressão possui e o grau de destruição que é capaz de ocasionar quando não é conscientizada pelo indivíduo.

A segunda história expõe o caso de uma garçonete que atende no meio da noite o homem responsável pelo declínio de sua família e pelo suicídio de seu pai. Testemunharemos aqui novamente o sentimento de vingança que é conhecido por todos nós e cuja atuação é sempre questionada. Na verdade, a garçonete vive um conflito entre a vingança e o remorso. Quando somos capazes de admitir um desejo de vingança e não o reprimimos, temos tempo de avaliá-lo frente à outras emoções como, no caso, o remorso e não necessariamente o transformamos num ato. No filme, a garçonete não comete o crime e é a cozinheira quem o executa, num misto de vingança e frieza, onde cabe, inclusive, um questionamento sobre a presença de traços de psicopatia. 

O terceiro episódio narra uma série de incidentes que acontece quando o pneu do carro de um homem fura em uma estrada deserta. Dá-se uma intolerância e competitividade mórbida entre os personagens que rapidamente culmina em atos de ódio, ira e agressividade. De fato, tornam-se selvagens, numa verdadeira guerra entre os aspectos sombrios e brutais que irromperam na consciência de ambos os homens. Lutam de maneira brutal tomados pelos instintos primitivos e morrem concretamente inflamados pelo ódio, unidos fisicamente, sugerindo a ligação através do extrato animal que nos compõe.

O quarto relato conta sobre um  engenheiro indignado com uma multa de trânsito e com a burocracia a que precisa se submeter. Inicialmente vem à tona o sentimento de impotência e gradualmente vemos crescer no personagem a necessidade de vingança social. Novamente o ego é “possuído” pela fúria que passa à violência e destruição. Simbolicamente a vida do personagem passa por uma “detonação” que revela elementos de sua sombra se contrapondo à sua persona, ou seja, a de um respeitado engenheiro perito em demolições. A história traz ainda a imagem do bolo de aniversário inserido em dois contextos extremos de comemoração, evidenciando a polaridade das experiências, o conflito e o constante contraste a que estamos emocionalmente submetidos.

Na quinta história, um milionário tenta livrar da cadeia, o filho que atropelou fatalmente uma grávida e fugiu. Os aspectos sombrios serão evidenciados, neste caso, num conjunto de pessoas, cada uma atuando sua mesquinhez e indiferença ao outro. Há também abuso do poder e corrupção, numa crítica social que nos permite perceber que os aspectos sombrios podem ser vivenciados coletivamente por um grupo ou mesmo uma nação. Lembrando que grandes massas constelam mais imediatamente o lado animal do indivíduo e que, muitas vezes, grandes organizações são como animais selvagens em busca de presas.

O último episódio retrata uma festa de casamento que se transforma completamente após a noiva descobrir que seu futuro marido a traiu com uma das convidadas. A festa de casamento é em nossos tempos um dos poucos rituais de passagem que ainda é formalmente vivenciado e, como todo ritual, segue formalidades, costumes e normas sociais. Sentimentos e experiências reprimidas são capazes, quando emergem na consciência e ganham “vida própria”, de transgredir mesmo as convenções sociais mais rígidas. A traição é, nessa história, o sentimento que catalisará a emergência de outros elementos sombrios como raiva, vingança e destrutividade, compondo um cenário de desespero e selvageria próprios de uma luta pela sobrevivência. Na verdade, podemos ver, metaforicamente, nosso inconsciente lutando pela sobrevivência de emoções genuínas que nossa consciência tenta exterminar a qualquer custo. E essa história é um retrato dessa força e necessidade.

O poder do afeto

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Um outro ponto importante que gostaria de destacar a respeito do filme é a questão de nossos afetos.

Ligada às nossas emoções e sentimentos, a afetividade, por nos “afetar”, consegue determinar o modo como percebemos o mundo e também a maneira como nos manifestamos nele. Algumas passagens da mitologia já ilustraram esse fato. No mito de Demeter e Perséfone, por exemplo, é através do humor obsceno que Baubo consegue tirar Deméter de sua depressão, dando-lhe energia para continuar a busca de sua filha desaparecida e que irá permitir, posteriormente, que as terras voltem a vicejar.

A influência do humor em nossa visão de mundo aparece também em outro trecho da mitologia. Uzume, antiga deusa xamã japonesa, foi a única capaz de instigar a Deusa do Sol, Amaterasu, a sair da caverna onde ela havia se escondido. Uzume executou uma dança obscena onde mostrava  os seios e brincava com seus órgãos genitais, em meio aos uivos e risos das divindades reunidas. A agitação foi tamanha que a curiosidade de Amaterasu levou-a a sair da caverna e o sol voltou a brilhar.

Percebemos, claramente, em todo o filme, que o humor permeia as várias situações apresentadas, suavizando a dureza com que os atos dos personagens chegam a nós. Facilitando o contato e permitindo a empatia, é o humor, no caso o humor negro, que acaba colaborando com nossa receptividade e nos torna até, em alguns momentos, solidários às ações de alguns personagens. O humor gera certa luminosidade à escuridão dos atos sombrios apresentados na película.

Estamos no filme?

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E para finalizar, há um ponto importante que gostaria de destacar. Todos nós nos reconhecemos nesta ou naquela atitude de determinado personagem e nossas emoções estão “projetadas” na tela.

A projeção é um conceito desenvolvido por Jung que consiste num fenômeno através do qual projetamos, de forma inconsciente, em outros seres humanos, animais ou objetos, tudo o que nosso consciente reprime. A projeção pode ser negativa ou positiva. Assim, tudo o que criticamos ou desprezamos nos outros, aquilo que nos enerva e nos é hostil é a projeção de nossos elementos inconscientes;  o mesmo sucede com tudo o que admiramos, nos agrada e cobiçamos nos outros. Em outras palavras, aquilo que nos toca, ressoa em nossos elementos inconscientes e necessitamos reconhecê-los a fim de conhecermos mais a nosso respeito e nos ampliarmos como indivíduos.

Somos luz mas também somos sombra. Sempre. E essa sombra nos pede um olhar atento visto que, se ela nos dificulta alcançarmos a tão desejada mas impossível perfeição, nos permite, por outro lado, conquistar nossa necessária, possível e saudável completude.

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