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A Casa em Cubinhos

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE.

O FILME ENCONTRA-SE DISPONÍVEL NO NETFLIX

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Sinopse: O filme conta a história de um velhinho que vive solitário em uma cidade inundada.

A Casa em Cubinhos (“Tsumiki no ie”) é um curta-metragem de animação japonês criado por Kunio Katō em 2008. Ganhou o prêmio Oscar de melhor curta de animação de 2009.

Transbordando de poesia, o curta-metragem mergulha nos temas do fluir da vida, velhice e memória com extrema delicadeza e profundidade.

O fluir

Como as belas imagens do filme nos contam, construímos nossa vida e nossa história assim como erguemos nossa casa. Ela nos simboliza, nos contém e expressa nossos movimentos do viver, com seus períodos de corajosas expansões ou temerosos recuos.

Superpondo nossos “cubinhos”, criamos nossa identidade e nossa morada, impulsionados pelo fluir aquoso do tempo.

A cada etapa percorrida, a água da vida nos obriga a rearranjar nossas atitudes e, através da construção de um novo “cubinho”, nos adequamos às novas necessidades. Como um farol que aponta para o alto, ascendemos a torre do viver, construindo dia-a-dia nosso futuro e nosso devir.

Por fim, libertos do supérfluo e, concentrados em espaços menores e de maior experiência, nos dirigimos ao “cubinho” derradeiro e à morte, sempre atraídos pela nostálgica beleza que a transcendência dos céus nos promete.

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Me recordei de uma poesia que há alguns anos escrevi:

“Se o fluir do tempo lavasse

A sujeira de minhas maldades

Se o fluir do tempo limpasse

As marcas dos negros enganos

Se o fluir do tempo levasse

As lembranças de todos meus danos

E perdoasse…

Como água ligeira escorrendo

À você eu retornaria

E o leito cansado do meu rio

Ao seu mar

Afinal

Se entregaria”.

A velhice e a memória

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A água temporal que incansavelmente nos sobrepõe, sabiamente não dissolve a cola da memória.

A história inscrita nas lembranças de cada indivíduo se constitui num patrimônio pessoal valioso cuja preservação está relacionada à nossa saúde emocional. Durante a velhice isto é particularmente importante uma vez que o idoso que não consegue recordar momentos ou passagens vividas pode se sentir incapaz, doente e angustiado.

Nas palavras de Bobbio:

“O mundo dos velhos, de todos os velhos, é de modo mais ou menos intenso, o mundo da memória. Dizemos: afinal, somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos. E eu acrescentaria: somos aquilo que lembramos. [....]. Na rememoração reencontramos a nós mesmos e a nossa identidade, não obstante os muitos anos transcorridos, os mil fatos vividos. Encontramos os anos que se perderam no tempo, as brincadeiras de rapaz, os vultos, as vozes os gestos dos companheiros de escola, os lugares, sobretudo aqueles da infância, os mais distantes no tempo e, no entanto, os mais nítidos na memória. Eu poderia descrever passo a passo, pedra a pedra aquela estrada dos campos que percorríamos quando rapazes para chegar a uma herdade um pouco fora de mão (BOBBIO, 1997)”.

À medida em que envelhecemos nossas lembranças se avolumam e o ato de revisitá-las permite reforçar o cimento da casa da vida, prosseguindo em sua construção.

É do vínculo com o passado que se extrai a força para formação de identidade, principalmente quando cuidamos das lembranças vividas nos diferentes tempos da vida. E é através da memória que conseguimos, de algum modo, a preservação e a retenção do tempo, salvando-o do esquecimento e da perda.

Uma foto, um lugar, uma música, um cheiro ou uma comida são iscas que nos fazem mergulhar em recordações que curam, se estivermos em paz com nosso passado. Sensivelmente, o filme escolhe o cachimbo, símbolo da paz, para fisgar o idoso às profundezas vividas.

Para os velhos, a prática de recordar contribui para fortalecer ou restituir o senso de identidade e a autoestima. A capacidade de manter o passado vivo, principalmente na presença de uma escuta atenta, é um dos mecanismos que as pessoas idosas encontram para manter a sua integridade psicológica (Bosi, 1998).

A memória nos torna capazes de revisitar nossos eus mais profundos, submersos em recordações, e trazê-los à tona, renovados de esperança. Ao atribuir significado ao que somos, a memória revela seu aspecto prospectivo, voltado ao planejamento e que nos permite imaginar o que viremos a ser. Sendo assim, a memória não apenas agrega e solda toda a experiência vivida do idoso mas também lhe dá a oportunidade de impulsionar à si mesmo rumo ao futuro.

E então, com as taças do passado e do presente em mãos, estamos prontos para fazer um brinde ao adiante, à vida que prossegue e à nossa história não finda.

Referências

BOBBIO, Norberto. O tempo da memória – de senectude e outros escritos autobiográficos: Rio de Janeiro, Campus, 1997. 

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Cia das Letras, 1998.

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