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Hipócrates: Diário de um médico francês

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE.

O FILME ENCONTRA-SE DISPONÍVEL NO NETFLIX

HipocratesSinopse: Benjamin inicia sua residência acompanhando outro colega residente mais velho e experiente e logo descobre que a realidade do dia a dia está distante da teoria.

Medicina


Este longa traz um panorama sobre a medicina e seu exercício profissional na França, com semelhanças ao que testemunhamos aqui no Brasil.
Levanta questões sociais de saúde como a precariedade da estrutura médica e falta de recursos, tensão e discriminação do profissional estrangeiro em sua inclusão no sistema vigente e dilemas pessoais frente a questões éticas e situações-limite da vida.
Diante de tantos enfoques que o filme permite, optei pela perspectiva da relação do médico com o sofrimento do outro.
O filme escancara a angústia e o tão frequente despreparo do jovem médico Benjamin recém admitido, diante de suas limitações e erros. E nos confronta com a ambivalência de sentimentos a que somos submetidos diante de questões éticas que envolvem sofrimento, dignidade e finitude da vida.

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O curador ferido


Esse termo cunhado por C.G.Jung nos conduz, de maneira bastante simplificada, à ideia de que um curador é compelido a tratar um outro indivíduo porque ele mesmo foi ferido. Ao mesmo tempo e de modo complementar, todo paciente ferido possui um médico dentro de si que, quando ativado, mobiliza seus próprios recursos de cura. Trata-se de um binômio.

No entanto, a fim de me ater ao filme, restringirei o foco dessa reflexão a apenas um dos polos, o da ferida que o médico carrega dentro de si.

Geralmente o curador não sabe e não reflete a respeito de suas dores, sendo que sua “decisão” por determinada profissão voltada para a cura acaba sendo uma escolha inconsciente que, apesar de desconhecida ao ego, tem como desejo último, aplacar seu próprio sofrimento interior. Aquele que se propõe a curar, muitas vezes entende esse movimento de escolha profissional como uma vocação ou “chamado”, não se aprofundando a respeito dessa motivação. Como se curar fosse um antídoto para não sofrer. Uma vacina para adquirir imunidade diante das enfermidades e dores do viver. Assim, o sofrimento fica reservado ao paciente que se torna o receptáculo das projeções das chagas de quem cura e não sabe que as possui. É muito importante que o curador (médico, terapeuta, por exemplo) possa conhecer a si mesmo, de modo a não ficar identificado e preso na condição unilateral de quem tudo pode, insistindo em negar seu sofrimento, colocando-o “do lado de fora”, projetado em seu paciente. Ao adquirir essa consciência, passa a poder admitir suas limitações, falibilidade e a possibilidade de cometer erros. Abandona o nocivo auto-endeusamento, passa a praticar a empatia e ouvir o outro. Humaniza-se.

O médico diante da morte

Apropriando-se da capacidade de reconhecer as próprias feridas e imperfeições inerentes a elas, o médico se dá conta que não é divino e que suas ações esbarram em inevitáveis limites. Percebe que seu poder não é absoluto e passa a definir com tranquilidade até onde quer e deve agir humana e eticamente. Esta nova possibilidade remete a outra questão muito importante que é a do curador aceitar a morte como parte da vida. Procurar a cura não possibilita a ninguém, eliminar definitivamente a morte. E saber recebê-la  permite ao médico a possibilidade de preparar com dignidade a chegada desse momento solene. O filme cuida de trazer a morte de duas formas: a inesperada, fruto da limitação de recursos e do erro humano e aquela esperada e até desejada, muitas vezes difícil de ser compreendida pelo curador onipotente. Benjamin sofre por descobrir-se falível. Abdel, mais maduro e conhecedor dos seus limites, por ser impedido de oferecer uma finitude digna à paciente idosa sem perspectivas de viver.

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Empatia e Humanidade

No filme, Abdel nos presenteia com o calor de sua empatia, possibilidade que todos possuímos de nos colocar no lugar do outro e sintonizar nossos corações numa mesma frequência e batimento. Percebe as angústias do colega jovem, inexperiente e assustado, compartilhando com ele a humanidade que admite erros e finais. Sente a proximidade da morte e o desejo de partir da senhora que vive seus últimos dias, aceitando-a e cuidando para proporcionar a dignidade que é direito de todo ser humano.

Enfim, a figura de um curador ferido vem nos contar sobre o valor das feridas dentro de si mesmo que, embora façam sofrer, abrem caminho para um entendimento maior a respeito das leis da vida.

A dor é inevitável. Penetra a alma, corta e faz sofrer. Mas é essa mesma dor que aprofunda nosso ser no mundo e nos cicatriza em camadas cada vez mais firmes de humanidade.

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