O site pretende explorar temas da psiquiatria e conceitos da psicologia jungiana em filmes de cinema.

Chronic

ATENÇÃO: A HISTÓRIA DO FILME PODE SER REVELADA NO POST. FICA A SUGESTÃO DE ASSISTÍ-LO PREVIAMENTE

Cronic

Sinopse: David (Tim Roth) é um enfermeiro que fornece assistência em domicílio a pacientes em fase terminal.

O filme "Chronic" (2015), do mexicano Michel Franco, único filme da América Latina na disputa pela Palma de Ouro, provocou um impacto no Festival de Cannes com uma descrição sóbria, realista e devastadora do fim da vida.

A palavra “crônico”, em sua origem, está associada à palavra grega “khrónos”, que significa tempo. No filme refere-se ao tempo lento e inevitável que algumas dores físicas e psíquicas nos são impostas na passagem para a morte.

O longa-metragem aborda com sutileza, situações como a passagem do tempo para pessoas que não esperam mais nada, em um clima de tédio infinito. O enfermeiro David dedica sua vida em cuidar dos doentes terminais e apesar do simultâneo distanciamento afetivo que nos transmite, de forma alguma ficamos impedidos de sentirmos sua entrega e empatia com os doentes. De fato, em alguns momentos, poderíamos supor que o protagonista parece depender da dor do outro para suportar a angústia que carrega em seu íntimo. Na aridez que impõe à sua vida, dedica flores apenas aos finais alheios. Contensão e distanciamento o defendem de oferecer a si mesmo, a humanidade que derrama sobre aqueles que estão diante do muro da finitude.  

 

Dor

Apesar da necessidade inerente ao humano de polarizar o mundo a fim de acessá-lo e compreendê-lo, é indiscutível que essa divisão é artificial e, na verdade, somos uma totalidade. A separação que fazemos entre corpo e mente é fruto da forma como podemos apreender a realidade, mas físico e psíquico são aspectos que de algo único.

Nas palavras de C.G. Jung: “A dor humana vive unida ao corpo, numa unidade indissolúvel, por isso só articuladamente é que se pode separar a psicologia dos pressupostos básicos da biologia. (…)”. Sendo assim a manifestação de um sintoma físico nunca deixa de ter também um caráter psicológico, constituindo-se numa linguagem simbólica do Inconsciente.

Segundo o mesmo autor: “Um funcionamento inadequado da psique pode causar tremendos prejuízos ao corpo, da mesma forma que inversamente, um sofrimento corporal afeta a alma, pois a alma e o corpo não são separados, mas animados pela mesma vida.”

E obviamente, o sintoma chamado dor está incluído nessa forma de entendimento. A dor é antes de tudo, seja ela física ou psíquica, um grito do inconsciente e é imprescindível que todo profissional de saúde possa saber ouví-la e atendê-la. Na película, Tim se entrega ao cuidado das dores externas, parecendo negligenciar suas próprias angústias decorrentes de traumas passados, como aos poucos o filme nos revela. Tenta fugir e se distanciar, ingenuamente tentando deixar para trás, aquilo que não conseguiu elaborar dentro de si.

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Finitude

A doença grave, terminal ou outras situações-limite, por tornarem a morte objetiva e próxima, não permitem que se negue mais a finitude da vida. A perspectiva da iminência da morte traz à tona questões como medo da dor e do sofrimento, apreensão em deixar a família desamparada e conflitos do passado. Obviamente o sofrimento acaba por abranger também a família que nem sempre consegue cuidar do enfermo e, não raro, acaba tendo que lidar com sentimentos de impotência e culpa. No filme, David chega a enfrentar hostilidade de parentes e a acusação infundada de assédio sexual contra um paciente idoso. De fato, a família necessita acolhimento tanto quanto o doente.

 

Cuidados Paliativos

Proteger é o significado de paliar, derivado do latim pallium, termo que nomeia o manto que os cavaleiros usavam para se proteger das tempestades pelos caminhos que percorriam. Proteger alguém é uma forma de cuidar, tendo como objetivo amenizar a dor e o sofrimento, sejam eles de origem física, psicológica, social ou espiritual. Essas são as palavras que o site da Academia Nacional de Cuidados Paliativos escolhe para definir essa modalidade de atendimento que trabalha em equipes multidisciplinares. Vale ressaltar que os Cuidados Paliativos se baseiam no conceito denominado ortotanásia que se define como morte natural, digna e sem sofrimento aos pacientes irrecuperáveis, sem interferência de meios como medicamentos e aparelhos Distingue-se da eutanásia que é a prática pela qual se abrevia a vida de um enfermo incurável, em estado terminal ou que esteja sujeito a dores e intoleráveis sofrimentos físicos ou psíquicos, de maneira controlada e assistida por um especialista. No Brasil é considerada homicídio.

No filme David trabalha sozinho e carrega pessoas e dores tentando substituir o auto-perdão que não consegue se oferecer. Possivelmente a ideia da película é enfatizar o caráter humano e de entrega do personagem, que aceita o sofrimento e a morte tentando oferecer dignidade aos últimos dias de quem parte. Obviamente na prática dos Cuidados Paliativos o que se preconiza é o trabalho construtivo em equipe e não uma destrutividade pessoal em busca de redenção. Isso, no entanto, não tira a beleza e importância do filme que pode fazer crescer a reflexão sobre a maior necessidade de atenção ao tema, visto a lacuna de serviços, desconhecimento e preconceito relacionados aos Cuidados Paliativos no Brasil.

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Concluindo, o longa trata do tema universal da doença e da finitude, ainda um tabu para nossa sociedade ocidental, focada exclusivamente em suas lutas onipotentes e desesperadas contra a morte. Carrega a nudez brutal da dor, que entretanto é passível de se dissolver na força delicada do cuidado amoroso que podemos oferecer àqueles que morrem.

 

Referências

1. JUNG, C. G. Natureza da Psique. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

2. JUNG, C. G. Psicologia do Inconsciente 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

Site da Academia Nacional de Cuidados Paliativos - http://paliativo.org.br/

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